50 pesos argentinos pela história das Ilhas Malvinas

Todo mundo que conhece a Argentina sabe da obsessão do país em recuperar a soberania nas Ilhas Malvinas, mas provavelmente muitos desconhecem a história de luta do país pelas ilhas. Agora, essa história passa a valer 50 pesos, ou quem sabe o dinheiro é muito mais do que aquilo que ele pode comprar. A talentosa jornalista Aline Gatto Boueri, correspondente do Opera Mundi em Buenos Aires e membro da equipe editorial da Revista Geni, escreveu um delicioso texto sobre a nova nota, lançada este mês pelo Banco Central argentino, e ofereceu ao blog, que aceitou feliz e o reproduz aqui abaixo.

Argentina e o dinheiro: qual é a história que as novas notas pesos contam?

Por Aline Gatto Boueri

50 pesos frente

Fetiche, mercadoria, símbolo nacional: o dinheiro, segundo a tradição teórica que o descreva, é tudo isso. Todos os dias, a maioria dos seres humanos do mundo manuseia uma nota de dinheiro ao menos – ou pensa nela. Somos capazes de reconhecê-las de longe, sem vê-las (pelo toque) e, inclusive, de reconhecer as que circulam em outros países.

Acreditamos no valor atribuído a esses pedaços de papel que trocamos por comida, bens, serviços e otras cositas más. Somos devotos e/ou detratores do dinheiro, às vezes simultaneamente. Profanamos e também cuidamos as notas que passam por nossas mãos, que muitas vezes chegam já maculadas por alguma mensagem ou um bigodinho desenhado na cara de um herói nacional – no casos dos países que, diferente do Brasil, os homenageiam em suas notas.

A Argentina é um deles. Cada nota traz um rosto, sempre controverso, de alguém a quem os livros de história dedicam suas páginas. Até 2012, todos esses personagens importantes eram homens. E foi aí que o governo de Cristina Kirchner lançou, na mais valiosa de suas notas, o rosto de Maria Eva Duarte de Perón, a Evita, falecida 60 anos antes.

Até então, o valor máximo da moeda argentina era representado apenas pelo retrato de Julio Argentino Roca, ex-presidente entre 1880 e 1886 e entre 1898 e 1904. Roca esteve à frente da Campanha do Deserto, um genocídio que aniquilou comunidades indígenas, correu a fronteira argentina e fortaleceu o latifúndio no país que passou a ser o “celeiro do mundo”.

A partir deste mês de março, outra série de notas especiais começam a circular na Argentina. A partir de agora, os $50 pesos que circulam com o rosto de Domingo Faustino Sarmiento, também ex-presidente (1868-1874), pai da educação pública e reconhecido por seu marcado racismo dezenovesco, vão conviver com notas em homenagem às Malvinas.

Anunciada pela presidente Cristina Kirchner em 2 de abril de 2014, feriado nacional que lembra o começo do conflito bélico com a Grã-Bretanha pela posse das ilhas, a nova nota traz um mapa do arquipélago conformado pelas Malvinas, as Ilhas Georgia e Sanduíche do Sul, ao lado de um mapa de América Latina e Caribe.

50 pesos verso

A questão das Malvinas é um dos poucos consensos nacionais na Argentina. A soberania sobre esses territórios e seu mar circundante é quase uma unanimidade no país das contrariedades.

As ilhas são também um símbolo de um antagonismo que já dura mais de 200 anos no sul da América: a resistência criolla e o colonialismo inglês, que tantas histórias épicas rendeu à História argentina. Entre elas está a defesa de Buenos Aires contra as invasões inglesas, em 1807, quando os moradores da cidade evitaram sua ocupação com pedras, tiros, água e óleo fervendo atirados pelas janelas e terraços das casas.

Há quase 50 anos, em dezembro de 1965, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 2065 pela qual reconheceu a ocupação das Malvinas como uma forma de colonialismo britânico e convidou os governos de ambos países a encontrar uma solução pacífica à disputa pela soberania das ilhas.

