De pochete ou de mochila na Venezuela: Caracas e Santa Elena de Uiarém

O colaborador de Rede LatinAmérica Alex Hercog percorreu nove países do nosso continente em quatro meses e conta como foi sua experiência. O blog vai publicar ao longo de três dias seu relato. Clique aqui para ler o primeiro texto (Colômbia e Equador) e aqui para ler o segundo (Cuba).

Por Alex Hercog*

Foram poucos os dias na Venezuela. Ao contrário do que muita gente me alardeou, a situação por lá estava tranquila, pelo menos em Caracas. O cotidiano da cidade é semelhante ao de qualquer outra: comércio funcionando, pessoas nas ruas, bêbados no centro, bares à noite. O trânsito é tranquilo e o metrô facilita a vida da população – tem uma ampla malha e é extremamente barato. A passagem custa em torno de 7 centavos de real.

Pelas ruas, é fácil perceber a presença de Chávez. O ex-presidente está em cartazes, outdoors, grafites, pichações – “ Chávez vive. A Revolução continua”. Conversando com as pessoas, fica evidente a importância que ele teve para o país. Até mesmo os críticos, que atualmente se opõem ao governo, admitem que ele trouxe avanços positivos para a Venezuela, sobretudo nas transformações sociais. Queixam-se, no entanto, do excesso de populismo que Chávez evocava para governar de forma soberana.

Se, de um lado, até os adversários reconhecem os avanços proporcionados por Chávez, de outro, até os governistas se queixam do atual presidente Maduro. “Estamos no caminho certo, o problema é administrativo”, me conta um garçom. A economia e a repressão policial são os principais problemas de que o país vem sofrendo. Em uma das praças, uma manifestação discreta espalha cruzes no jardim, com fotos e nomes de manifestantes supostamente assassinados pelo governo durante as manifestações contra Maduro.

Paseo de los Próceres (Foto: Alex Hercog)

Paseo de los Próceres (Foto: Alex Hercog)

Já a economia é palco de um confronto entre governo e empresários. Como oposição, o empresariado tem provocado demissões, morosidade nos atendimentos e desabastecimento nas prateleiras, o que resulta em inflação e insatisfação dos consumidores. Para reagir, o governo tem adotado algumas medidas, como multas aos supermercados que não tiverem todos os seus caixas em operação ou que segurarem produtos em seus estoques. Apesar do clima econômico instável, o que pude perceber foi um ar de normalidade, com as pessoas comprando alimentos sem problemas.

Já o policiamento é bastante ostensivo. Foram algumas experiências tensas que passei com a polícia. Em uma, em Caracas, fui pedir informações para um policial e acabei tendo que responder um interrogatório: De onde você é? O que faz? Está legal? Documentos? Está indo para onde? Fazer o quê?

De Caracas, segui para Santa Elena de Uiarém, já na fronteira com o Brasil. Percebe-se a proximidade com nosso país não apenas por ter muitos comerciantes brasileiros, mas também pela grande quantidade de igrejas evangélicas, algo pouco comum nos países vizinhos. Nas mais de 24 horas de viagem, passei por estradas cujo breu da noite é iluminado por dezenas de poços de petróleo. Enfrentamos problemas com o ônibus e um brasileiro que vive na Venezuela há muitos anos, trabalhando com garimpo, me explicou que faltam peças de reposição para os veículos. Os empresários diminuíram as importações em retaliação às políticas econômicas de Maduro – “na época do ‘maluco’ (Chavez) não existia isso”, me diz o brasileiro. Ele também me contou do seu apartamento, em Caracas, que foi ocupado por sem tetos após ele passar alguns meses fora. Para retirar os novos moradores, a polícia pediu propina para matá-los. O brasileiro se recusou e buscou uma advogada, que disse que dificilmente ele ganharia a causa.

Nessa mesma viagem até Uiarém, foram diversas as vezes em que a polícia abordou o ônibus. E eu e uma dupla de haitianos éramos os mais interrogados. Em uma das paradas, tive que descer do ônibus e, após responder diversas perguntas, tive que admitir que “estava portando moeda internacional”. Fui levado para um quartinho apenas com o policial, que me fez tirar todos os meus pertences, incluindo cerca de 150 dólares. Tive a certeza que seria roubado, mas por fim fui liberado tranquilamente. “Teve sorte”, me disse o motorista.

