A Copa do Mundo e a relatinização do Brasil

“A Copa da América Latina” foi um dos muitos bordões usados para apelidar o evento. Um bordão que nasceu da surpresa. Se esperavam muitos, mas não essa avalanche de latinos que se viu nas cidades do Brasil. Talvez as centenas de milhares de argentinos estivessem sim nas previsões, mas não as dezenas de milhares de chilenos, de equatorianos, colombianos, mexicanos, uruguaios, costa-riquenhos e hondurenhos.

Equatorianos

A imprensa brasileira, talvez pelo efeito do inesperado, reagiu ao fenômeno sem apelar tanto para aquele velho muro imaginário da segregação – antes, éramos “nós, os brasileiros” de um lado, “eles, os latinos” do outro. Claro que houve lamentáveis exceções, mas a maioria dos nossos repórteres, pelo menos na primeira fase da Copa, estava maravilhado em ver como “eles, os vizinhos”, se sentiram tão em casa em solo brazuca, que sua paixão e o afã por vive-la intensamente os leva a essa mescla de improvisação e sacrifício sem perder o rebolado.

Nos vimos diante de um espelho que revelou o quão latinos somos. Eram argentinos acampando na praia e fazendo churrasco em carrinhos de supermercado, colombianos e equatorianos se alojando nas periferias – até o presidente do Equador, Rafael Correa, dormiu em Itaquera, para ver a abertura do torneio –, chilenos em caravanas de carros, dormindo em cidadezinhas perdidas no meio da estrada. Os latinos se misturaram com o povo brasileiro de verdade para ver a Copa, e este é um dos legados do Mundial que poucos vão perceber.

Chilenos

O idioma e as distâncias, portanto, nunca foram barreiras, embora continuarão existindo e intimidando algumas pessoas. Como continuarão existindo outras fronteiras imaginárias, feitas dos pequenos ódios que aprendemos a alimentar uns dos outros. Foi a mesma imprensa esportiva, maravilhada com a irmandade latina nas primeiras semanas do torneio, a responsável por propagar essa rivalidade irracional durante o mata-mata.

Claro está que falar de ideias propagadas pela imprensa significa se referir aos axiomas típicos da classe social que ela representa. A mídia brasileira é um retrato da elite branca que nasceu de costas pro continente e vive sonhando com o norte, com vergonha da própria nacionalidade e da vizinhança que a rodeia. Foi essa gente que se assustou com a invasão latina, da mesma forma com que se assusta, há doze anos, com a ascensão social dos pobres e com a simples ideia de o Nordeste do Brasil tentar se desenvolver tanto ou mais que o Sul e o Sudeste.

Quando se falava em receber os turistas estrangeiros, eles sonhavam com a chegada dos alemães, franceses e estadunidenses – quando muito alguns japoneses, desde que soubessem recolher o lixo no final dos jogos. Não é que ignoravam os latinos, mas se esperava (talvez mais um desejo que uma previsão) que viessem em grupos marginais, como fizeram em edições anteriores. Se menosprezou o sentido de oportunidade que levou essas multidões a aproveitarem essa rara chance de ver uma Copa em seu continente natal. Para brasileiros que não sentem nem o Brasil como algo próprio, ter que lidar com gente bronzeada de outras latitudes foi o cúmulo.

Costa Rica x Uruguay

Mas a mídia reagiu, e da maneira tradicional. Afinal, nunca foi difícil atiçar a rivalidade entre os latinos – nem no futebol nem nas relações internacionais, que o digam a imprensa esportiva, do Fla x Flu ao Boca x River, e os diplomatas ingleses do Século XIX, cujas intrigas insuflaram a Guerra do Paraguai e a Guerra do Pacífico. Nas oitavas, nasceu o rancor com os chilenos, mais deles contra nós do que nosso contra eles, mas foi ali que a nossa imprensa começou a mudar de lado, com a velha estigmatização, relatando os chilenos como carniceiros dispostos a comer o Neymar vivo, diferente dos pobres e inocentes jogadores brasileiros. Contra a Colômbia, apareceu o personagem símbolo do ressentimento anti-latino, Camilo Zúñiga, retratado pelos nossos locutores como um verdadeiro gênio da maldade.

mexicanos

Para terminar, depois da vexatória eliminação brasileira, só nos faltou arrumar um motivo para odiar os argentinos e sua aspiração em ganhar a final em nosso território. O cantinho “decime que se siente”, uma provocação típica de torcidas de futebol – aquele que, como torcedor, nunca cantou ou nunca se sentiu tentado a puxar corinho provocativo no estádio do rival que atire a primeira pedra –, foi considerado por alguns jornais como um jeito musical de mijar na cara do Cristo Redentor.