No entanto, em 2 de abril de 1982, a ditadura argentina enviou suas tropas às Malvinas. O objetivo declarado era recuperar as ilhas, ocupadas pela Grã-Bretanha em 1833. O conflito com a potência europeia durou pouco mais de dois meses: em 14 de junho, as autoridades dos países envolvidos na guerra assinaram um cessar-fogo.

A derrota agravou a já cambaleante situação do regime ditatorial na Argentina, que terminou de cair em dezembro de 1983 depois de pouco mais de sete anos de terror. No entanto, durante o breve período de tempo em que os argentinos foram levados a acreditar que o país estava prestes a recuperar aqueles pedaços de terra no Atlântico Sul – convencidos por notícias fantasiosas que relatavam a rendição inglesa – o que havia era otimismo. O fim da ocupação estava próximo.

O regresso das forças argentinas ao continente foi mais uma demonstração da covardia autoritária da ditadura argentina. Em um retorno às escondidas e pelos fundos, jovens de 18 anos em serviço militar obrigatório foram impedidos de contar suas histórias. Enquanto os superiores sequer pisaram as ilhas, desviaram recursos e doações destinados à guerra e blindaram informações sobre as derrotas argentinas, muitos recrutas morreram de frio, fome e abandono nas ilhas.

É por isso que a “questão das Malvinas” não é mais somente um assunto de soberania. Depois da guerra, passou a inscrever-se também no âmbito da memória sobre o passado recente, da reparação e justiça pelos crimes cometidos pela última ditadura, a principal bandeira – junto à da soberania – levantada pelo kirchnerismo durante os 12 anos em que esteve no poder (de 2003 até agora).

100 evita

Evita foi promotora do voto feminino na Argentina, foi uma líder carismática que traçou seu próprio caminho ao lado de seu marido, Juan Domingo Perón. Foi uma mulher de destaque na política e é hoje um símbolo das reformas populares promovidas pelo peronismo. As Malvinas são o símbolo de uma luta por soberania e pela elucidação dos crimes cometidos pela ditadura.

Juntas, as duas novas notas que Cristina Kirchner legou aos argentinos são a prova de que o dinheiro é muito mais do que ele pode comprar. Todos os dias, alguém vai tocar o rosto de Evita ou o mapa do arquipélago do Atlântico Sul e, com esses desenhos, vai pagar suas contas mais caras.

  • Guilherme

    Se os Argentinos tivessem esperado, talvez as Falklands teriam voltado à posse argentina naturalmente, como Hong Kong foi a China. Como foram burros e resolveram invadir ilegalmente, atraíram para si a antipatia de todos os países do ocidente e aconteceu o que aconteceu.

    Cristina Kirchner está incorrendo no mesmo erro de Galtieri ao incitar um nacionalismo questionável em época de descontentamento com o governo e com a economia.

    • antonio

      senhor guilherme as pessoas desinformadas como vc na argentina são chamadas de pelotudos que é algo parecido com babaca,se não conhece a historia não opine meu amigo,comparar a presidenta cristina com galtieri só passa pela cabeça de um pelotudo,vc tein uma mente colonizada por esso opina de essa maneira,a cristina reclama con justo direito em todos os foros internacionais e sempre de forma pacifica pero para uma mente colonizada como a sua não o faz de maneira politicamente correta,por que se põe de igual a igual ante outros estadistas e esso para vc que gosta de olhar para o chão quando fala com os imperiais e uma maneira errada.

    • natalia

      Estava pensando justamente nisso… como você é desinformado. E digo mais, o que é dos outros não deve ser tomado por ninguém. Jamais em história nenhuma alguém tentar recuperar o que foi perdido e lhe corresponde justifica a “antipatia” e direito de quem o rouba.

  • Natália

    ótimo texto!

  • Ótimo texto, e que não esquecemos que o imperialismo mantém suas “bases” em nosso países de latinoamérica, como eternos invasores.

  • Jackson

    Os opositores do governo argentino odeiam essa nota de 100 pesos com a imagem de Evita Perón. Em regiões como Mendoza, algumas pessoas dizem até rejeitá-la. Segundo eles, na parte onde esta escrito:
    Banco Central de LA
    Republica ArgenTINA

    O “La Tina” (destacadamente em vermelho) é uma referência que Cristina Kirchner colocou a si mesma para associá-la à imagem de Evita Perón.