“Chile, decime qué se siente” sobre as mágoas deixadas em Beagle e nas Malvinas

A Argentina perdeu a Copa de 2014 em campo, superada pela Alemanha na prorrogação da final. Mas, temos que admitir, nas arquibancadas, nas ruas, na praia de Copacabana, eles foram os campeões. Ainda que passem os anos, como diz a letra, ninguém vai esquecer o hit daquele inverno: “Brasil, decime qué se siente, tener en casa a tu papá…”.

Pois nesta Copa América, a torcida argentina chegou ao Chile com uma nova versão da mesma canção. Porém, se a canção para os brasileiros era simples zoeira futebolística – lembrando a nossa derrota na Copa de 1990 e dizendo que o Maradona é maior que o Pelé –, contra os chilenos, a letra enveredou para o lado político, trazendo de volta o ressentimento por um dos conflitos mais controversos da história sulamericana.

A canção foi entoada em locais públicos, como esse shopping na cidade de La Serena – onde a delegação argentina estabeleceu sua concentração –, e nos estádios onde a equipe de Messi e Mascherano jogou. A letra diz o seguinte:

Chile, decime qué se siente saber que se te viene el mar
Te juro que aunque pasen los años, nunca lo vamos a olvidar
Porque vos sos un cagón, vigilante y botón
Nos vendiste en la guerra por cagón
Por acá no vengas más, ojala te tape el mar
Que que ayuden los ingleses a nadar

Traduzindo:
Chile, me diz o que se sente saber que o mar vai te pegar
(referência aos tsunamis que o país enfrenta com alguma frequência)
Te juro que ainda que passem os anos, nunca vamos esquecer
Porque você é um cagão, dedo-duro e puxa-saco
Nos vendeu na guerra por traidor
Por aqui não venha mais, tomara que o mar te engula
Que os ingleses te ajudem a nadar

Quem não conheceu aqueles anos de fogo na Patagônia talvez não entenda o contexto, mas os chilenos entenderam bem o recado. A ajuda dada pelo Chile ao Reino Unido durante a Guerra das Malvinas, como diz o canto, nunca será esquecida.

Desde 1982, os chilenos de Punta Arenas são os melhores amigos dos kelpers na América do Sul.

Desde 1982, os chilenos de Punta Arenas são os melhores amigos dos kelpers na América do Sul. (foto: El Mercurio)

Na verdade, essa disputa começou antes das Malvinas. Apesar da Operação Condor ter criado laços de amizade e cumplicidade entre as ditaduras sulamericanas – especialmente entre brasileiros e chilenos –, havia também alguns atritos. O mais forte dele era entre Chile e Argentina, que se agudizou no final dos Anos 70, por uma série de episódios decorrentes da velha disputa pela soberania dos territórios austrais – mais especificamente as ilhas ao redor do Canal de Beagle.

Alguns historiadores defendem que foi a conquista da Copa do Mundo de 1978 que despertou a obsessão da ditadura argentina por uma grande glória também no campo militar, que elevasse o governo à condição de indiscutível. O fato é que a buscaram, e quando uma sentença internacional deu ao Chile a soberania compartilhada do Canal de Beagle, o primeiro inimigo já estava escolhido.

E a guerra poderia ter começado naquele mesmo ano de 1978. Foi o então recém-assumido papa João Paulo II o responsável pela mediação entre as duas ditaduras, para evitar um confronto que, naquele momento, parecia iminente.

Ainda assim, o fantasma da guerra continuou rondando as fronteiras patagônicas. Tanto que, quando a ditadura argentina começou a promover a campanha de ufanismo pela recuperação das Ilhas Malvinas, nas ruas e nas manifestações massivas, os cantos da massa diziam “que se cuide Pinochet” e “hoje é contra os ingleses, amanhã contra os chilenos”.

A diplomacia britânica agiu rápido, usando como prova os cantos populares e uma declaração do próprio ditador Leopoldo Galtieri, em entrevista para a revista Perfil, em 1981: “que (os chilenos) tomem como exemplo, porque depois será a vez deles”. Não havia a menor dúvida de que o passo seguinte, após a recuperação das Malvinas, era a conquista da soberania plena sobre o Canal de Beagle – e talvez ir além.

