As falsas certezas sobre os acordos entre Cuba e Estados Unidos

A vida e o 11 de setembro de 2001 ensinam a não tomar conclusões precipitadas quando o assunto é política internacional.

Uma das correntes mais fortes de pensamento naqueles dias de torres gêmeas caídas dizia que o atentado era o símbolo da decadência dos Estados Unidos como potência hegemônica, e que nos anos seguintes essa decadência seria mais evidente a cada ano.

Treze anos depois, o país liderado por Barack Obama continua dando as cartas, e conta com um sistema de vigilância de indivíduos que, apesar dos vários escândalos por espionagem de líderes mundiais, continua funcionando – sabe inclusive quem é você e que está lendo este artigo agora.

Logo, nada mais responsável do ponto de vista da consequência do que jogar essa água no chope da eufórica esquerda brasileira e latino-americana, que especula com o futuro enquanto celebra a derrota confessada dos Estados Unidos.

Barack Obama e Raúl Castro. Anúncios sem sorrisos, apesar do otimismo que geraram.

Barack Obama e Raúl Castro. Anúncios sem sorrisos, apesar do otimismo que geraram.

Sim, oficialmente foi uma derrota confessada. O próprio Obama admitiu que as medidas de isolamento não surtiram efeito, que o anticomunismo é só um discurso, que na prática não significa nada. Os estadunidenses libertaram os cinco agentes cubanos com a tranquilidade de quem sempre soube que eles não eram terroristas nem nada parecido, e agora falta o último passo, por fim ao embargo econômico que, segundo o insuspeito New York Times, “mantém a imagem de Cuba como vítima de uma política inutilmente dura dos Estados Unidos”.

Mas quem define o que são vitórias e derrotas são o tempo e a História, como bem sabe Fidel, absolvido por esses inexoráveis juízes algumas vezes, e novamente agora.

Algumas derrotas, porém, são mais evidentes. Por exemplo, a
comunidade latina de Miami, cuja maioria é de dissidentes cubanos,
insistiu em sua postura hidrofóbica, e foi claramente derrotada. Eles
mesmo acusaram o golpe na reação que tiveram aos acordos. Em outros
momentos em que Cuba tentou ser menos conflitiva com os Estados
Unidos, a resposta de Miami foi ainda mais violenta, inclusive
apoiando iniciativas terroristas como a de Posada Carriles (que
explodiu um avião da linha aérea cubana em 1976) e a dos atentados
contra hotéis de Havana nos Anos 90, quando a ilha via no turismo para
estrangeiros uma das novas fontes de recursos, pensando em compensar o
fim da ajuda financeira soviética. Claro que os tempos atuais não são
propícios para simpatias com terrorismo de qualquer índole, e isso não
significa que, desta vez, eles não possam se adaptar aos novos tempos
e aproveitar a relação recuperada entre os países para tentar, de
outra forma, voltar a ter influência política na ilha.

Também há equívocos nas leituras de direita que se difundiram em alguns países da América Latina, que apontaram a Venezuela como principal perdedor dessa rodada do jogo da geopolítica, devido a um suposto isolamento, por uma suposta retórica antiestadunidense.

Primeiro, porque é irreal falar numa Venezuela isolada quando acabou de ingressar no Mercosul, conseguiu ser membro transitório do Conselho de Segurança no próximo ano e quando instâncias de integração como a ALBA e a Unasul, surgidas da visão latinamericanista de Hugo Chávez, continuam vigentes e mostrando força.

Ademais, a retomada das relações não significa que Cuba e Estados Unidos passaram a ser aliados. A ilha continuará a ser mais próxima politicamente da Venezuela e do Brasil, ainda que os investimentos estadunidenses sejam bem vindos – e recordemos que o fim do embargo é um passo esperado, mas ainda não confirmado.

Tampouco é certo dizer que os Estados Unidos estão adotando uma nova postura mais amigável com a América Latina, ou aceitando um mundo mais multipolar. Pode ser que o futuro mostre que sim, mas tomar os acordos com Cuba como parâmetro único para essa suposição seria tão equivocado quanto dizer que o país quis reforçar sua dureza econômica contra os inimigos do continente quando anunciou novas sanções contra a Venezuela, exatamente uma semana antes. Até mesmo as leituras jogam com os dois fatos, deduzindo que o que houve foi uma simples mudança no posto de inimigo número um, também pecam pela ansiedade.

