De pochete ou de mochila em Cuba: Havana, Playa Larga, Playa Giron, Cienfuegos e Trinidad

O colaborador de Rede LatinAmérica Alex Hercog percorreu nove países do nosso continente em quatro meses e conta como foi sua experiência. O blog vai publicar ao longo de três dias seu relato. Clique aqui para ler o primeiro texto (Colômbia e Equador).

Por Alex Hercog*

Ultrapassando as fronteiras da América do Sul, parti para Havana, em Cuba. Bastaram alguns poucos minutos nas ruas da cidade para eu conhecer dois cubanos: Yordan e Wilfred. Eles são o que se pode chamar de “legítimos anti-revolucionários”: criticam a falta de liberdade de expressão, a impossibilidade de se manifestar, de navegar livremente pela internet e da falta de dinheiro. Antes de sairmos para explorar as ruas de Havana, eles pediram para eu gravar o nome deles, pois se a polícia os abordasse eu teria que dizer que éramos amigos.

Segundo Wilfred, “em Cuba, o turista é rei”. Por isso, é comum policiais abordarem cubanos em companhia de estrangeiros, para que nãos os incomodem. Esse aviso, no entanto, me pareceu exagerado. Em nenhum momento alguma abordagem do tipo ocorreu, nem mesmo quando entramos no saguão de um luxuoso hotel.

Meus dois amigos cubanos torceram para o Brasil na Copa. São fãs de Rivaldo e afirmaram que a seleção só perdeu porque não havia a experiência de Kaká, Robinho e Ronaldinho. Juntos, percorremos a “Havana real”, como eles mesmos batizaram. Ou seja, fora do circuito turístico, a Cuba do dia a dia.

Yordan, Wilfred e Alex (Foto: Alex Hercog)

Yordan, Wilfred e Alex (Foto: Alex Hercog)

A violência é zero. Não há pedintes. As pessoas só moram na rua se quiserem. Saúde é pública e de qualidade. Educação também, o que atrai muitos estudantes brasileiros, sobretudo de cinema e medicina. A conta de luz, boa parte da população é isenta de pagar. Para fazer o mercado do mês, com cerca de 5 dólares se compra o necessário. No entanto, essa compra é racionada e controlada. O salário-mínimo, que contempla toda a população, é de apenas 15 dólares. Eles se queixam. Perguntam quanto é o salário-mínimo no Brasil e eu respondo. Começo a deduzir os custos com moradia, educação, saúde, alimentação e a conta não fecha. Eles ficam perplexos, se perguntando como é possível sobreviver assim. Eu não consigo responder, meu espanhol raso não permite explicar algo tão complexo.

No entanto, apesar das queixas em relação à pobreza, o que se nota é que existe uma vasta gama de serviços que aumenta consideravelmente a renda dos cubanos. Em sua maioria, graças ao que é consumido pelos turistas: restaurantes, táxis, roupas, charutos, “casas de arrendamiento”, etc. Mas os cubanos também compram coisas, movimentam as pequenas lojas do centro, vão à praia, bebem rum e cerveja. Ou seja, há dinheiro além dos 15 dólares. E depois de Raul, está havendo uma abertura maior, com a criação de pequenos pontos comerciais antes proibidos.

Também há desigualdade em Cuba. De um lado, a parte antiga, com muitas vielas, cortiços e casarões. De outro, prédios e casas de luxo, de propriedade de estrangeiros ricos, embaixadores e do alto escalão do exército. Muitos cubanos se queixam da impossibilidade de sair do país para conhecer outros lugares e depois regressar. Dizem que está havendo uma facilidade maior com Raul, mas falta dinheiro. E, quando há dinheiro, muitas vezes a permissão é rejeitada.

Mas também há muita vida em Cuba. As pessoas são felizes, trabalham bastante, curtem a noite, fazem festa, bebem rum, dançam e, sobretudo, paqueram muito. Apesar de Cuba ser naturalmente pobre, já que é uma ilha que carece de minérios, petróleo e outros bens naturais, os serviços públicos são garantidos. O bloqueio estadunidense prejudica consideravelmente a frágil economia cubana. E a falta de liberdade política também gera queixas.

Há muitas prostitutas. Há pouca gente fumando charuto na rua. Há muitos praticantes da Santeria, muito semelhante ao Candomblé. Há muitos carrões antigos. Existem duas moedas: uma para o cubano – que na verdade é o que contempla produtos mais básicos – e a do turista, que o cubano também é livre para usar, mas contempla produtos mais caros. E o rum é mais barato que água.

Havana

Antes de me despedir, fiz uma pergunta aos meus amigos cubanos: e se abrir demais o país, com as grandes empresas, acionistas, e o governo dos Estados Unidos financiando campanhas e políticos locais, vocês não temem que Cuba se torne um país como qualquer outro da América Central: com violência, desigualdade social, precarização dos serviços públicos e com pobreza para a maioria da população? Eles não souberam me responder.


*Alex Hercog, 27 anos, baiano. Formado em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia. Coordenador de Comunicação da Associação Vida Brasil. Autor do blog www.366filmesdeaz.blogspot.com.br, possui pesquisas e publicações na área de audiovisual. Além do cinema, tem interesse em viagem, na política latino-americana e em projetos ligados à democratização da comunicação.

  • João Victor

    Muito bom tem uma reportagem falando mais abertamente sobre cuba e com alguem que foi lá. Fazem muito terroristo a direita do nosso país e não querem reconhecer os inúmeros benefícios de Cuba

  • Espero Ler mais reportagens sobre Cuba e estou gostando desse blog

  • Gabriela

    Olá Alex, somente para compartilhar com vc minha experiência. Fui para Cuba em maio deste ano e assim como vc, conheci dois cubanos em menos de 10 minutos em Havana. Eles nos levaram para conhecer uma Havana não turística, a experiência realmente foi incrível, tirando o incomodo de parecer q a qualuqer momento eles iriam querer algo em troca. Enfim, mas com a gente a polícia abordou sim. Perguntou de onde nos conheciamos e que estávamos fazendo junto com eles e pediu os documentos dos cubanos. Nada agressivo, me pareceu um controle mesmo.
    Até, Gabriela

  • João Lima

    As duas frases seguintes me chamaram a atenção: “…Saúde é pública e de qualidade”:; “…Para fazer o mercado do mês, com cerca de 5 dólares se compra o necessário…”. Nenhuma delas me pareceu crível. Mas, quem lá esteve algum dia poderá é claro dar a sua opinião e confirmar ou não a elas.