Argentina faz ensaio geral para eleições presidenciais neste domingo

Neste domingo (09/08) os argentinos vão definir os nomes que disputarão a presidência, o senado e câmara dos deputados em 25 de outubro. Essa escolha será feita através de eleições prévias, denominadas PASO – primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias – um mecanismo de votação recente na Argentina, criado em 2009.

São duas as escolhas que o eleitorado deverá fazer. Uma é para montar a lista de candidatos que representará cada partido político, incluindo os cargos do Executivo e do Legislativo. A outra é quais partidos podem concorrer nas eleições nacionais que, segundo a lei, são os que obtiverem pelo menos 1,5% dos votos. Trata-se de uma cláusula de barreira que pode excluir as legendas menores dessa disputa.

A participação é obrigatória para todos os cidadãos entre 18 e 70 anos e funciona da seguinte maneira: em uma cédula de papel, o eleitor vai escolher os candidatos de sua preferência dentro de um determinado partido. Os mais votados vão para a disputa de outubro. Na prática, a criação dessas eleições primárias instituem um outro período de campanha eleitoral no país – encerrado na última quinta-feira (06/08) – além daquele existente antes das eleições gerais. Por ser obrigatória a participação de todos os eleitores, as primárias não estão mais restritas ao âmbito partidário e funcionarão como um teste para outubro. Como a maior parte dos partidos já escolheram seus nomes para os cargos majoritários, a eleição de domingo será uma espécie de primeiro turno. Se a Argentina tiver um segundo turno após 25 de outubro, o país terá passado praticamente todo o ano de 2015 todo em campanha. Para o canditato à presidência ser eleito, o sistema eleitoral argentino estabelece que são necessários 45% dos votos válidos (ou 40% com vantagem de pelo menos 10% sobre a soma de todos os outros votos válidos).

Para a presidência, a expectativa, de acordo com as pesquisas, é que os votos se concentrem entre o oficialismo e a oposição conservadora, representada pelo partido PRO (Proposta Republicana). Esta é a segunda vez que um chefe máximo do Executivo será escolhido após primárias abertas e obrigatórias. Em 2011, a presidenta Cristina Kirchner, terminando seu primeiro mandato, foi vencedora na PASO e obteve metade dos votos, quase 40 pontos percentuais à frente do então oposicionista Ricardo Alfonsín, da UCR (União Cívica Radical), em segundo lugar.

Cristina não pode se candidatar em 2015 por estar no segundo mandato. O nome apoiado por ela para a disputa é Daniel Scioli (Frente para a Vitória), de 58 anos, atualmente governador da província de Buenos Aires – distrito importante por concentrar 37% do eleitorado, 11,8 milhões de pessoas.

Daniel Scioli, o nome do oficialismo (Crédito: Facebook)

Daniel Scioli, o nome do oficialismo (Crédito: Facebook)

Inicialmente, Scioli concorreria dentro do próprio partido com o ministro de Transportes, Florêncio Randazzo. Em junho, porém, o ministro saiu da disputa para concentrar os votos oficialistas em um candidato só. Antes de ser governador, Scioli foi deputado federal, secretário de Turismo e de Esportes e vice-presidente do país (2003-2007), eleito junto de Néstor Kirchner em 2003. Os dois foram a primeira chapa eleita após a crise econômica de 2001 que conseguiu terminar o mandato.

O mais forte nome da oposição conservadora é Mauricio Macri (PRO), 56 anos, chefe de governo de Buenos Aires (2007-2015) e ex-deputado federal. Assim como Scioli, não vai disputar com outro pré-canditado em seu partido. Em 2010, manifestou interesse em presidente, mas optou por tentar a reeleição no governo de Buenos Aires, vencendo o então candidato do kirchnerismo, Daniel Filmus. Foi vitorioso com 64,25% dos votos.

Mauricio Macri no encerrando da campanha (Crédito: Facebook)

Mauricio Macri no encerrando da campanha (Crédito: Facebook)

Em alguns aspectos, é possível estabelecer algumas semelhanças biográficas entre Scioli e Macri. Ambos são riquíssimos. A família de Scioli foi dona de uma importante rede de eletrodomésticos no país, as Casa Scioli, que foi à falência na década de 1990. Enquanto empresário, trabalhou como um dos principais nomes da Electrolux na Argentina. Macri é filho de um empresário de sucesso, Franco Macri, proprietário de uma das maiores construtoras da Argentina e do Grupo Macri, que opera na América do Sul em diversos setores, como o automotivo e da construção civil. No Brasil, um integrante dessa corporação é a Civilia Engenharia. Macri já trabalhou no Citybank. Jogador de futsal, Scioli foi também oito vezes campeão mundial de motonáutica, até que um acidente em 1989 provocou a amputação de seu braço direito. Macri foi presidente do Boca Juniors duas vezes (1995 e 2008), o cargo que lhe deu popularidade e notoriedade antes de ingressar na carreira política.

Planos de governo ainda não foram divulgados porque, em tese, os argentinos deveriam escolher seus candidatos entre os nomes do partido nas primárias. Algumas propostas, porém, são vagamente mencionadas. Com o tema “Desenvolvimento Argentino”, Scioli cita geração de empregos e fomento à indústria argentina para exportar e reduzir importações, com investimento público para infraestrutura – um fator que, segundo reconhece o candidato, é necessário para o desenvolvimento. Quanto às relações internacionais, deixou claro que pretende seguir as políticas de integração iniciadas com Néstor Kirchner em 2003. Reuniu-se com Lula no Brasil em abril e com Raúl Castro em julho.

Macri, um candidato forte sobretudo na cidade de Buenos Aires, fez uma campanha defendendo mudança de rumo, mas pouco agressiva. Criticou corrupção e pobreza, mas menciona mais valores humanos do que propostas para política ou econômica. Pouco falou da inflação, um dos grandes desafios que enfrentará o eleito em 25 de outubro.

No site da campanha, escreveu: “Aprendemos que governar é servir a outros, a todos, trabalhar para o desenvolvimento do país e das pessoas (…) O melhor time para governar é o que enxerga a política como construção comum, que sabe que a diferença não é um problema, mas sim um enriquecimento mútuo. Acreditamos que governar seja fundamentalmente uma tarefa humana: escutar, cuidar, dialogar, estar perto (…) Queremos governos que ajudem a viver, não que coloquem a cada dia um novo obstáculo”.

Um dos fatos que faz questão de ressaltar em campanha é o sequestro de que foi vítima em 1991. Ficou doze dias no cativeiro. Um período que, segundo ele, serviu para despertar algo em seu interior que o “mudaria para sempre”.

As únicas contudentes promessas que Macri faz são: não vai privatizar as Aerolíneas Argentinas e vai transformar a educação pública de seu país na melhor da América Latina.

As pesquisas divulgas pela imprensa argentina apontam a liderança de Scioli, com Macri em segundo lugar, seguido do deputado Sergio Massa, um peronista dissidente. Os outros pré-candidatos à presidência são Víctor De Gennaro (Frente Popular), Elisa Carrió (Coalizão Cívica), Ernesto Sanz (UCR), Juan Manuel de la Sota (UNA), Adolfo Rodriguez Saá (Alianza Compromiso Federal) e Margarita Stolbizer (Progresistas).