Colômbia e Venezuela dividem mais uma crise diplomática em suas fronteiras

por Mariana Clini Diana

A crise na zona fronteiriça entre a Colômbia e a Venezuela não é um assunto atual. A situação crítica na cidade colombiana de Cúcuta é o resultado da negligência dos dois países, com raízes em governos anteriores. Como muitas vezes acontece, a corda arrebenta no lado mais fraco e a população paga o preço.

Refugiado colombiano atravessa o Rio Cúcuta tentando levar seus pertences. (foto: AFP)

Refugiado colombiano atravessa o Rio Cúcuta tentando levar seus pertences. (foto: AFP)

A cidade de Cúcuta recebe cada dia mais colombianos deportados e também os que voltam “voluntariamente”. Oficialmente, fala-se em 1,1 mil deportados colombianos, porém muitos decidiram ir antes de serem despejados, tornando esta cifra muito maior. Segundo o prefeito Donamaris Ramírez, se os deportados continuarem chegando nessa quantidade, a cidade logo chegará a um colapso. A Defensoria do Povo da Colômbia possui mais de 400 denúncias de maus tratos. Os jornais colombianos registram um cenário dramático: crianças sendo separadas dos pais, habitantes cruzando o rio com seus pertences nos ombros, centenas de famílias acampadas.

Mas além de todos esses efeitos, Cúcuta se caracteriza por ser uma cidade de fronteira. Em muitas delas, especialmente as fronteiras com a Venezuela, existem atividades de contrabando que buscam tirar proveito da diferença cambiária entre um país e outro. Uma dessas atividades é a dos pimpineros – como são chamados os vendedores de gasolina que transportam o combustível da Venezuela para Colômbia –, exemplo de como esses grupos são tão importantes que configuram um elemento da economia de certas cidades. Quando uma fronteira se fecha, o impacto é gigantesco.

O líder dos pimpineros em Cúcuta, José Abel Correa, relata, em entrevista para o jornal El Espectador, que o número de pessoas com este tipo de atividade chega a mais de 30 mil em todo o eixo fronteiriço dos dois países. São tantos que foram capazes até mesmo de organizar uma cooperativa legal, reconhecida pela legislação colombiana.

Pimpinero colombiano, uma das atividades afetadas pela crise, afetando também a economia de todo o nordeste da Colômbia (foto: AFP)

Pimpinero colombiano, uma das atividades afetadas pela crise, afetando também a economia de todo o nordeste da Colômbia (foto: AFP)

O governo colombiano fechava os olhos para esta questão na fronteira, já que o preço subsidiado da gasolina venezuelana abastecia boa parte do seu país. O mesmo raciocínio pode ser aplicado para outros produtos básicos, também subsidiados pelo governo chavista.

Segundo Correa, mais de 75% da população do departamento fronteiriço Norte de Santander vive de atividades informais. Além dos repatriados, todo esse contingente de habitantes locais ficou sem ter como se sustentar depois do bloqueio da fronteira.

Raízes do conflito fronteiriço

A dinâmica da cidade de Cúcuta não é particular, e neste contexto fronteiriço, podemos acrescentar um pouco da história destes países.

A Venezuela sempre foi o destino de muitos colombianos, porém, a partir dos Anos 70, o país começou a receber um número importante de imigrantes fugindo do conflito armado. Os colombianos também foram para outros países da América Latina, entre eles o Brasil, mas a Venezuela foi o que mais recebeu os fugitivos da guerra. Recentemente, o próprio presidente venezuelano Nicolás Maduro citou um dado importante: um de cada seis venezuelanos tem origem colombiana, o que demonstra bem o que significa esse êxodo. É apenas um aspecto da convivência entre dois países que, mais que uma fronteira, compartilham uma história.

Famílias divididas, uma das consequências da crise na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. (foto:  Defensoria Pública da Colômbia)

Famílias divididas, uma das consequências da crise na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. (foto: Defensoria Pública da Colômbia)

Compartilham, por exemplo, a história do conflito colombiano. Não é novidade que os grupos guerrilheiros, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Liberação Nacional (ELN), em algum momento tiveram alguma relação com a Venezuela. Da mesma forma os grupos paramilitares, alguns dos quais tem ligação com políticos de direita – não são poucas as acusações e os indícios que ligam o ex-presidente Álvaro Uribe com certos grupos paramilitares. Uma situação que mostra como o conflito armado na Colômbia envolve forças tanto de direita quanto de esquerda.