Assim, com uma parte da sociedade brasileira amando se sentir mais latina que nunca, e outra parte odiando os argentinos como sempre (a ponto de já se esquecer do Zúñiga), termina a Copa do Mundo que provou que o Brasil ainda é parte indissociável da América Latina. Mesmo que sua classe dominante não queira. Mesmo sendo sequer o começo de um debate no país sobre a ideia da Pátria Grande.

Argentinos

*****

Onde houve sim debate diário e entusiasmado sobre a Pátria Grande e sobre como o futebol nos une, mas muitas coisas mais, inclusive as mazelas que as nossas sociedades lutam por vencer, foi no canal TeleSur.

O programa De Zurda (“De Canhota”, em português) foi um raro exemplo de jornalismo esportivo feito com análise do futebol sem ignorar seus contextos políticos e sociais, e sem a hipocrisia de outros meios que se escondem atrás de uma falsa imparcialidade – até o nome da atração escancarou seu teor progressista.

De Zurda

Os apresentadores, o jornalista uruguaio Víctor Hugo Morales e o célebre jogador argentino Diego Armando Maradona, não ignoraram nenhum tema. Com a ajuda da equipe jornalística da revista argentina La Garganta Poderosa, que acompanhou a Copa instalada nos morros do Rio de Janeiro, e convidados do mundo do futebol (como Valderrama e Rivelino, entre outros) e da política (como Rafael Correa e Pepe Mujica), o programa conseguiu defender a ideia de que este era o Mundial da Pátria Grande.

No último programa, horas depois da final, ficou uma sensação de que poderemos vê-los juntos novamente na Copa América de 2015, no Chile. Tomara!

  • Nuno Paiva

    Minha pátria é o Brasil. Isso de Pátria Grande com o resto da América do Sul é um delírio que me causa calafrios. Estou fora. Minha língua é portuguesa e como diria Caetano, “minha pátria é minha língua”.

    • Gabriela

      Nuno Paiva, se você vir a trabalhar em alguma empresa , que tenha algum tipo de inteligencia estratégica, saberá o valor dos nossos vizinhos latinos. ALL, AmBev, O Boticário, Havaianas, as franquias em geral…são alguns exemplos de corporações que ganham muito $ e prestigio, por não aceitarem essa estupidez de “falamos apenas português” e “meu continente é o Brasil”.
      Parabéns a Carta Capital pela reportagem e pelo raciocínio moderno. O dia em que o Brasil se der conta, da sua importância dentro da América Latina, o céu será o limite

  • Marta Oliveira

    Tenho fé que morro antes de ver o Brasil transformar-se numa grande Venezuela. Fiquem vocês com Bolívar que sou mais Pedro I. Cada coisa que a gente tem que ler, o que ganharia o Brasil com essa maravilha de projeto ? Alguém me pode explicar?

    • Pedro

      Fico impressionado com o orgulho que você tem da sua ignorância.

  • Feliz com a presença de “nós todos” sul americanos aqui. Orgulhoso fiquei vendo tantos se deslocando de maneira tão desconfortável e ainda assim permanecerem gratos por verem um evento que pode ser uma oportunidade única pra cada um deles/ nossa. A vida não é isto? Creio que fizemos nossa parte como anfitriões… deixaram/deixamos uma boa impressão, todos numa bandeira : “perceber que a vida é um jogo que pode ser vivido da maneira assim como ocorreu…”

  • Iolivan

    A mídia brasileira teve a grande oportunidade em descobrir a latinidade e o carinho que uniu tofos os hermanos, sofrifos, vítimas de problemas seculares, mas que puderam se ver frente a frente, sem atravessadores, e sorriram pois se reconheceram.O Brasil é grandioso, mas seu povo vonsegue ser maior.Muitos argentinos, acampados no sambodrómo não pensam em retornar, pelo contrátio, por aqui querem ficar e trabalhar.Assim é o Brasil…

  • Sergio Bonato

    Finalmente alguém faz um comentário inteligente sobre a realidade desta copa da pátria grande, conconcordo com tudo, apenas um comentário dando nome aos bois, foi sim o Sr Galvão Bueno e equipe, o provocador dos ódios entre os brasileiros e argentinos. Não preparou o povo para uma derrota, ela veio em forma de lição e será boa para amadurecer. Querer sempre mostrar que somos melhores , isso é um fracasso se a vitória não vier, um equívoco, pois há muitas vitórias que vem pela derrota. Talvez agora com o fim do ufanismo global teremos humildade,…espero.

