A Operação Abutre e as novas conspirações sulamericanas

Teorias da conspiração existem para todos os lados, no caso das que envolvem a política, podem ser de esquerda ou de direita.

Dilma Rousseff enfrentará manobra da oposição por seu impeachment, enquanto seus defensores temem haver uma conspiração por trás da ofensiva contra ela. (foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Dilma Rousseff enfrentará manobra da oposição por seu impeachment, enquanto seus defensores temem haver uma conspiração por trás da ofensiva contra ela. (foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Vejamos, por exemplo, como este 2015 começou com os protestos da direita instalando ilusões sobre “ditaduras comunistas bolivarianas”, a invasão cubano-haitiana através dos refugiados e dos médicos guerrilheiros, entre outras. E agora terminamos com a esquerda reclamando das cordas que movem a política latinoamericana para derrubar o eixo dos governos progressistas na América do Sul.

Mas uma boa teoria da conspiração é mais que uma ideia jogada ao vento, requer fundamento. Não precisa ser comprovada – porque se for deixa de ser teoria e passa a ser fato – mas sim sustentada por situações comprovadas. Por isso, é preciso reconhecer que as teorias conspiratórias da esquerda, ou ao menos as mais atuais, são bem melhores que as da direita.

Começando porque têm fundamento. E já não é de hoje: a esquerda sofreu duros golpes de Estado institucionais em Honduras (2009) e no Paraguai (2012), ambos através de juízos políticos, por iniciativas de opositores mas apoiados por ex-aliados dos presidentes depostos, o que faz com que cada nova tentativa acenda o alarme conspirativo. Curiosamente, estamos vendo agora como Dilma pode ser a próxima a sofrer um golpe de Estado institucional, também através de um juízo político, também por iniciativa de opositores, mas que só poderão ter sucesso se conseguem o apoio dos que agora são aliados da presidenta.

Nas últimas semanas, a paranoia conspiratória ganhou mais corpo. O triunfo do neoliberal Mauricio Macri na Argentina não é, em si, suficiente para alimentar as pulgas atrás da orelha, mas o fato de que, dez dias depois, a oposição brasileira consiga dar o pontapé inicial para o processo de derrubada de Dilma, a quatro dias das eleições legislativas venezuelanas que podem reabilitar a oposição antichavista, a mesma que esteve presente na festa da vitória de Macri e que patrocinou a viagem tresloucada de Aécio Neves e outros senadores da direita brazuca em junho, é um banquete conspiratório dos mais saborosos. Uma boa teoria da conspiração necessita disso, muitos elementos conectados, dando a impressão que uma coisa leva a outra, e nesse caso, que o resultado na Argentina desencadeará reviravoltas em outros países.

Além das conexões, a teoria a que nos referimos também já tem um nome fantasia: em agosto, o presidente venezuelano Nicolás Maduro a batizou de Operação Abutre – um trocadilho com a Operação Condor, e em alusão aos fundos abutres que acossam o Estado argentino nos tribunais estadunidenses. Mas talvez o apelido tenha tido, como intenção principal, aludir à cooperação entre as forças opositoras no continente, que não se expressa somente nas festas que compartilham e na colaboração entre os líderes, mas também nas manobras coincidentes, essas que são o tempero ideal de uma boa conspiração real.

O hondurenho Manuel Zelaya e o paraguaio Fernando Lugo, primeiras vítimas da modalidade de golpe institucional na América Latina.

O hondurenho Manuel Zelaya e o paraguaio Fernando Lugo, primeiras vítimas da modalidade de golpe institucional na América Latina (foto: Hondudiario).

Por exemplo, este ano, a oposição chilena tentou reinstalar sua agenda contra a delinquência para virar o jogo contra o governo de Bachelet, graças a uma importante ajuda dos meios de comunicação, e um insosso movimento nos bairros altos de Santiago durante o mês de agosto, com a classe alta batendo panelas nas sacadas dos megaedifícios ou nas esquinas mais exclusivas da capital chilena, reclamando que a criminalidade estava descontrolada, numa das metrópoles mais seguras da América Latina.

