América Latina despede 2014 de muitos votos e poucas mudanças

Chega ao fim um 2014 cheio de eleições no hemisfério ocidental, especialmente nos países da América Latina.

Ao todo, foram sete processos eleitorais, bem espalhados pelo continente. Porém, na prática, pouca coisa mudou, ainda mais se considerarmos que todos os presidentes que tentaram sua reeleição a obtiveram, e em outros dois países venceu o candidato da situação.

As urnas começaram a trabalhar em fevereiro, com dois primeiros turnos na América Central. Em El Salvador, cuja decisão aconteceu em março, a vitória ficou com Salvador Sánchez Cerén, um professor que militou em organizações armadas que combateram as ditaduras salvadorenhas nas décadas de 70 e 80. Sua vitória significa o segundo mandato consecutivo da centro-esquerda em seu país, e talvez um pouco mais progressista, em comparação ao moderado Mauricio Funes.

Luis Guillermo Solís, novo presidente da Costa Rica, e Salvador Sánchez Cerén, eleito em El Salvador. Na América Centtral, mudaram os nomes, mas não as tendências.

Luis Guillermo Solís, novo presidente da Costa Rica, e Salvador Sánchez Cerén, mandatário eleito em El Salvador. Na América Central, mudaram os nomes, mas não as tendências.

Já na Costa Rica, o segundo turno só aconteceu em abril e lá sim houve mudanças. Luis Guillermo Solís venceu o governista Johnny Araya, levando ao poder o Partido da Ação Cidadã, mais moderado que o direitista PLN, que tentava seu terceiro mandato consecutivo – algo considerado difícil após a criticadíssima gestão de Laura Chinchilla.

Em maio foi a vez do Panamá mudar, mas com uma guinada para o outro lado. Em eleição de turno único, Juan Carlos Varela conseguiu uma vitória por apenas 8% de vantagem sobre o liberal José Domingo Arias, que era o candidato do então presidente Ricardo Martinelli, mas que foi suficiente para a vitória do Partido Panamenhista e seu nacionalismo conservador.

O mesmo mês de maio marcou o início dos pleitos na América do Sul, onde não houve mudança nenhuma. Na Colômbia, Juan Manuel Santos sofreu para superar o uribista e ex-aliado Óscar Zuluaga, e só conseguiu sua vitória no desempate, em junho, depois de uma derrota no primeiro turno. A disputa com a extrema direita, apadrinhada pelo cacique político Álvaro Uribe, e a necessidade de se diferenciar para conseguir votos na reta final, levaram Santos a mostrar uma proposta mais moderada, embora ainda longe de ser um projeto de esquerda.

Outubro foi o mês que mais sacudiu as urnas no continente. O primeiro fim de semana do mês teve uma emotiva disputa no Brasil, com um primeiro turno marcado pela surpreendente virada de última hora de Aécio Neves sobre Marina Silva, garantindo um lugar no segundo turno contra Dilma Rousseff, enquanto, na vizinha Bolívia, os benefícios de ter a economia cresce no continente impulsaram o povo a reeleger o líder indígena Evo Morales, com uma previsível vitória já no primeiro turno – mais de 60% dos votos, que garantiram seu terceiro mandato consecutivo.

O último fim de semana do mesmo mês de outubro teve outra jornada dupla no continente, com o Brasil vendo um segundo turno ainda mais apertado, mas confirmando o favoritismo de Dilma Rousseff, que conseguiu seu segundo mandato, o quarto consecutivo para o PT – a menor vitória do partido, com o opositor Aécio Neves superando os 48% dos votos.

No mesmo dia, debaixo da fronteira sul do país, os uruguaios viveram seu primeiro turno. Tabaré Vázquez, que tentava retornar ao poder cinco anos depois, conseguiu uma vitória com vantagem tranquila sobre o jovem conservador Luis Lacalle Pou, que foi confirmada em novembro, no segundo turno. Claro que Vázquez significa um governo mais moderado que o do já legendário Pepe Mujica, e como foi o seu próprio primeiro mandato, mas não deixa de ser o terceiro período seguido da Frente Ampla governando o Uruguai.

Dilma Rousseff e Evo Morales se reelegeram em seus respectivos países, em outubro passado. O boliviano com folga, a brasileira no sufoco.

Dilma Rousseff e Evo Morales se reelegeram em seus respectivos países, em outubro passado. O boliviano com folga, a brasileira no sufoco.

Chega 2015 sem a mesma agitação das urnas deste já esgotado 2014. Mas talvez tenhamos mais mudanças, ou pelo menos disputas mais emocionantes. No México, em junho, as eleições parlamentarias serão o primeiro evento político importante após o drama ainda não solucionado dos 43 estudantes desaparecidos em Ayotzinapa, e merece atenção não só pela influência que o assassinato pode ter como também pelas consequências que o presidente Enrique Peña Nieto pode ter que enfrentar, em seus últimos anos de governo, dependendo das novas bancadas que forem eleitas. Na Venezuela, Nicolás Maduro e a oposição também enfrentarão eleições legislativas, que serão um indicativo de quem se saiu melhor depois da crise política de março passado.

Em setembro, a Guatemala decidirá seu novo presidente, o sucessor do ultra nacionalista Otto Pérez Molina, numa corrida que carece de emoções até agora. Derrotado no segundo turno em 2011, o empresário Manuel Baldizón, do partido de centro-direita LIDER, tenta se reivindicar desta vez, e aparece como favorito com quase 50% das intenções de voto na maioria das pesquisas. Sandra Torres, líder da centro-esquerda, e Alejandro Sinibaldi, atual ministro das Comunicações e provável candidato da situação, não chegam sequer a 20%. Lutam pelo segundo lugar e para forçar um por enquanto improvável segundo turno.

Mas a disputa mais emocionante do ano, e mais interessante para o Brasil, será a da Argentina, em outubro. A eleição marcará o fim da dinastia Kirchner no país, já que Cristina Fernández não será candidata, mas não significa necessariamente o fim do kirchnerismo. A coalizão governista FPV (Frente Pela Vitória) decidirá seu candidato presidencial somente em agosto, nas eleições primárias na qual participarão oito candidatos. O vencedor terá que enfrentar o prefeito de Buenos Aires e líder da direita Mauricio Macri, além do ex-kirchnerista Sergio Massa, que foi governador da Província de Buenos Aires, mas abandonou a FPV para ser um novo referente opositor de centro – uma espécie de terceira via, como Marina Silva no Brasil.

Também está previsto para 2015 o primeiro turno das eleições no Haiti, embora seja pouco provável que o pleito seja decidido nessa instância, deixando a decisão sobre o novo mandatário para o segundo turno, em março do ano seguinte.

Com todos os pleitos do novo ano programados para o segundo semestre, a agenda política da América Latina, nos primeiros meses, ficará entregue à tristeza pela despedida daquele que foi o popstar da política regional nos últimos anos. E este blog não duvidará se houver até mesmo uma pequena romaria continental, ou até mesmo mundial, para assistir a despedida de Pepe Mujica.

Pepe se despede da presidência do Uruguai depois de seu estilo austero conquistar a admiração de pessoas diferentes ideologias, em todo o continente.

Pepe se despede da presidência do Uruguai depois de seu estilo austero conquistar a admiração de pessoas diferentes correntes ideológicas, em países de toda a América Latina, e no resto do mundo.