Quando a guerra começou, em abril de 1982, o Chile já estava trabalhando em favor do Reino Unido, principalmente em tarefas de inteligência – através dos radares chilenos na região austral do país, foi possível monitorar todas as atividades da Força Aérea argentina e avisar os britânicos quando estava sendo preparado um novo ataque. Também foi permitido às aeronaves inglesas utilizar a Base Militar Concepción, próxima à cidade chilena de Punta Arenas.

Margaret Thatcher e Augusto Pinochet, dois ícones do neoliberalismo mundial, formaram uma aliança crucial durante a Guerra das Malvinas.

Margaret Thatcher e Augusto Pinochet, dois ícones do neoliberalismo mundial, formaram uma aliança crucial durante a Guerra das Malvinas.

Segundo o livro de memórias de Sidney Edwards, oficial da Real Força Aérea Britânica que combateu nas Malvinas, “a ajuda chilena foi crucial na disputa aérea. Sem essa informação teria sido quase impossível vencer os argentinos, e graças a ela, pelo contrário, foi relativamente fácil, pois nos permitiu reverter o fator surpresa”.

Quem também valorizou eternamente a ajuda chilena durante a Guerra das Malvinas foi Margaret Thatcher, que ressucitou a popularidade dos conservadores em seu país graças àquela vitória militar, e se tornou grande amiga pessoal do ditador Augusto Pinochet, com quem sintonizava também em termos ideológicos.

Quando Pinochet foi preso em Londres, em 1998 – por decisão do juiz espanhol Baltazar Garzón –, e apesar de que já não era mais primeira-ministra, Thatcher foi uma das que mais atuou junto às autoridades britânicas da época para evitar a extradição à Espanha e levá-lo de volta ao Chile, onde pode se manter impune pelos crimes contra os direitos humanos até a sua morte.

Atualmente, os chilenos são o maior contingente populacional de não-britânicos presentes nas Ilhas Malvinas (constituem 10% da população do arquipélago, aproximadamente), graças aos voos regulares para as Malvinas desde Santiago e Punta Arenas, a capital da província do extremo sul.

Frequentemente, os chilenos de Punta Arenas expressam seu apoio à ocupação britânica nas Malvinas. A última delas foi em 2012, quando o então presidente chileno Sebastián Piñera declarou seu apoio à iniciativa argentina de tentar recuperar a soberania através da via diplomática, o que desagradou a comunidade.

Michelle Bachelet e Cristina Fernández de Kirchner, em 2008, quando puseram uma pedra no conflito sobre o Canal de Beagle. A ferida, contudo, ainda não cicatrizou de todo. (foto: Presidência da República Federal Argentina)

Michelle Bachelet e Cristina Fernández de Kirchner, em 2008, quando puseram uma pedra no conflito sobre o Canal de Beagle. A ferida, contudo, ainda não cicatrizou de todo. (foto: Presidência da República Federal Argentina)

As seleções do Chile e da Argentina ganharam os seus grupos na primeira fase, o que significa que só poderão se enfrentar se chegam à final do torneio. Até lá, os argentinos serão maioria em todos os estádios por onde passem. Mas se essa final acontece, um canto como esse pode reascender um conflito diplomático importante – o que poderia ser mais complexo ainda para o Chile, que já vem de uma disputa judicial contra o Peru na Corte Internacional de Justiça, e que atualmente enfrenta outra contra a Bolívia, sempre por temas fronteiriços.

Um dos grandes acertos do Chile para esta Copa América foi a campanha “Cartão Verde”, apelando para que os torcedores chilenos respeitassem as torcidas adversárias – por exemplo, não vaiando os hinos dos rivais, e usaram o triste papel dos brasileiros em 2014 para mostrar o quanto isso é uma vergonha. Contudo, se essa final realmente acontece, será preciso um esforço muito maior, para lidar com um rancor que ainda está presente nos dois lados da cordilheira.

  • Danilo Luís Faria

    Ninguém se esquece, sobretudo porque falta às torcidas brasileiras a criatividade dos argentinos. Quantas organizadas locais copiaram essa canção e tantas outras?

  • Alanis Moura

    A argentina é a vergonha da america latina

    • Fausto Passaia

      Vergonha é você com essa opinião ignorante e preconceituosa.