O forte policiamento nas estradas se justifica pelo excesso de contrabando no país. Produtos essenciais, como combustível, remédios e alimentos são subsidiados pelo governo e têm o preço muito barato. Por isso, é cada vez mais comum a entrada de brasileiros, e principalmente colombianos, para contrabandear tais produtos. A fama dos policiais, no entanto, não é das melhores. Muito se escuta de corrupção e do conluio dos policiais com contrabandistas e garimpeiros.

Essa é a Venezuela de hoje. Vive política. O debate é feito em bares, nas esquinas, no metrô. O país vive um momento de profunda instabilidade. Com a popularidade e o “pulso” de Chávez, o país ficava de pé, mesmo atacado por empresários e setores midiáticos. Mas Maduro não tem a mesma força que o ex-presidente e tem tido problemas com a economia, o que gera uma imprevisibilidade sobre o futuro político e econômico do país. Os próximos anos serão cruciais para a Venezuela.

De pochete ou de mochila no Brasil

Após atravessar a fronteira venezuelana, finalmente voltei ao Brasil. A primeira cidade pela qual passei foi Pacaraima (Roraima). De lá, segui para Boa Vista, depois Manaus. Em seguida, fui de barco, rio adentro, e desembarquei em Santarém. Enfrentei uma péssima estrada da Transamazônica – também conhecida como “Transbabilônica” – até Marabá. Depois, Parauapebas e Belém. De lá, fui para São Luís, conheci os lençóis maranhenses e segui para Teresina. Da capital do Piauí, peguei o ônibus que me devolveu à Bahia. Após quatro meses viajando por terras latino-americanas, enfim voltei a Salvador – a melhor cidade da América do Sul. Comigo vai tudo azul. Vai tudo em paz.

Quem quiser, pode conferir os relatos da viagem no facebook: De pochete ou de mochila


*Alex Hercog, 27 anos, baiano. Formado em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia. Coordenador de Comunicação da Associação Vida Brasil. Autor do blog www.366filmesdeaz.blogspot.com.br, possui pesquisas e publicações na área de audiovisual. Além do cinema, tem interesse em viagem, na política latino-americana e em projetos ligados à democratização da comunicação.

  • Olá caro colega,

    Interessante sua viagem. Espero, aliás, que estejas indo muito bem.
    Ainda que seu relato tenha sido curto, sugiro que, ao contrário, o faço mais longamente.
    Eu já viajei o suficiente, por carona inclusive, para descobrir que algumas opiniões são desnecessárias ou falsas.
    Brasileiros, principalmente, tem uma visão bastante deturpada do que ocorreu e ocorre na Venezuela, não por acaso somos muitíssimo desinformados.
    Garimpeiros, inclusive, não são lá muito confiáveis. Se você buscar saber, eles foram um dos grandes problemas do Brasil e dos indígenas da região. E talvez você até tenha ouvido alguma coisa sobre os Makuxi da Raposa Serra do Sol… e se ouviu mesmo, certamente não tenha sido nada bom.

    Aliás, Santa Helene é uma cidade muito problemática. Qual cidade de fronteira não é? Qual policial na fronteira não é corrupto? Tive problemas na fronteira brasileira, na fronteira boliviana, na fronteira peruana, na fronteira paraguaia, na fronteira argentina. Realmente, não é surpresa nenhuma problemas em fronteiras e truculência e corrupção policial. É quase prática padrão.

    Interessante também o seu relato sobre o policiamento ostensivo. Todavia, não sei saberia nuançar quais são as características da política venezuela, se ela é segmentada (militar, civil, federal), se ela é unificada, se o exército tem parcela na polícia… essas coisas.

    No geral, nem sei porque comentei. Talvez porque as informações sobre a Venezuela são tão contraditórias na maioria das vezes, que as minúcias precisam ser evidenciadas.

    Abraços

  • João Lima

    O autor defendeu o governo e atacou o empresariado, atribuindo a este a carestia, que aquele combate apenas com medidas legais adequadas. Não é isto o que se noticia em geral e tais ações empresariais no fundo e se reais seriam suicidas, pois o mesmo estaria se privando de vendas e de lucros se agisse assim.