Além da diversidade ideológica, esses grupos ilegais nas fronteiras não possuem componentes exclusivamente colombianos. Em 2012, o canal de notícias TeleSur exibiu uma reportagem sobre a entrada do grupo paramilitar Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) em território venezuelano, com a ajuda de militares deste país. Porém, antes mesmo desse conflito, já se sabia da existência de um grupo nomeado Autodefesas Unidas Venezuelanas, que tinha o objetivo de impedir a entrada de grupos guerrilheiros em seu território.

Após a desmobilização de parte desses grupos paramilitares de direita, em 2006, muitos se reinventaram em outros grupos ilegais, as chamadas Bacrim (Bandas Criminales). As áreas fronteiriças são alvos frequentes desses grupos, que muitas vezes as disputam devido à posição geográfica privilegiada, favorecendo o narcotráfico e também atividades de contrabando. De acordo com a Fundación Paz y Reconciliación, a fronteira com a Venezuela possui forte presença tanto dos guerrilheiros das FARC e do ELN como dos paramilitares – prevalecendo o grupo Los Urabeños.

Os grupos paramilitares de direita, como as AUC, assim como os guerrilheiros de esquerda das FARC, são parte importante da problemática que os dois países enfrentam. (foto: AFP)

Os grupos paramilitares de direita, como as AUC, assim como os guerrilheiros de esquerda das FARC, são parte importante da problemática que os dois países enfrentam. (foto: AFP)

Em julho deste ano, a Venezuela lançou o plano Operación de Liberación del Pueblo (OLP), com o intuito de “resguardar a segurança dos venezuelanos contra às pretensões de alguns setores de importar a prática do paramilitarismo, que busca quebrantar a estabilidade e a paz na Venezuela”, segundo seu presidente. A medida encontra sentido no fato de que Uribe continua sendo um dos principais colaboradores estrangeiros da oposição venezuelana, e existe a forte suspeita de que alguns desses grupos paramilitares estejam atuando a favor da desestabilização social e econômica do país vizinho – assim como o próprio contrabando em si já tem o seu efeito, embora esse não seja necessariamente obra do paramilitarismo. No entanto, alguns analistas e organizações sociais reclamam que a reação do governo de Maduro vem gerando uma onda de xenofobia contra os colombianos residentes na Venezuela.

O ataque de contrabandistas contra militares venezuelanos, há duas semanas, foi considerado a gota d´água, que levou a Venezuela a fechar a fronteira entre Táchira e o Norte de Santander. Depois de mais de uma semana com a fronteira bloqueada, o presidente colombiano Juan Manuel Santos deixou sua diplomacia pacífica de lado e pediu uma reunião extraordinária com integrantes da Unasul. A decisão foi tomada depois que o Defensor Público colombiano foi impedido de entrar no país vizinho.

São muitas as variáveis que os países sul-americanos terão que analisar para tentar colocar um fim neste conflito diplomático, e evitar que os dois países cortem suas relações novamente – algo que era comum durante os governos de Hugo Chávez e Álvaro Uribe, mas que não havia acontecido ainda na relação entre Santos e Maduro.

A grande movimentação de refugiados colombianos pelo Rio Cúcuta tem sido o cotidiano das últmas semanas na fronteira entre Táchira, na Venezuela, e o Norte de Santander, na Colômbia. (foto: AFP)

A grande movimentação de refugiados colombianos pelo Rio Cúcuta tem sido o cotidiano das últmas semanas na fronteira entre Táchira, na Venezuela, e o Norte de Santander, na Colômbia. (foto: AFP)

  • Alex Materazzi

    Maduro só está arrumando uma briga externa pra tentar aumentar sua popularidade interna.
    A poucos dias estava vociferando contra a Guiana, ameaçando e reivindicando um pedaço do território do país vizinho.
    Agora se volta contra os colombianos, expulsando-os da Venezuela.
    “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. Johnson

  • Henrique

    E no meio disto, o Brasil dá novos indícios de “nanismo diplomático”, para não ferir o ego do Maduro. O Brasil faria muito bem, inclusive a sí mesmo, se tomasse uma posição firme e enterrase de vez esta postura pró-Maduro.