Os Castro venceram, porque o fim do embargo têm sido o objetivo primordial da política exterior cubana, e os acordos abrem o caminho, além de tornar o tema como pauta definitiva, inadiável. Contudo, não se pode dizer que o castrismo se fortalece ou que o modelo socialista cederá a partir da entrada de novos capitais. Os próximos capítulos dessa novela ainda não foram contados, e serão os que definirão as consequências reais, e parte desses capítulos passarão pelo debate político que se dará a partir de agora, o que é vital num país extremamente politizado, como é Cuba.

Dilma Fidel

Fidel Castro e Dilma Rousseff. A História absolveu a ambos. Foto: cubanet.org

Dilma Rousseff venceu. Talvez seja a vencedora menos esperada, e na verdade, sua vitória é a vitória de uma política exterior brasileira que apostou num novo cenário político, apostou que ele chegaria num prazo menor do que supunha o resto do mundo, e adiantou seus investimentos na ilha para estar bem posicionado na hora certa.

Talvez devido ao ano eleitoral, as previsíveis críticas internas, de uma direita brasileira tão hidrofóbica quanto a de Miami, jogaram em Dilma todo o ônus político do discurso de “usar dinheiro público para financiar uma ditadura comunista” – e não vem ao caso discutir os possíveis méritos e contradições dessa expressão – e a presidenta suportou os ataques estoicamente. Agora, não há analista econômico capaz de desmentir que os investimentos no Porto de Mariel e a aproximação com Cuba foram um golpe de mestre, e demonstram um Brasil com visão estratégica e disposto a jogar o jogo grande, não somente quando investe no fortalecimento dos BRICS. A História absolveu Dilma, e deixou a nova onda anticomunista brasileira como um movimento na contramão da direita do resto do mundo.

Este 2015 que se aproxima nos mostrará um pouco melhor o que significa exatamente esta semana. E no final de 2016, o ainda imprevisível sucessor de Obama dirá que rumo tomarão essas novas políticas estadunidenses. Até lá, mesmo as estratégias de Cuba, Estados Unidos, Venezuela e Brasil deverão sofrer transformações e adaptações.

A melhor pedida, portanto, é esperar esse futuro tomando uns cuba libres e despindo-se um pouco das ideologias, porque se algo é certo no que aconteceu nesta histórica quarta-feira 17 de dezembro é que ambas cederam e nenhuma delas venceu. Pelo menos não agora.

  • Hélio José de Andrade Santos

    O autor fala em “não tomar conclusões precipitadas quando o assunto é política internacional”. Depois se precipita ou erra muito ao dizer que foi a “derrota confessada dos Estados Unidos”. Diz ainda que “os Castros venceram”, não venceram nada, perderam feio, quem começou a ganhar é o povo apolítico cubano. Também diz porto de Mariel é bom, sim mas é capitalista, e é o começo do fim do socialismo em Cuba, ou seja , o porto é bom para o povo mas é ruim para a ditadura socialista e para a ideologia de Dilma (se ela é socialista). E a história não absolveu Dilma de nada dessa ideologia socialista dela e dos Castros, pelo contrário, o que está acontecendo mostra que os EUA estão certos, porque Cuba está mudando e depende dos EUA e não o contrário. Os EUA são os mesmos e não depende de Cuba.. E o mais contraditório e confirmador, do autor, é quando diz :” é esperar esse futuro tomando uns cuba libres”. Cuba libre é Coca-cola com rum ( bebida feita em Cuba). Sobre esse caso Cuba e EUA, os EUA sempre ganharam.

    • Manu

      Só pelo não entendimento da metáfora do cubas libre já entendi de qual tipo de pensamento político você veio ..

      • soniam queiroz

        Se não for camuna igual vc é suspeito, mas nós do povo brasileiro queremos mais é que esquerda se foda.

    • soniam queiroz

      Comunismo de merda hein amigo, tem que se humilhar para o capitalista pagar a conta, ou infiltrar países traindo a democracia de muitas nações para criar a asqueroso bolivarianismo para sugar o dinheiro de outros povos, é assim que vive os ditadores assassinos de mais de cem mil cubanos.Vê se querem comissão da verdade lá.

  • Não há mais espaço para ideologias ingênuas desde 2008, quando o país do Capitalismo socorreu o ~mercado~ com dinheiro público. A realpolitik é bem mais complexa do que fazem entender os telejornais. A quem perdeu o bonde da História, resta apenas passar vergonha em manifestações lunáticas na Avenida Paulista.

