8 razões para conhecer e defender o projeto da Unila

No último dia 15 de agosto, a Unila conheceu suas primeiras turmas de graduados. Com uma vocação estritamente latino-americana, a universidade conta com um projeto inovador, calcado no tripé bilinguismo, interdisciplinaridade e integração dos países latino-americanos. Esta Rede traz abaixo um relato de Chico Denis, recém-formado em Relações Internacionais e Integração pela Unila, que nos aponta os motivos pelos quais se deve defender esse projeto, bem como os desafios urgentes que ele deve enfrentar já nos próximos anos.
Por Chico Denis*
1. O Início

Ex-presidente Lula sanciona projeto para a criação da Unila. Crédito: Facebook Unila

Ex-presidente Lula sanciona projeto para a criação da Unila. Crédito: Facebook Unila

A Unila está localizada em Foz do Iguaçu e iniciou suas atividades acadêmicas em agosto de 2010. A ideia de criar uma universidade de integração tem raízes no próprio Mercado Comum do Sul (Mercosul), que já trazia uma discussão antiga de criar uma Universidade do bloco de integração. O projeto não teve apoio político e institucional de todos os países-membros, pois estes ainda viam como prematura a ideia de ter uma universidade em comum. No entanto, o projeto foi retomado pelo Estado brasileiro no governo do então presidente Lula como forma de contribuição educativa do Brasil ao processo de integração regional latino-americano e caribenho. Pode-se dizer que a Unila inicia sua história em 2007, com a Comissão de Implantação, presidida pelo ex-reitor da UFRGS e da Unila, Prof. Hélgio Trindade, e por mais 13 especialistas em diversas áreas do conhecimento de várias instituições do país. A referida comissão cria o Instituto Mercosul de Estudos Avançados (IMEA) e passa a realizar pesquisas e atividades a fim de planejar e refletir como seria a nova universidade: qual sua missão, sua atuação, seus órgãos, seus cursos. Em dezembro do mesmo ano, o então presidente Lula apresentou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 12.189, para criar a Unila. O projeto foi aprovado por unanimidade em todas as comissões por que passou tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal e, finalmente, em 12 de janeiro de 2010, foi sancionado por Lula em Brasília. Como afirma seus documentos fundacionais, a Unila tem como missão “contribuir para a integração solidária e para construção de sociedades mais justas na América Latina e no Caribe por meio da produção compartilhada de conhecimentos, da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, e da formação de profissionais capacitados e comprometidos com a busca de soluções acadêmicas, científicas e tecnológicas para problemas do continente latino-americano.” A nova instituição também faz parte do Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Brasileiras (REUNI), que procura expandir o número de vagas e instituições de Ensino Superior públicas no país, sobretudo no interior, onde havia há um deficit considerável.

2. Os cursos e a interdisciplinaridade

crédito: Facebook Unila

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A Unila conta com 17 cursos de graduação em diversas áreas do conhecimento. Os cursos têm caráter diferenciado em relação aos cursos tradicionais de outras universidades, com ênfase nas sociedades do continente latino-americano. A universidade oferta os cursos de Antropologia (Diversidade Cultural Latino-Americana), Arquitetura e Urbanismo, Ciência Política e Sociologia (Sociedade, Estado e Política na América Latina), Ciências Biológicas (Ecologia e Biodiversidade), Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química), Ciências Econômicas (Economia, Integração e Desenvolvimento), Cinema e Audiovisual, Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar, Engenharia Civil de Infraestrutura, Engenharia de Energias Renováveis, Geografia (Território e Sociedade na América Latina), História (América Latina), Letras (Artes e Mediação Cultural), Música, Relações Internacionais e Integração, Saúde Coletiva e, no próximo semestre, abrirá o curso de Medicina, atendendo a um antigo pedido da comunidade local. Na pós-graduação lato sensu, oferece especialização em Energias Renováveis e em Educação Médica. No scricto sensu, oferece o Mestrado em Integração Contemporânea da América Latina e o Mestrado Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos. Com objetivo de expandir a universidade, foram aprovados pelo Conselho Universitário mais 24 cursos de graduação para o ano de 2015. Essa quantidade de cursos em uma federal que ainda não tem campus preocupa as diferentes organizações de classe da universidade, sendo que a falta de infraestrutura é um dos principais desafios enfrentados desde o início. A maior parte do movimento estudantil, bem como muitos professores e técnicos, foram contra a criação dos novos cursos por entender que essa expansão comprometeria a qualidade do ensino e da aprendizagem universitária. Trata-se de um dos desafios mais importantes que a Unila terá que enfrentar nesses próximos anos.

