De pochete ou de mochila no Chile: Santiago, Valparaiso, Viña del Mar e San Pedro do Atacama

Por Alex Hercog*

Na minha passagem pelo Chile, o Mundial ainda estava em sua primeira fase. Mas, por lá, os chilenos já se sentiam campeões. Eliminar os ex-colonizadores espanhóis e garantir a classificação antecipada já valeu como um título. Se pudesse, a seleção colocaria uma estrela a mais no peito só por isso. Estilhaços de vidro espalhados pelo chão da Plaza Italia, na região central da capital Santiago, já mostravam que a festa havia sido intensa.

Contra a Holanda, o centro comercial parou para a aglomeração de milhares de torcedores que acompanharam o jogo pelo telão. Nem mesmo a derrota foi capaz de desanimar os chilenos que ainda estavam extremamente confiantes de que ganhariam do Brasil. Se isso ocorresse, seria o bicampeonato mundial em uma mesma Copa, para além da segunda estrela no peito. Como isso não ocorreu, o jeito foi se contentar com o Mundial em que “o Chile eliminou a Espanha”.

Santiago

As ruas de Santiago, inclusive a Plaza Italia, não foram ocupadas apenas por torcedores, mas também por manifestantes. Dois dias após a derrota para os holandeses, a praça virou palco de confronto entre policiais, estudantes e professores grevistas. Os 50 mil manifestantes (de acordo com os dirigentes da marcha), ou 9 mil (de acordo com a polícia), ou ainda 12 mil (de acordo com a imprensa) protestaram para exigir maior participação nas reformas educacionais promovidas pela presidente Michelle Bachelet. Na passeata, o confronto se deu entre a polícia e “encapuzados”, deixando vidraças e lixeiras quebradas, e algumas pessoas foram presas. Na televisão, a versão contou-se que a manifestação se iniciou pacífica, mas uma minoria iniciou a baderna e foi reprimida pela polícia.

A educação talvez seja a principal pauta na política chilena. Um professor de engenharia recém-formado e eleitor de Bachelet critica a inexistência de um Ensino Superior gratuito no país. De acordo com ele, as universidades públicas têm apenas 15% de seu financiamento estatal, de modo que o estudante precisa arcar com o restante, o que resulta em um custo de mais de 50 mil reais por cinco anos de curso. Numa cidade socialmente desigual como Santiago, isso gera um abismo ainda maior, uma vez que os estudantes de baixa renda são incapazes de pagar esses valores ou se formam com uma grande dívida a pagar.

Vina del Mar, Chile

Vina del Mar, Chile

Nos noticiários, os problemas e conflitos referentes à reforma educacional dividiam espaço com o Mundial. Na verdade, a pauta era quase exclusiva sobre a Copa. Em um dos programas, uma jovem repórter seminua cobria o evento no Brasil. Em outro, os âncoras discutiam sobre qual seria o significado de “Lepo Lepo”, chegando a uma óbvia conclusão. Agora que o torneio acabou, a sociedade pode voltar a debater seus principais problemas, enquanto se contenta com uma participação digna no Mundial.

Bolívia: Uyuni, Sucre, Cochabamba, La Paz e Copacabana

A Bolívia não participou da Copa, mas os bolivianos sim. A cada jogo, os bares e restaurantes reuniam diversos espectadores que, naturalmente escolhiam sua equipe para torcer. Aparentemente, ser latino-americano não era uma vantagem. Entre México e Holanda, a preferência era para os europeus. Igualmente, a torcida foi maior para os holandeses quando o confronto foi contra a Costa Rica. No entanto, havia um sul-americano que caiu nas gracas dos bolivianos: o Brasil. E, justiça seja feita, a Argentina também.

Não apenas os bolivianos desejavam uma final entre Brasil e Argentina, mas também a imprensa, que estampava em seus jornais a expectativa por essa final dos sonhos. A lesão de Neymar causou indignação. Na fila de um restaurante, quando a TV reprisou o lance que tirou o jogador da Copa, o coro de “óhh” foi unânime. Uma senhora, mais complacente, revelou a pena que sentiu por ver o “adorável” jogador se lesionar.

Mas os jogos do Mundial representavam só 90 minutos de pausa para uma cidade que parece não parar. La Paz funciona o tempo todo, desde o seu confuso trânsito até o seu comércio – com ambulantes, engraxates com brucutu no rosto, artistas de rua e cholas trabalhando por toda a noite. Em toda a cidade, muitas obras. E, em cada uma delas, uma placa que leva não apenas as informações públicas das reformas, mas também a fotografia do prefeito e do presidente Evo Morales.

Em 2014, ocorrem eleições presidenciais. A oposição parece um tanto desesperada e sem muito planejamento. Às vésperas da oficialização das candidaturas, muita indefinição sobre quem se lançaria candidato ou quais coligações se formariam. Nas ruas, a panfletagem dos oposicionistas já começou. Mas Evo parece muito mais tranquilo, talvez convencido de sua nova vitória, conforme apontam as pesquisas. Um jornal de oposição se refere a ele como “presidente vitalício”.