  • Isabela

    Sou brasileira e moro no Chile. Nós, brasileiros, que vivemos aqui podemos te garantir que a postura da imprensa chilena tem sido extremamente agressiva e, mesmo com o fim da Copa, eles seguem alimentando a rivalidade com os brasileiros.

  • Elisangela

    Eu não me encaixo ai nesta estatistica.
    E nesta copa a única seleção latina que não torci a favor foi a Argentina.. pela rivalidade futibolistica já existente né rsrsrs.. As demais só não dava pra torcer quando jogavam contra o Brasil.
    Talvez enxergamos nossos visinhos como extensão do nosso país neh.. já que vemos a rivalidade entre sul, sudeste, nordeste e por ai vai hahaah

  • anãonimo

    É ridícula essa ideia de que brasileiro tem que torcer pela Argentina por causa da América Latina. Se eles chegam com provocações, que nós, brasileiros civilizados, devemos apenas tratar dentro de campo (detalhe que nunca chegamos a cruzar com os hermanos, e mesmo assim não foi contra a Alemanha -próximo rival- que eles cantaram -os próprios jogadores- quando venceram a Holanda, com o Brasil já estava desqualificado para a final), então dentro de campo eu quero mais é que a Argentina perca, e vou torcer contra eles seja quem for o adversário.

    Fora de campo eu gosto muito da Argentina, visitei Buenos Aires nas últimas férias, uma bela cidade, e pretendo visitá-la de novo (claro, só depois que eles superarem essa derrota, que parecem nos culpar por isso, mesmo fora de campo). E engana-se quem acha que esse sentimento de não pertencer à América Latina é coisa só da elite brasileira, a elite Argentina sabe fingir que é europeia há muito mais tempo que a brasileira finge ser estadunidense.

  • Marcela

    Concordo com a maioria das pontuações. Belo texto.

  • Francisco Saldanha

    Muito interessante o texto. Só não entendi a separação entre “latino” e brasileiros. Por acaso os brasileiros não são Latinos? Deve ter sido utilizado baseado na idéa latina dos Estados Unidos…

  • A revanche

    ♩♬ Argentina decirme que se siente
    Llorar en la casa del papá
    Te juro cuanto más pasen los años
    siempre nos vamos te acordar

    Con la mano se la botó
    Que Perú te regaló
    Solo 2 títulos y robados hasta hoy

    6 estrellas van a ver,
    muy pronto a enaltecer
    Maradona está muy lejos de Pelé♩♬

    #chupaargentina

  • Ricardo B.

    Mas ainda estamos longe de aproveitar qualquer evento para nos aproximarmos dos vizinhos, ao invés de alimentar rivalidades. As caras e bocas de Patrícia Poeta e dos seus, cada vez que o nome “Argentina” é pronunciado; a quase ausência, na grande mídia, de mostrar torcedores brasileiros torcendo para a Argentina na final, como se todos torcessem para a Alemanha, demonstra que, para vender publicidade, os velhos preconceitos ainda estão de pé.

  • Parabéns pela análise. Foi este sentimento que me levou a torcer pelo Brasil e, na falta dele, Uruguai, México, Chile, Argentina. Que bom que o Brasil foi palco do encontro com nossos irmãos do continente.

  • Bernardo Lopes

    Há ainda no Brasil mídias e extrato social que vivem de costa para os nossos vizinhos. A copa deixa um legado muito importante, a diminuição de preconceitos de ambos os lados.

  • Marcos Ferraz

    Quanta besteira em poucas linhas.

  • Tânia Trento

    Faltou nesse artigo mostrar (link) do filme videoclip feito pela telesur sobre o mundial que resume lindamente a Copa da América Latina.

  • Magaly Barroso

    Foi emocionante vê-los aqui, os hermanos de latinoamerica! Como um espelho, a alegria, a cor, o jeito. Os que não gostaram são rigorosamente aqueles que já não gostam mesmo de ser brasileiros… azar o deles, porque são. Talvez se curem em um dez anos de divã.

  • Fernando

    Parabéns! Belíssima análise, principalmente sobre nossa elite alienada, enquanto sonham com a Disneylândia a realidade brasileira se mostra na periferia dos grandes.

  • Fanny Daniel

    Texto e conteúdo lúcidos e muito bons! É sempre um prazer ler Carta Capital, alívio para um coração oprimido pelas mazelas da mídia brasileira…

    “Relatinização” termo para tratamento contra a usual xenofobia ao sotaque espanhol/castelheano.
    Um antídoto à vergonha de ser se brasileiro, complexo de inferioridade, que Nelson Rodrigues nomeou de complexo de viralata.
    Fanny

  • Amália Lima

    Sinto muito, mas isso de Pátria Grande é o chamado “forçar a barra”. O Brasil já tem problemas demais por si só.