Também existem coincidências evidentes nos protestos dos movimentos políticos supostamente apartidários – porém claramente opositores – da Venezuela e do Equador, onde não são poupados os termos mais duros e inconsequentes, apostando na violência política e na demonização do presidente e seu partido governante, assim como na aposta a estratagemas jurídicos para obstruir ou até mesmo cancelar políticas importantes, o que já se viu no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai e na Bolívia.

Todas manobras realizadas por grupos que se apresentam como apolíticos, mas que não demoram em mostrar seu caráter macartista – e o mais curioso, abusando do discurso anticorrupção e em favor da transparência, mas com enormes sombras sobre como são financiados. E se falamos de financiamento, não podemos ignorar que as teorias levam em conta os grupos econômicos e os países que os representam, que têm claro interesse na restauração da agenda neoliberal na América Latina, especialmente na volta das políticas de privatização, especialmente no eixo Venezuela-Brasil-Argentina, carregado de petróleo.

Mas o pior das boas teorias conspiratórias é que elas nos deixam realmente com medo de serem certas. Basta lembrar que na época das velhas ditaduras, boa parte do mundo acadêmico, principalmente no Brasil, duvidava da Operação Condor, a considerava uma teoria conspiratória, como a que vemos hoje. Atualmente, existem documentos oficiais comprovando a coordenação entre as ditaduras entre os Anos 60 e 80, com o apoio sempre diligente dos Estados Unidos.

Entre a teoria e a prática talvez esteja também a diferença entre o que são os movimentos desestabilizadores e os golpes de Estado efetivos. Em março, publicamos neste blog a lista dos golpes de Estado ocorridos no continente no Século XXI, e nos surpreendemos ao ver que foram muitos, derrubando a falsa impressão de que o continente tinha aprendido a lição da Guerra Fria e não estava mais sujeito às gorilagens daqueles anos. Claro que ver milhares de brasileiros nas ruas clamando por uma nova gorilagem também é uma prova mais que evidente de que elas continuam sendo uma possibilidade, mas a tendência do momento é a do golpe institucional, como os que sofreram Manuel Zelaya e Fernando Lugo.

Porém, com a chegada de Macri à Casa Rosada, chegamos a outra etapa no reequilíbrio de forças políticas no continente, já que é a primeira vez que a direita recupera um governo pela via democrática. Alguém lembrará de Sebastián Piñera no Chile, entre 2010 e 2014, mas a derrota efêmera derrota da esquerda chilena – sempre (voluntariamente) isolada, e a mais neoliberal de todas –, e o retorno de uma Michelle Bachelet mais estatista em seu segundo governo, tornam esse exemplo inexpressivo.

Lilian Tintori, esposa do líder opositor venezuelano Leopoldo López, com o presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri. Presente e futuro de uma direita latina bem coordenada. (foto: reprodução twitter)

Lilian Tintori, esposa do líder opositor venezuelano Leopoldo López, com o presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri. Presente e futuro de uma direita latina bem coordenada. (foto: reprodução twitter)

O que poderia sim ser um segundo exemplo importante, caso se materialize, seria uma vitória da oposição venezuelana nas eleições legislativas do próximo domingo, que poderia entusiasmar a direita a solicitar um referendo para abreviar o mandato de Nicolás Maduro. Isso muda bastante o cenário, sobretudo porque transforma as teorias conspiratórias em mero choro de perdedor. Afinal, a boa coordenação observada entre os grupos opositores sulamericanos não é um crime, sempre que as estratégias coordenadas sejam lícitas e não visem desestabilizar os governos – há de se recordar que tanto opositores argentinos quanto venezuelanos já apostaram pela desestabilização, mas agora se dedicam mais à via democrática . Quem sabe deixando uma lição para os colegas brasileiros: a legitimidade incontestável é um patamar que só se adquire quando a volta ao poder se dá através das urnas.

Enquanto não houver documentos, as teorias serão somente teorias. Vem aí um 2016 que estará cheio de fatos novos para alimentar as teorias e as verdades a respeito do que acontece no Brasil e na América Latina. Há quem aposte que o ano trará também muitas desconfianças. Quem sabe, com um pouco de sorte, descobrimos, e comprovamos, que alguma é mesmo verdade ou não.