    • João Reis

      Concordo plenamente.

    • soniam queiroz

      veja as pesquisas antes de mostrar-se quanto alienado, aquelas “manifestações lunáticas da Avenida Paulista” representa a grande maioria das sociedade brasileira que não quer nem ver falar em esquerda ditatorial, gramsciana, assassina e falida.CUba que diz ser tão bom vc não quer ir né vermelhinho caviar.

  • projeto existência – história
    – Ele não era mau nem bom, não estava certo nem errado, não foi pior nem melhor que nenhum Diferente por que essas coisas não existem. Ele foi incapaz de sentir Felicidade no amor, no respeito e na compaixão às Diferenças.
    – E então?
    – Continuemos
    amorvaidadefelicidade.blogspot.com

  • Fred

    Até a Vitória!

  • Áquila

    parabéns pela análise, mas ainda há muito chão pela frente para todos.

  • clayton

    Que grande Balela em Carta Capital. Sempre tentando justificar os equívocos da presidente Dilma e do PT. Investir no porto de cuba é a mesma coisa do que VC passar fome em casa pq não tem dinheiro pra comprar comida e quando ganha alguma coisa paga o banquete da casa do vizinho, mesmo sabendo que não sera convidado para o banquete.

  • Danilo Belfort

    Amigos da Carta Capital,
    eu e meu namorado Celso Madruga (o Celso Silva Ferreira da banda Alma da Noite) vibramos muito com os novos rumos da política estadunidense perante Cuba.

    Sabemos que ainda há muito a acontecer e nossas esperanças são as melhores possíveis.

    Parabéns pelo excelente artigo!
    abraços,
    Danilo Belfort e Celso Madruga

    • soniam queiroz

      Ao escrever “estadunidense” já disse se tratar de um comunista progressista gay, faz melhor; vai para CUba, pq a salvação daquele falido e faminto regime comunista é ser vizinho de um capitalista rico.

    • soniam queiroz

      Em tempo; quando rolar um filho deste lindo casal, que não seja aquele moreno e mal cheiroso, poste uma foto para delírio de todos, pq o amor é lindo, e o que mata é a traição.

  • jorge a j rodrigues

    A Águia Americana sempre dará as cartas e jogará de mão.

    • soniam queiroz

      Ainda bem que é ela, se fosse o urso russo Putin, o panda chines, a hiena Fidel, o asno Maduro, o doiodo da Coreia do Norte vc iria ver o terror que seria.

  • Janine

    Apenas alguns “adendos” e pontos que nem sequer foram levantados nesse artigo. Primeiro, quanto o porto de Mariel custou ao bolso do contribuinte brasileiro? Segundo, em que isso irá beneficiar o Brasil haja vista o nosso dinheiro já estar sustentado a ditadura cubana há vários anos (vide o programa mais médicos)? Terceiro, será que Obama vai dar ponto sem nó dessa vez? Ou será que está fazendo uma graça para o eleitorado hispânico após seu partido ter perdido a maioria no congresso americano (e o próprio Obama ter perdido muito de sua popularidade)? Se respondermos a essas simples questões chegamos à conclusão de que a única coisa que a nossa presidenta pagou dessa vez foi um belo mico. Detalhe, esse mico foi pago com o dinheiro dos nossos impostos!!

  • soniam queiroz

    Pelo menos temos uma certeza, os EUA é uma democracia linda e maravilhosa, e CUba, dos assassinos Fidel e Raul, é uma ditadura de CINQUENTA ANOS, que já matou mais de cem mil inocentes, e ainda continua matando, o Obama entrará para hitória americana como um imbecil, pq era para ele ter exigido democracia e liberdade para os cubanos.

  • soniam queiroz

    Na verdade o que nos importa é que todas estas obras feitas em países bolivariano com nosso dinhero, gerando emprego e infraestrura que nos falta aqui, em benificio de ditaduras, tivesse sido feitas aqui, óbvio que rolou propinas para os traidores e ladrões do Brasil tipo LULA E DILMA, pq PAC SIGNIFICA; PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DE CUBA. Vivo na esperança de um dia ver este canalhas do PT na cadeia, e pasmem, sou mulher, negra, culta, nível superior sem cotas ou ajudas(médica formada em federal do Brasil), por mérito intelectual e qualificação, não sou nenhuma recalcada de movimento negro,e desconheço preconceito.