3. Como entrar na Unila Na graduação, há duas formas de seleção: uma para os estudantes brasileiros e outra para os estudantes dos demais países latino-americanos e caribenhos. No caso dos estudantes brasileiros, a seleção é feita exclusivamente com base na nota do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Para a maior parte dos cursos, o ingresso se dá via Sistema de Seleção Unificada (SiSU), sendo que alguns utilizam um método próprio, com provas de habilidades específicas, como Música e Arquitetura. Já os estudantes dos países vizinhos são selecionados em seu próprio país de origem pelo respectivo Ministério da Educação ou outro órgão governamental. Hoje a universidade conta com 1.300 estudantes de todos os cantos do Brasil e de quase toda a América Latina. Atualmente, há estudantes de 11 países da América do Sul (só falta ter representantes do Suriname para abranger toda a região sul-americana) e de El Salvador, na América Central. A vinda de estudantes dos países vizinhos à Unila é um desafio fundamental. A maioria está em situação de vulnerabilidade social e não tem condições de permanecer no Brasil sem os auxílios estudantis (moradia, alimentação e transporte) ofertados pela universidade. Acontece que a oferta de benefícios é limitada, pois depende dos recursos destinados pelo Ministério da Educação para tal finalidade. Nesse caso, nem todos os estudantes têm direito aos auxílios, e ter ou não bolsa é fator decisivo para escolher a Unila. No processo seletivo deste ano, o número de estudantes estrangeiros diminuiu. Além dos fatores apresentados, há também os de ordem política dos próprios países, motivados por eleições e mudanças de quadros burocráticos. Esse desafio faz com que a instituição vá aos poucos perdendo sua característica latino-americana e a missão a que se propôs, tendo que buscar uma estratégica de cooperação com instituições e organismos dos países vizinhos para financiar mais bolsas de estudo – tal como já faz o Estado paraguaio por meio de um acordo entre a Unila e a Itaipu paraguaia, que concede bolsas de estudo para estudantes do país vizinho.

4. A localização da Unila

crédito: Facebook Unila

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Ela não poderia ter sido pensada em outro lugar. Está sediada em Foz do Iguaçu, Estado do Paraná, na Fronteira Trinacional da América do Sul entre Argentina, Brasil e Paraguai. Além de ser a fronteira mais expressiva em população, economia e importância estratégica para o continente, conta com uma das maiores belezas naturais da terra: as Cataratas do Iguaçu, que fazem da cidade o segundo destino turístico mais visitado no Brasil. O atrativo recebe, somente do lado brasileiro, mais de um milhão de visitantes por ano, sendo que, do lado argentino, a estimativa é quase a mesma. A região possui uma composição étnica muito variada, abrigando mais de 72 nacionalidades – com atenção especial para a comunidade árabe, que é a maior do Brasil. A região assiste, nas últimas décadas, a um acelerado processo de integração econômica, cultural e demográfica, num fenômeno único no continente. Nesse novo cenário, o local ganha uma importante relevância. Somam-se a isso suas assimetrias econômicas, sociais e políticas, que são um verdadeiro reflexo do que é a realidade latino-americana, fazendo com que essa área territorial funcione como um verdadeiro laboratório no estudo e na formulação de políticas para o processo de integração regional. O fato de a Unila ser ali não é por acaso. Trata-se da primeira instituição federal da região, o que mostra a grande importância desse processo de construção de novos conhecimentos e a aplicação destes no desenvolvimento local. Pelos diversos desafios que envolvem a fronteira, a universidade, por meio da produção e da cooperação das diferentes áreas do conhecimento, tem o dever de atuar no desenvolvimento científico e tecnológico das sociedades, levando a uma construção de uma verdadeira cidadania regional.

5. A Paridade Universitária A Unila tem outra característica que a diferencia de qualquer universidade latino-americana: a paridade universitária. Após uma luta histórica dos estudantes e dos técnicos da universidade, foi conquistada a paridade não só para eleições para reitor, mas também para o Conselho Universitário (CONSUN), maior órgão deliberativo da universidade. A proporcionalidade 33%-33%-33% para as três categorias (estudantes, técnicos-administrativos e professores) é uma vitória em nome da autonomia universitária e fruto de um processo que visa democratizar as universidades. O entendimento é de que Unila tem de ser co-construída entre todas as suas classes de forma democrática, com igualdade de voz e de voto. Após um ano de experiência de paridade, o resultado comprovou que nenhum assunto ou projeto foi prejudicado na universidade, tal como previam muitos daqueles que eram contrários à proposta. Ao contrário, a participação democrática aumentou, fazendo com que as categorias tivessem mais engajamento com a construção da universidade de forma mais propositiva e debatessem mais os rumos da universidade.

