Afinal, quais são mesmo as propostas dos candidatos para América Latina?

Por Chico Denis*

Todos os que acompanharam os debates dos presidenciáveis em 2014 sabem que a política externa foi pouco aprofundada pelos diferentes candidatos, seja pela falta de conhecimento da maior parte da população brasileira do assunto tema, ou pela falta de propostas concretas para essa área.

Como aqui o nosso forte é América Latina, vamos deixar mais claro o que cada candidato propõe na política externa do Brasil com seus vizinhos.

Crítico à política externa do PT, o candidato oposicionista Aécio Neves (PSDB) vê a integração regional nos moldes do “regionalismo aberto” dos anos 90, com a retomada de uma maior liberalização comercial entre os países que compõem o MERCOSUL, assim como a maior flexibilidade do bloco em realizar acordos com outros países e outros blocos fora da região. Aécio, que teve 34.897.211 (33.55%) votos no primeiro turno, afirma em seu plano de governo que “devem merecer atenção especial a Ásia, em função de seu peso crescente, os EUA e outros países desenvolvidos, pelo acesso à inovação e tecnologia, ao mesmo tempo em que deverá ser ampliada e diversificada a relação com os países em desenvolvimento”.

O candidato fala ainda que o Mercosul está paralisado e sem estratégia, que é preciso recuperar seus objetivos iniciais e flexibilizar suas regras a fim de poder avançar nas negociações com terceiros países.

A candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) tem prioridade para com integração regional, tanto em nível sul-americano, como latino-americano e caribenho. Essa integração não é proposta somente pelo viés comercial, mas envolve integração produtiva, financeira e de infraestrutura física e energética. O fortalecimento e ampliação dos blocos regionais de integração como MERCOSUL, UNASUL e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), sem discriminação de ordem ideológica. Dilma teve 43.267.668 (41.59%) votos.

No programa do PT consta que o “Brasil buscará antes de tudo a integração da região, por meio do fomento do comércio e da integração produtiva. Para tanto, dará ênfase especial à integração financeira e de suas infraestruturas física e energética”, sob o argumento da importância de um mundo multipolar. Com uma política externa baseada nas relações Sul-Sul, dará, se eleita, ênfase também às relações com a África, países asiáticos e mundo árabe. Por fim, afirma que não desconsidera boas relações com Estados Unidos e União Europeia, importantes parceiros comerciais.

No primeiro turno, as propostas foram:

O candidato Eduardo Jorge (PV) propunha ações do Brasil com outras nações no que toca ao desenvolvimento sustentável e acabar com a miséria. Defendeu a retiradas das tropas brasileiras da missão de paz no Haiti (Minustah) e a redução dos gastos com orçamentos militares por parte da defesa brasileira. Em relação aos acordos com blocos regionais, o candidato defendia uma aproximação do Brasil com a União Europeia e o fechamento do acordo de livre comércio em andamento com o bloco europeu.

Luciana Genro (PSOL) propunha o fortalecimento da integração regional latino-americana nos níveis econômico, político, social e cultural, buscando superar os limites dos organismos multilaterais atualmente existentes; a retirada das tropas brasileiras no Haiti e substituição por um Corpo Permanente de Paz e Solidariedade composto por médicos, professores, engenheiros e outros profissionais; e também o combate às medidas promovidas unilateralmente, como no caso do embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba.

A candidata Marina Silva (PSB) defendeu uma política de aproximação com o MERCOSUL, com a Aliança do Pacífico e o fortalecimento da UNASUL como mecanismo de cooperação de políticas públicas regionais em diversas áreas.

Mauro Iasi (PCB) defendeu o fim do que define como “a estratégia do Estado burguês brasileiro de expansão do seu capitalismo no exterior”. Segundo ele, o país também deve abandonar a “obsessão” de se tornar uma grande potência no campo imperialista, “representada no fetiche de, a qualquer preço, conquistar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU”. A proposta do candidato era que o Brasil liderasse uma luta contra o imperialismo e por sociedades justas e solidárias, “num movimento que se contraponha à ONU, dentro e fora dela”. Nas prioridades de sua política externa estavam a desativação das bases militares na Colômbia, a defesa do governo bolivariano na Venezuela, o respaldo a uma solução política para o conflito colombiano, o fim do bloqueio a Cuba e a libertação de presos políticos, a retomada das Ilhas Malvinas pela Argentina e um movimento continental pelo não pagamento das dívidas externas. Iasi esperava estimular uma “luta continental contra a mafiosa Sociedade Interamericana de Imprensa, em defesa da imprensa popular e independente, pela democratização e o controle social da mídia.”


Pastor Everaldo (PSC)
prometeu eliminar a intervenção do governo brasileiro em outros Estados, reduzir gastos com o corpo diplomático e o auxílio financeiros a organizações internacionais. Ele defende a eliminação do uso de tropas nacionais em guerras e o fim das ocupações de territórios que não dizem respeito ao Brasil. O candidato também se opunha ao perdão da dívida de outros países com o Brasil e promete revitalizar o tratado do Mercosul, retirando entraves da livre negociação com países que não integram o bloco. Everaldo defendeu os acordos de livre comércio para promover os produtos nacionais, condenou a violação de direitos humanos contra qualquer povo e é contrário à restrição da saída de brasileiros para o exterior, exceto nos casos em que há investigação criminal em curso.

Os candidatos Eymael (PSDC), Levy Fidelix (PRTB), Rui Pimenta (PCO) Zé Maria (PSTU) não tinham propostas específicas para a América Latina em seus planos de governo.

**Chico Denis é bacharel em Relações Internacionais e Integração da primeira turma da Unila. É cearense, torcedor do Ceará e Santos, e apaixonado pela América Latina e Caribe. Coordena o Observatório Eleitoral latino-americano na universidade e escreve sobre integração regional. O texto contém informações da Agência Brasil.