  • Ditadura Nunca Mais

    Maduro esta corretíssimo. A fronteira deve ser mantida fechada por tempo inderteminado, as tropas bolivarianas devem ser ativadas em toda a fronteira pois, trata-se de uma questão de defesa nacional da Venezuela.
    Que pena que o Brasil não faz o mesmoo com sua fronteira com o Paraguai!

    • XXXXXX

      E todas as famílias que vivem das fronteiras? E as famílias que sao metade venezuelanas e colombianas? Voce acha mesmo que o povo deve pagar o preco de um conflito entre estados? A vialocao dos direitos humanos dos colombianos esta comprovada. Nao e uma manipulacao mediatica….

    • XXXXXX

      Nao é uma questao de estar ao lado da direita, ou esquerda. É uma questao de estar ao lado dos direitos humanos….

    • XXXXXX

      E o Paraguai? Você nao acha que o Brasil nao fez o bastante com a guerra da Triplice Fronteira com o Praguai? Lembra das tuas aulas de história? O Brasil tem uma dívida eterna com o Paraguai. Assim como Argentina e Uruguai. Que, inclusive, ja assumiram isso….

    • XXXXXX

      E teu proprio codinome é uma contradicao. “Ditadura Nunca Mais”, mas o que Maduro está fazendo realmente é uma ditadura. Um lider nao pode fechar uma fronteira e ponto final. Isso sim é ditadura. É impor uma posicao. E continuando sobre o Paraguai. Voce já foi ao Paraguai? Já viu quantas familias dependem da dinamica da fronteira?

      • Ditadura Nunca Mais

        É interessante a ditadura que voce diz que existe na Venezuela. Ela promove eleições livres, aberta ao diálogo, não tortura ou agride os direitos humanos., etc…, Muitos países gostariam de uma ditadura assim, voce não acha?

    • adoro comer coxinha

      Fechar a fronteira é coisa de ditadura, ok. Então todos os governantes da Europa que querem matam e torturam os milhares de refugiados sírios, líbios, malianos e afegãos que chegam ao continente todos os dias são o que então? Eu tampouco concordo com a medida do Maduro, mas acho que a Colômbia fez vista grossa pra uma ilegalidade durante décadas. A reportagem mesmo diz: eles legalizaram o contrabando de gasolina venezuelana. Se fossem argentinos contrabandeando gasolina brasileira choveria coxinhas pedindo intervenção do exército em toda a fronteira do sul do país. A Unasul deveria resolver isso condicionando a reabertura da fronteira a medidas concretas da Colômbia para acabar com o contrabando e uma ação conjunta, não só dos dois países, para combater o paramilitarismo de direita.

    • Aaron

      Concordo com você. A Colômbia pouco faz por seus pobres que procuram a Venezuela em busca de refúgio. Temos sim dívidas históricas com o Paraguai, porém nada justifica incompetência de nosso governo na vigilância das fronteiras.

  • Daniel Machado Dacol

    Maduro está correto? hummmm e se a Europa fechar suas fronteiras e começar a expulsar os refugiados que estão chegando aos montes? O engraçado é que o cara usa “Ditadura Nunca Mais” como nome e defende um ditador…

  • Fran Aleixo

    Quando Hugo chaves aceitou dar abrigo a grande numero de membros das farc colombiana ,que tem no trafico de droga sua maior fonte de financiamento, devia esperar que isso traria consequências dentro da Venezuela, o combustível subsidiado e a falta de produtos basicos na Falida Venezuela e a complicada situação politica Colombiana são um campo fertil para traficantes ,alem e claro da necessidades de um inimigo externo para justifica a total falência Venezuelana, nesse caso Colombiano e so bravata pois tem a Colombia um exercito preparado e bem armado.O grande perigo e a fronteira com a Guiana .

  • kerwson lisi

    Maduro eh counista bolivariano, e precisa de fato novo para o povo do seu pais esquecer que vive na falencia de um regime ditatorial e assassino.