Cristina e Ledezma entre as duas caras da mídia

As últimas horas recolocaram a Venezuela no noticiário internacional, principalmente na imprensa brasileira, devido à prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos líderes da oposição mais ferrenha ao chavismo, e mais ferrenha ainda desde a chegada de Nicolás Maduro ao poder.

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Antonio Ledezma (reprodução twitter oficial @alcaldeledezma)

Ledezma foi detido na noite do dia 19 de fevereiro, acusado de conspiração contra o governo atual. Segundo os agentes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional), o prefeito seria um dos líderes políticos por trás de uma operação chamada Plano Jericó, que tentaria dar um golpe de estado no país e criar um Acordo Nacional de Transição. Além dele, também estariam por trás do plano a deputadada María Corina Machado e Leopoldo López, detido desde fevereiro de 2014 por incitar manifestações violentas nas primeiras semanas do mesmo ano.

A indignação que a notícia gerou nos meios tupiniquins é justificada. Por mais conspirador que seja Ledezma, ele tem direito a um julgamento, e esse julgamento, que não significa automaticamente condenação, deve ser feito com base a provas. A detenção de Ledezma antes de que as provas sejam submetidas a juízo é um erro de grandes proporções, tanto político-estratégico quanto comunicacional – se existem evidências de um golpe de estado em andamento, começar expondo isso para a opinião pública antes das consequências legais seria mais adequado e eficaz. Ledezma participou do golpe de estado que fracassou em 2002, contra Hugo Chávez, e cada um pode julgar por si mesmo sobre se seria capaz de fazê-lo de novo, mas somente essa suposição não é suficiente para ter a razão.

Aqui, a falta de evidências joga a favor da tese defendida há anos por grande parte dos periódicos brasileiros, de que o governo chavista atenta contra a democracia. A condenação internacional é inevitável ainda que Maduro apresente provas contundentes de atividades golpistas por parte de Ledezma, e ele bem sabe do pouco espaço que existe na imprensa global para a sua defesa. Pelo contrário, erros como o desta semana serão intensamente usados contra ele também internamente, num cenário político que já não lhe é muito favorável e que terá, ainda este ano, uma eleição parlamentária decisiva para a continuidade do seu governo.

Porém, a mesma falta de evidências, nas mesmas páginas brasileiras, não parece ser um problema para a condenação prematura de Cristina Kirchner. A presidenta da Argentina foi indiciada por participar de um suposto esquema para encobrir os iranianos suspeitos de responsabilidade no atentado contra a AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), e parece já ter sentença prévia. Ela está ali, escondida no relato das notícias induzindo o espectador a acreditar que ela é culpada, independente do que digam os fatos.

Cristina Kirchner (foto oficial)

Cristina Fernández de Kirchner (foto oficial)

No caso da morte de Nisman, o cenário é mais nebuloso, já que nenhuma das duas teses (homicídio e suicídio) possui pistas contundentes que a sustentem, mas no caso da acusação judicial contra Cristina existe um fato importante, pois a denúncia que Nisman preparava se baseava em supostos pedidos de autoridades argentinas para retirada das alertas vermelhas de procura internacional contra os suspeitos iranianos em participar do atentado terrorista, em 1995. Essa informação já foi desmentida pela Interpol, o que foi pouco divulgado fora da Argentina, impedindo as pessoas elaborem suposições do tipo “se nunca foi pedida a retirada das alertas vermelhas, e provavelmente o governo argentino é consciente de suas próprias medidas, ainda mais quando elas garantem sua inocência, por que estaria interessado na morte de Nisman?”.

Coincidentemente, a Argentina, como a Venezuela, viverá um pleito importante no segundo semestre. Uma eleição presidencial na qual Cristina não será candidata, o que coloca o kirchnerismo em cheque, ainda mais com o Caso Nisman sendo tema inevitável de campanha.

Os próximos capítulos dessas duas novelas serão tensos e complexos, e vale ficar bem atento a eles, porque 2015 será um ano de muitas disputas políticas na América do Sul, e também pode ser um ano de mudanças, algo que o futuro próximo nos dirá.

  • Adalberto Amaral Allegrini

    O que se passa nestes dois países são fatos muito diferentes mas com uma peculiaridade só: são dois governos desastrados na condução da economia. Veja a Venezuela, estão detento vários comerciantes acusados de esconder mercadorias com a finalidade de especulação. O Presidente Maduro é realmente uma figura exótica no meio político. Quanta a Cristina, Presidente da Argentina, demonstra mais seriedade mas incompetente na elaboração dos planos economicos.

  • Uma coisa é suspeitar, como está acontecendo com a presidente da Argentina, outra muita diferente é condenar sem investigar. Ninguém na imprensa está defendendo a prisão de Kirchner, mas a apuração de sua responsabilidade.

  • Darwin

    Truculência comunista na América Latina

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  • Mário

    Se já mataram Salvador Allende no Chile quanto havia possibilidade do socialismo ser implantado no país, porque não fariam o mesmo na Venezuela?Tentaram sufocar a experiência cubana, durante 50 anos e tentarão em todos os locais que o império capitalista for incomodado. A Grécia que o diga.
    Portanto a justiça deve agir rápido. Já não é a primeira vez que ele tenta.

  • Jonas

    Alo Amigos nao deixe de ver o video no Youtube que se
    chama : ” O DIA QUE DUROU 21 ANOS (TV Brazil)
    sobre o golpe de 64 no Brazil , veja antes que desapareca,
    hälsningar Jonas (sweden)

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