Augusto Pinochet, uma história de amor

Engana-se quem pensa que o amor precisa ser feito somente de beijos, abraços e sexo. Pode se constituir de tantos elementos diferentes, tão contrários a si, e ser o mesmo amor, como já dizia o poeta d´Os Lusíadas.

Só o amor conhece o que é verdade, e a verdade por ser até mesmo o inferno. Augusto Pinochet tinha medo do inferno desde criança, devido aos valores católicos recebidos da mãe. Em 1959, ao voltar de um período de três anos de trabalho no Equador, colaborando na criação da Academia de Guerra daquele país, o então major do exército é enviado para comandar o Regimento Esmeralda, em Antofagasta, onde conhece o verdadeiro inferno.

Antes do Equador

A família Pinochet-Hiriart, em 1956, antes da viagem para o Equador. Sorrisos que precedem um casamento que começaria a ruir, no retorno ao Chile.

Augusto não era homem de esconder muitos segredos, mas sua esposa, Lucía Hiriart, só descobriu as infidelidades do marido em Quito, com a bailarina Piedad Noé, quando já haviam retornado ao país natal, pelas cartas de amor que ela enviava, lembrando do tórrido romance. Antofagasta tornava tudo pior, mas o calor seco da desértica cidade litorânea era menos insuportável que a relação com a mulher naquele momento:

– Milico de merda!

– Sou aquilo que sou por causa da mulher que tenho.

– Pouca coisa! Nunca vamos sair desse buraco onde você nos enfiou.

O que irritava Lucía não era tanto a infidelidade, mas sim ter que aceitar a traição de um marido que tampouco lhe daria a posição social que ela queria. A relação parecia não ter mais futuro. Augusto Pinochet era um oficial de rango médio, com carreira militar de lenta porém constante ascensão, graças a uma fama de apolítico, o que ainda assim era pouco para as pretensões da filha do senador Osvaldo Hiriart.

– Vou voltar para a casa do meu pai, que é um homem de verdade, enquanto você não se tornar um – dizia ela, quando levava os cinco filhos do casal de volta para Santiago. Se distanciou dele várias vezes, mas regressava meses depois, uma rotina que continuou mesmo após ele se tornar general, em 1962.

É quase unanimidade entre os biógrafos de ambos que o caráter de Lucía e a forma rude com a que tratou o marido durante anos foi decisiva para que Augusto pudesse aproveitar a chance de ser o homem certo no lugar certo em setembro de 1973. Foi o próprio general Carlos Prats, homem de confiança de Salvador Allende, quem indicou Pinochet para o seu lugar, após pedir demissão do cargo de comandante-em-chefe do Exército, quando sua imagem de militar apolítico ainda estava vigente – além do mais, Pinochet foi responsável por frear uma tentativa de golpe, em junho daquele mesmo ano, dando a impressão de ser um militar defensor da institucionalidade.

Entre junho e setembro, muitas coisas mudaram na cabeça de Augusto Pinochet, e Lucía foi a principal impulsora dessas mudanças. O Chile inteiro sabia que o golpe era uma questão de tempo, e faltava saber quem seria o seu líder e protagonista. A indicação do general Prats, aceita pelo presidente Allende, deu a Pinochet a chance de jogar o segundo match point contra o governo da Unidade Popular. Lucía lembrava a ele sobre essa oportunidade todas as noites, e nem precisava, pois ainda era fresca a memória de Antofagasta, e ele sabia que era a hora de mostrar que não era “pouca coisa”.

Também foi Lucía quem inspirou o general, já ditador, a ser implacável com seus opositores e inclusive com os colegas militares que tentaram dividir o poder com ele dentro da Junta Militar de Governo – como o comandante da Aeronáutca, o brigadeiro Gustavo Leigh, que queria um revesamento na presidência da Junta, e terminou sendo derrubado, anos depois.

Lucia e Augusto

O amor entre Augusto Pinochet e Lucía Hiriart.

Antofagasta nunca saiu da memória do casal Pinochet-Hiriart, assim como a anterior viagem ao Equador nunca deixou o coração do general Augusto. Lucía o trataria com o desprezo nascido da infidelidade por todos os dias até o resto da vida dele, em dezembro de 2006. Em suas aparições em público, mesmo durante os tempos no poder, eram raríssimos os gestos de carinho de um ou de outro.

Pinochet continuou se comunicando por cartas com Piedad Noé até o final da vida dela, em 1990. Um suposto filho equatoriano do casal chegou a pedir, sem sucesso, um exame de DNA, depois do falecimento de ambos.

Lucía Hiriart sempre soube dessas cartas, e conviveu com elas sem grandes preocupações  durante todos os seus anos como primeira-dama. Provavelmente, supôs que o caso continuou também fisicamente, que os anos da ditadura foram de encontros fortuitos, com a ajuda dos colegas de farda, ainda que não tivesse uma evidência maior que a das cartas. Talvez também suspeitasse que Piedad era o verdadeiro grande amor da vida de Pinochet, como ele certamente deve ter concluído, no ocaso de sua vida. Verdades que não manchavam a certeza de que ela era a que seria lembrada pela história. A esposa oficial. A mulher que, efetivamente, governou o Chile com mão de ferro, junto com ele, por 17 anos.

 

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Neste dia 25 de novembro, a Fundação Augusto Pinochet celebra o aniversário 99 do seu patrono, em cerimônia de caráter fechado, para poucos convidados, entre os quais estará a viúva Lucía Hiriart. Também estará presente um dos netos do casal, o ex-capitão do exército chileno Augusto Pinochet Molina, que anunciará oficialmente a criação do seu novo partido, o Minha Pátria, cuja plataforma será a defesa do legado da ditadura. Durante o evento, será anunciada a agenda para a celebração do centenário do ditador, em 2015.

Aos que quiserem maiores detalhes sobre a emocionante história do casal Pinochet-Hiriart, recomento o livro da jornalista e escritora Alejandra Matus, o que melhor descreve e defende a influência de Lucía sobre o general. Doña Lucía – la biografía no autorizada é provavelmente o livro que melhor explica tanto o matrimônio quanto o fato de que ambos foram as duas caras da ditadura chilena.

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  • Eduardo Borges

    Esclarecedor e muito profundo

  • Historia de amor?
    Historia de terror para povo oprimido!
    Deviam avó e neto serem presos por fazer apologia a ditadura que tirou milhares de vidas.E o seu museu destruído e amaldiçoado para todo sempre!