6. Campus Universitário

crédito: Facebook Unila

crédito: Facebook Unila

A sede oficial da Unila está sendo construída em um terreno de 45,7 hectares, doado pela Itaipu Binacional. As obras se iniciaram em dezembro de 2010, durante a reunião de cúpula dos presidentes do Mercosul realizada no Cineteatro Barrageiro, no Parque Tecnológico de Itaipu (PTI). O projeto arquitetônico foi desenhado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. A primeira etapa da obra custará R$ 284,6 milhões. O consócio Mendes Júnior/Schahin venceu a licitação e a previsão de entrega da primeira etapa era novembro de 2014. Neste ano, o consócio pediu a rescisão do contrato e paralisou as obras. As empresas alegaram desequilíbrio econômico-financeiro para continuidade do trabalho e, com isso, o prazo legal previsto não será mais respeitado. O desequilíbrio financeiro de R$ 50 milhões se justificaria após a constatação de uma falha geológica no início das sondagens, algo que não havia sido rastreado anteriormente. Apenas 40% da obra está concluída. A universidade, por sua vez, alega que não há motivo comprovado para a paralisação das obras. Mas essa condição, segundo o consócio, alterou os projetos de fundações dos prédios. Com isso, a previsão para entrega da primeira fase está prevista para 2015. Enquanto as obras não forem finalizadas, a falta de infraestrutura impossibilitará a universidade de expandir seus cursos e a quantidade de estudantes. 7. O bilinguismo e o Ciclo Comum de Estudos;

crédito: Facebook Unila

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O português e o espanhol são as línguas oficiais, mas há também as línguas originárias que os estudantes trazem de suas regiões – o Guarani (Paraguai), o Aymara e o Quéchua (Bolívia e Peru), e o Chaná (Uruguai) são os idiomas mais falados. Essa diversidade linguística mostra que a concepção de América Latina não se restringe a um continente nascido da colonização ibérica (Espanha e Portugal), mas compreende todos os países do continente americano que falam espanhol, português ou francês, bem como idiomas dos povos originários. O que se busca na Unila é que todos respeitem essa riqueza e essa diversidade e considerem, principalmente, a interatividade das diferentes áreas do conhecimento como importante ferramenta do saber. O diferencial no ensino está no chamado Ciclo Comum de Estudos, que inclui Línguas Adicionais (português ou espanhol), Epistemologia e Metodologia e Fundamentos de América Latina Una e Diversa (FAL). São disciplinas obrigatórias a todos os estudantes de todos os cursos da instituição e oferecidas em módulos durante os quatro primeiros semestres. A ideia é introduzir o estudante às principais questões relacionadas à região, colaborando na construção do saber latino-americano.

8. A Turma Histórica

crédito: Facebook Unila

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Após 4 anos do início das atividades acadêmicas, no último dia 15 de agosto aconteceu a formatura das primeiras turmas da universidade. A chamada Turma Histórica tem uma importância simbólica muito forte por terem sido os pioneiros, aqueles que viram a construção da Unila desde seu início. Os formandos dos cursos de Ciência Política e Sociologia, Economia e Relações Internacionais e Integração tiveram uma noite especial, com a presença de toda comunidade universitária – ex-reitores, ex-professores, pró-reitores – e com um homenageado mais do que especial: o ex-Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, foi o paraninfo, dando seu nome à primeira turma da Unila por conta do compromisso de seu governo para com a criação da universidade e com a integração latino-americana. Sua presença foi impossibilitada pela morte do amigo e ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, mas Lula enviou uma mensagem especial aos formandos, lida pelo Diretor-Geral da Itaipu Binacional, Jorge Miguel Samek. A única instituição pública de Ensino Superior oficialmente bilíngue da América Latina tem vários desafios pela frente, mas já começa a colher bons frutos de um projeto universitário que está revolucionando a educação superior pública e gratuita no continente latino-americano.

*Chico Denis é bacharel em Relações Internacionais e Integração da primeira turma da Unila. É cearense, torcedor do Ceará e Santos, e apaixonado pela América Latina e Caribe. Coordena o Observatório Eleitoral latino-americano na universidade e escreve sobre integração regional.

  • JORGE NETO

    Parabéns à Turma formanda.
    É um sonho tornando realidade a integração latino americana.
    Que o sonho de Ernesto Guevara e Bolivar perdure para sempre !
    VIVA A NOSSA LATINO AMÉRICA !!!

  • Celme

    Um realização profética e missionário que todos os latino-americanos deveriam apoiar.

  • Pingback: Para conhecer e defender o projeto da Universidade Federal da Integração Latino-Americana – Unila « OLHAR DO CAMPUS()

  • Parabens pelo artigo e parabens a Unila e ao povo latinoamericano. Precisamos do governo do PT para realizar um passo importante na integraçao dos povos da America Larina. Vamos avançar mais e mais consolidando a Unila, seu campus e cursos.

  • Lino Castellani Filho

    Parabéns aos que a idealizaram, aos que a materializaram e aos primeiros graduados.
    Quem sabe um dia venho a ter a honra de fazer parte dessa experiência…
    Abraços
    Lino Castellani Filho

  • Renata Oliveira

    Um orgulho ter tido o Chico como aluno, assim como aos alunos dos três cursos que constituem esta turma histórica. Emocionante ver a “nossa história” sendo contada, levada adiante.