  • britbob

    El concepto de que la Argentina heredó las
    islas de España es falsa. La ley en su momento, no podía aceptar herencia sin
    posesion y estipula que “sin
    oposición de algunos años fue necesario” antes soberanía fue aceptada.
    Vernet había pedido permiso a la cónsul británico en BUENOS AIRES en dos
    ocasiones de establecer “su” colonias y el británico protestó cuando
    fue nombrado gobernador militar apolítica y por el régimen BA. Jewett no tenía
    arreglo. El concepto del uti possidetis juris (herencia de España) es sólo al
    derecho internacional consuetudinario, aplicables a los que optan por utilizar.
    Gran Bretaña, Francia y Brasil nunca han optado por utilizar uti possidetis
    juris y UPJ ha “nunca” se utilizara en “cualquier” corte o
    tribunal “sin el consentimiento de ambas partes.

    La Corte Internacional de Justicia ha
    confirmo en una juicio y cuatro
    opiniones consultivas que ‘el derecho a la libre determinación es aplicable a
    todos los territorios no autónomos.” No hay excepciones. En este sentido el 20 de octubre
    de 2008 la Asamblea General de las Naciones Unidas rechazó una moción promovida
    por España y Argentina a las restricciones sobre el derecho a la libre
    determinación al afirmar que éste es un derecho fundamental. A la luz de la CIJ
    1995 Timor Oriental, la Comisión de Derecho Internacional de las Naciones
    Unidas y la Comisión de Derechos Humanos de la ONU sobre la libre determinación
    como jus cogens derecho “convincente”.

  • Antonio Jose

    Se a vontade do povo deve ser respeitada como base da democracia, a vontade do povo das Ilhas Falklands que não querem ser argentinos deve ser respeitada.

    O Pinochet sabia que se os argentinos ganhassem seria o próximo alvo, mas o apoio dele só apressou o fim da guerra, a derrota argentina era inevitável, os britânicos possuem força bélica muitíssimo superior.

    • Darío Saquetti

      Vai falar isso lá na espanha con respeito a Gibraltar para ver o que eles te dizem

      • Batuta

        Uma só Espanha, dos Pirineus a Gibraltar, do Golfo de Biscaya às Ilhas Baleares………………….!!!!!!

    • Ox

      bom, se tu fizeres uma pesquisa no sul do Brasil, você verá que a maioria não querem ser brasileiros e querem a separação. Tem até pesquisa feita sobre isso.

      Então o sul deveria ser um país por causa da vontade da maioria?

    • Batuta

      Mas a brava FAA pegou o Atlantic Conveyor e o Sheffield……………………….., não obstante a determinados momentos voar (de Rio Grande ou Rio Gallegos) apenas a 300 metros acima do nível do mar e não dispor mais do que 5 minutos em cima dos Alvos………………………!!!!!

  • Diiego Rodrigo

    se todos pensassem assim seria inviável a existência da eurocopa.

  • LINO

    EN LA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL LOS ARGENTINOS SE DECLARARON NEUTROS Y COLABORARON EN TODO LO QUE PUDIERON CON HITLER Y SE OLVIDARON QUE HERAN PARTE DE AMERICA DEL SUR. ADMIRO EL FUTBOL ARGENTINO Y VEO MESSI COMO EL MAS GRANDE DEL RAMO EN LA HISTORIA, SOLO QUE SU PERFIL NO ES DE UN ARGENTINO. PARECE MAS CON LOS CHILENOS, QUE DEJA QUE DIGAN TODO LO QUE QUERAN. PERO, SIEMPRE ESPERANDO,
    ALERTA COMO UNA SERPIENTE Y MANSO COMO UNA OBEJA. ESPERO ESTAR VIVO PAREA EL DIA EN QUE QUERAN ENFRETARNOS, SOLO ASI, SABRAN LA DIFERENCIA ENTRE ACCION Y PALABRA. COMO CABALLEROS TENEMOS LA HONRRA DE ESPERARLES. ESCOJAN EL DIA Y LA HORA PARA NOSOTROS ES INDIFERENTE.

  • Tiago Alves

    Só de pensar que vários nazistas criminosos de guerra se refugiaram na Argentina ( com conivência das autoridades daquele país ), fico pensando no que seria da América do sul se os alemães tivessem ganhado a guerra.

    • Calixto Irala

      os alemães se refugiaram na Argentina, Brasil, Paraguay, Chile e Bolivia apos a derrota deles, se tivessem ganhado a guerra eles nem apareceriam por aqui, tinha muitos paises a cosquistar mais perto deles.

    • Marcos

      Foram mais nazistas para os EUA do que para qualquer outro país.

  • Batuta

    Carta Capital,

    Por que o “‘REMOVED”” quando postado algo nas demais matérias……………………????!!!!