Na televisão, predominam as propagandas do governo, em sua maioria assinadas pelo Ministério das Comunicações, divulgando obras e programas implementados por Evo. Enquanto seus assessores trabalham para promover sua imagem, o presidente boliviano tem enfrentando algumas questões. Em Cochabamba, ele se reuniu com diversos segmentos dos movimentos sociais e alertou para a necessidade de se buscar formas para a superação do capitalismo. No entanto, sua principal crise é contra o Chile.

A disputa histórica para recuperar das mãos chilenas o acesso boliviano ao mar tem se intensificado com as cobranças de Evo. Enquanto a presidente chilena não se mostra disposta a chegar a um novo acordo, que devolva o acesso marítimo à Bolívia, Evo tem apelado até para os Estados Unidos. Recentemente, Michelle Bachelet se encontrou com Barack Obama, e Evo Morales pediu para que o presidente norte-americano ensinasse a chilena a como se reveem tratados. Ele se referia à revisão do tratado em que os EUA devolveram o canal do Panamá aos panamenhos, sugerindo que o mesmo deveria ser feito pelo Chile em relação à Bolívia.

A Copa acabou sem Brasil x Argentina e a crise com o Chile está longe de ter um final feliz. Resta agora aguardar a evolução da campanha presidencial, que promete esquentar, ainda que já se tenha o provável vencedor: Evo Morales. Ou, como sugere uma das pichações nos muros boliviano: “É Evo de NuEVO”.

Peru: Cusco, Lima, Trujillo, Chachapoyas, Pedro Ruiz, Moyombamba y San Ignacio

Os peruanos não sabem o que é participar de uma Copa há mais de 30 anos, mas isso não faz diminuir o interesse pelo evento. Estive no Peru já na reta final do Mundial. Na trilha para Águas Calientes (caminho de Machu Picchu), consegui conectar o rádio. O narrador anunciava o fim do primeiro tempo entre Brasil e Alemanha, tendo que repetir três vezes o placar para que os meus colegas de trilha acreditassem: 5×0 (até então). Não faltaram críticas à seleção por parte dos radialistas, ainda de que forma respeitosa.

Nos dias que se sucederam, a pergunta que me faziam quando descobriam que eu era brasileiro era sempre a mesma: “O que aconteceu?”. Em Lima, uma vendedora confidenciou que torceria para a derrota alemã na final, por ter ficado com muita “cólera” ao vê-los derrotar o Brasil por 7×1. No dia da decisão, bares lotados e pessoas paralisadas nas ruas espiando qualquer TV que estivesse ligada. A maioria torcendo para os argentinos – “são nossos vizinhos” era a principal justificativa.

Lima, Peru

Lima, Peru

Fim de jogo e os poucos alemães comemoravam, enquanto que os peruanos aplaudiam a festa dos germânicos num ato de respeito e reconhecimento. De volta ao normal, Lima continuou com sua rotina: trânsito caótico, motoristas sem tirar a mão da buzina, surfistas em um mar com poucas ondas e muito vai-e-vem nos centros comerciais.

Já as eleições municipais parecem ganhar mais destaque nos outdoors dos candidatos a prefeito do que nos papos de botequim ou na própria imprensa. Aliás, é missão difícil escolher um bom jornal para ler em Lima. Eles parecem disputar para ver quem tem menos conteúdo e qualidade. Manchetes sensacionalistas, mulheres seminuas na contracapa e factoides são o menu principal da maioria (ou quase todos) dos jornais. No rádio, um dos jornalistas também tece a mesma crítica, afirmando que os peruanos têm sido acostumados ao baixo nível de sua imprensa e, por isso, consomem qualquer coisa.

Mas, apesar disso, o Peru é, por si só, uma ótima notícia. Cusco, Machu Picchu, Chachapoyas e todas as riquezas preservadas em diversas cidades peruanas fazem do país um dos mais bonitos e historicamente ricos do continente sul-americano. Um país a ser contemplado, estudado, desbravado e, sobretudo, visitado!

Alex Hercog, 27 anos, baiano. Formado em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia. Coordenador de Comunicação da Associação Vida Brasil. Autor do blog www.366filmesdeaz.blogspot.com.br, possui pesquisas e publicações na área de audiovisual. Além do cinema, tem interesse em viagem, na política latino-americana e em projetos ligados à democratização da comunicação.

  • Curti muito toda a saga da viagem de Alex Hercog. Sem dúvidas, um malungo como dizia Chico Science. Digno das histórias de viaje por la sudamerica de Ernesto Guevara. Um menino do dendê entre cordilheiras, pacífico, histórias, encantos. Uma história que é tão poderosa como um documentário.