A morte da Miss Honduras e o que restou do golpe de 2009

Nesta quarta-feira (19/11), o Serviço Médico Legal de Honduras confirmou que os dois corpos encontrados parcialmente enterradas às margens de um rio, nos arredores da cidade de Santa Bárbara, eram da modelo María José Alvarado, recém eleita Miss Honduras, e sua irmã mais velha, Sofía. Elas estavam desaparecidas há sete dias. María José se preparava para uma viagem a Europa, em janeiro, onde iria, entre outras coisas, participar do concurso Miss Mundo, representando seu país.

A jovem María José Alvarado tinha 19 anos e uma carreira que iniciava com grandes conquistas. Pode ter sido uma vítima incidental do caso, mas a violência em Honduras não é um mero acaso. Foto: El Heraldo de Honduras.

A jovem María José Alvarado tinha 19 anos e uma carreira que iniciava com grandes conquistas. Pode ter sido uma vítima incidental do caso, mas a violência em Honduras não é um mero acaso. Foto: El Heraldo de Tegucigalpa.

As mortes foram fruto de um crime passional. O assassino confesso é Plutarco Ruiz, o ciumento noivo de Sofía, que assassinou as duas após uma ameaça de rompimento do noivado. Não é a primeira vez que a família Ruiz aparece no noticiário policial do país este ano, mas no outro caso eles figuravam como vítimas. Em fevereiro, David Ruiz foi assassinado com quatro tiros por um grupo de justiceiros, enquanto almoçava em um restaurante em San Pedro Sula.

Os casos são apenas dois exemplos do que é hoje Honduras, quase uma terra sem lei, onde a impunidade é o ingrediente essencial que faz do país o campeão mundial de homicídios.

Sim, morre mais gente assassinada em Honduras que na Palestina, no Iraque ou mesmo no México, de presente também triste. Segundo dados da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, entre cada cem mil hondurenhos, 90,4 morrerão assassinados, o que dá uma média de um homicídio a cada 75 minutos. O segundo lugar do continente é da Venezuela, que mesmo golpeada pela violenta crise política e a criminalidade crescente, tem quase a metade do incide: 53,7 assassinatos por cada cem mil habitantes.

Os números de Honduras são o reflexo do que se tornou o país depois do golpe de estado em 2009, contra o presidente Manuel Zelaya. Nos primeiros meses após a manobra, a onda de violência já se havia desatado, mas os alvos eram principalmente líderes sociais e jornalistas opositores, e o número de falecidos mantinham o país com cifras parecidas às da Venezuela, o que significava estar entre os países mais mortais do continente, mas não essa liderança assustadora que se vê hoje.

As duas eleições democráticas acontecidas no país desde então não curaram as feridas deixadas pelo golpe, e essas feridas abertas resultaram numa violência que já não se restringe à política ou a etnias e classes sociais específicas – ainda quando a maioria dos falecidos ainda sejam os pobres de famílias negras ou com descendência indígena.

Também o Paraguai experimentou o aumento dos homicídios, principalmente em zonas rurais, após a derrocada de Fernando Lugo, mas ainda com números bem distantes dos que tem Honduras. Em todo caso, são duas lições que devem ser indicadas sempre que se discute como opção a quebra da institucionalidade e da democracia.

Jovens se manifestam nas principais cidades do país. Eles estão entre as vítimas principais, com uma média de 360 por ano. Foto: La Prensa, de Tegucigalpa.

Jovens se manifestam nas principais cidades do país. Eles estão entre as vítimas principais, com uma média de 360 por ano. Foto: La Prensa, de Tegucigalpa.

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  • Francisco Silva

    A Violência em Honduras não começou com o dito “golpe”. Ela sempre existiu. Isso é falácia, uma tentativa absurda de usar um fato social do país para defender uma posição ideológica dessa revista. Ridícula tentativa, aliás. E esse crime em questão é resultado do ENORME machismo reinante em Honduras. O que é um mal atávico, fortemente arraigado na cultura daquele país. Infelizmente, grande parte dos homens hondurenhos pensa como se estivesse no século XIX. Para grande parte deles as mulheres são como um objeto, um bem, apenas um pedaço de carne pertencente a eles. São extremamente ciumentos (e eventualmente violentos) na defesa desse seu “bem”. Além disso, se acham muito superiores as mulheres. Pensam que a mulher deve “respeito” a eles, enquanto eles acham que podem traí-las a torto e a direita sem preocupação. Na verdade, nem sequer acham que o que estão fazendo é errado. Pensam, que como o sexo é um necessidade básica “masculina” (é claro) não estão fazendo nada de errado ao transar frequentemente com outras mulheres quando querem ou sentem necessidade. Agora vá a mulher dá vazão a essa “necessidade” e verás o que acontece. Infelizmente, esse machismo gigantesco parece ser inerente a sociedade hondurenha.

    • Ricardo B.

      Achei sua análise bem interessante, ligar os assassinatos ao machismo. Além disso, poderia ser destacado o papel dos Estados Unidos na construção dessa “divisão de trabalho” entre homens e mulheres, nas tantas intervenções feitas em Honduras e na América Central como um todo. Apenas acho que o autor não disse que a violência “começou com o golpe de Estado”. Ele coloca que essa violência aumentou a partir do golpe (ou da mudança institucional, se você preferir), tanto em Honduras quanto em outros lugares. Não há falácia, pois é uma hipótese válida.

    • Jhumberto

      Engraçado querer misturar o golpe com violência, e na Venezuela que é um dos países mais violentos, empatando com Honduras. A mídia quer dar uma conotação política para um problema endêmico. Veja em alguns estados do Norte do Brasil se a violência não chega perto de Honduras.

  • foi Romualdo

    É natural que quando uma sociedade aceita um golpe e nada faz para impedir, surge a epidemia da violência, pois aqueles que por si só são violentos por natureza, sente-se tranquilos para cometer as maiores barbáries que acham necessários.
    Pois o maior exemplo vem de cima, onde a constituição foi desrespeitada e o chefe de estado foi tirado no poder por uma minoria que estava há muito tempo querendo se implantar no poder.
    Também não me estranha na época o apoio total dos EUA, afinal se existe um País que se mete na política de outras nações, este País é o Tio Sam. Alias gostaria de saber, onde eles não se metem que depois estas mesmas nações não viram um foco de violência e perseguição, principalmente aos mais Pobres ?
    Apesar de tudo, espero sinceramente que os Hondurenhos encontrem a paz que tanto desejam.