Argentina: o que esperar da grande imprensa?

Depois de confirmada a vitória de Maurício Macri, o assunto do primeiro editorial do La Nacion, um dos jornais de maior circulação da Argentina, foi um clamor pela anistia dos torturadores da última ditadura civil-militar (1976-1983). Em uma atitude previsível, o jornal condenou os processos contra torturadores realizados ao longo do governos Kirchner (2003-2015), após a anulação das leis de Obediência Devida e Ponto Final (as leis de anistia da Argentina).

A preferência do La Nacion pela oposição já não é nenhuma surpresa. Também não deveria causar espanto a rápida justificativa e defesa da violência de Estado – embora tal atitude seja sempre chocante para quem condena práticas como desaparecimento forçado, tortura e sequestro de filhos de oposicionistas para adoção ilegal (Clique aqui para ler o editorial). A explicação vai além dos argumentos que traz o jornal, de que prender pessoas de idade tão avançada constitui uma violação de direitos humanos, ou de que a repressão estava apenas agindo contra uma “aberração terrorista”. Trata-se, na verdade, do fato de o La Nacion ter sido uma das empresas mais beneficiadas pela ditadura argentina.

La Nacion e Clarín são acusados de terem sido cúmplices da ditadura para adquirir a maior parte das ações da Papel Prensa, principal responsável pela fabricação e distribuição de papel-jornal para abastecer pelo menos 170 veículos no país. Isto porque a Papel Prensa se tornou propriedade desses dois grupos graças à ditadura, que sequestrou e torturou familiares do empresário David Graiver, então sócio majoritário da fábrica de papel, para que vendessem a empresa. Gravier morreu em um acidente aéreo em agosto de 1976, três meses após o golpe.

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Rafael Videla, ditador Argentino, brinda na inauguração da fábrica de papel com Ernestina Herrera de Noble, dona do Clarín

Em 2010, Cristina Kirchner acusou oficialmente os dois jornais de se beneficiarem da repressão e o governo publicou um relatório denunciando as torturas e ameaças que a família de Graiver sofreu após sua morte. Apesar de a família Gravier ter sido presa e torturada, vendendo, em seguida, as ações, tanto o La Nacion quanto o Clarín alegam ter sido lícita a aquisição.

Além de levar à Justiça a acusação de cumplicidade com a ditadura, o governo aprovou um projeto de lei que declara que “a fabricação, distribuição e comercialização do papel de imprensa é questão de interesse público”. Essa lei tirou o papel usado pela imprensa do controle do Clarín e do La Nacion, que ainda controlam o capital da Papel Prensa. O Clarín possui 47% das ações, o La Nacion outros 22%, o Estado argentino é dono de 27%. Os restantes 4% são de pequenos acionistas. Para além das acusações de ter sido cúmplice da prisão ou das ameaças à família Graiver, não se pode negar que o La Nacion se beneficiou com o crime.

No dia seguinte à publicação do polêmico editorial, jornalistas do La Nacion publicaram um texto e uma foto para protestar: “as notas editoriais do LA NACION representam exclusivamente a posição editorial do jornal, e não expressão a posição de seus jornalistas, nem dos integrantes de outras áreas da empresa (Clique aqui para ler).