De pochete ou de mochila: percorrendo Equador e Colômbia

O colaborador de Rede LatinAmérica Alex Hercog percorreu nove países do nosso continente em quatro meses e conta como foi sua experiência. O blog vai publicar ao longo de quatros dias seu relato.

Por Alex Hercog*

Equador: Cuenca, Guayaquil, Puerto Lopez, Montañita, Los Frailes, Baños, Latacunga, Quilotoa, Quito e Tulcan

Na minha passagem pelo Equador, o Mundial já tinha acabado, os alemães já tinham curado a ressaca e Dunga era o treinador do Brasil. Em todo o canto, desde o Peru, me perguntavam por que Robinho, Kaká e Ronaldinho não foram convocados. No início, eu tentava justificar que a boa fase de Robinho passou, que Kaká esteve nos últimos anos lesionado e que Ronaldinho era uma má influência ao grupo. Por fim, passei a concordar: faltou levar jogadores mais experientes.

E o que muitos também pareciam concordar era sobre a avaliação do presidente Rafael Correa. “Um outro Equador”, definia um taxista na cidade de Tulcan. Para o motorista, a vida da população melhorou muito, o desemprego caiu e aumentaram os investimentos em educação. No entanto, segundo ele, nem todos apoiavam o presidente, sobretudo os mais ricos, que agora estavam sendo obrigados a pagar impostos que antes não pagavam. Além deles, grande parte da mídia também fazia oposição ao governo. “Mas agora eles não podem falar o que querem. Se fazem uma denúncia, são obrigados a provar”. Constrangido, eu tive que dizer que, no Brasil era diferente. Que, na ausência de uma lei, as empresas de comunicação eram livres para dizer e fazer o que queriam, sem assumir responsabilidades.

Foto: Alex Hercog

Foto: Alex Hercog

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Volta ao mundo (latino)

A Lei de Meios do Equador é recente e seus efeitos ainda são discretos. No entanto, o que parece funcionar é uma maior responsabilidade dos meios – que, como ressaltou o taxista, são obrigados a assumir o que noticiam, como por exemplo, apresentar provas das denúncias que fazem. Outro efeito prático é o maior respeito às vítimas de violência. Os “jornais de meio dia” já não podem exibir o rosto e o corpo ensanguentando dos assassinados; a exposição dos menores de idade é restrita; e em casos de tragédia, os familiares das vítimas têm que ser comunicados oficialmente antes de a imprensa divulgar os nomes dos mortos.

Para um funcionário do Ministério da Educação que vive em Quito, Correa tem pontos positivos e negativos. Ele destaca que o país avançou em diversos aspectos sociais e econômicos, mas diz que, pessoalmente, o presidente é muito grosseiro no trato com os funcionários. Ele também destaca o aumento de investimento na educação e a garantia de acesso a bolsas de estudo no exterior. “Um puto!”, define um taxista de Cuenca, furioso porque os prostíbulos da cidade estão sendo fechados por falta de recolhimento de impostos. A alta carga tributária também gera queixas entre alguns moradores da distante cidade de Zumba, na zona rural. Já para um jornalista de Guayaquil, Correa é o melhor presidente da história recente do Equador.

Do ponto de vista do turismo, o Equador é um país com ótimos atrativos. Tem praia, selva, vulcão, cachoeiras, muita natureza, pouca miséria e um povo muito parecido com o brasileiro. Além do transporte, que é baratíssimo, devido ao subsídio ao combustível, dado pelo governo. Definitivamente, um país que merece ser visitado e que tem passado por importantes avanços políticos.

Colômbia: Bogotá, Medellin, Turbo, Sapzurro e Cartagena

Na Colômbia, fui recebido com o slogan que adverte: “O perigo é você querer ficar”. O país vem se esforçando para apagar a imagem que o associa à violência provocada pelo conflito do narcotráfico. O fato é que, nas principais estradas colombianas, viaja-se tranquilamente e os índices de homicídios das metrópoles nem chegam perto dos que existem nas capitais brasileiras.

Amigos de Bogotá me contaram que hoje as FARC estão bastante enfraquecidas. De sua origem até os dias atuais, muitas transformações ocorreram. Segundo eles, as FARC surgiram como resistência dos camponeses de lugares distantes à exploração dos latifundiários que dominavam a região. O tráfico de drogas e, posteriormente, o sequestro de empresários foram as principais fontes para garantir a sustentabilidade dos grupos, que se estruturaram e adquiriram armas. No entanto, quanto mais poder e armamento, mais as FARC foram se desvirtuando de seus objetivos iniciais, que era justamente defender a população explorada. Por outro lado, o governo, em vez de oferecer melhores condições de vida para os trabalhadores do campo, resolveu entrar na guerra. Álvaro Uribe, que presidiu a Colômbia de 2002 até 2010, financiou a formação de milícias, dando dinheiro e armas para os grandes fazendeiros montarem seu próprio exército. O problema é que, com o passar dos anos, essas milícias passaram a agir de forma autônoma, ambicionando as riquezas dos fazendeiros e também as drogas das FARC. O resultado foi a grande violência que vinha de todos os lados: fazendeiros, FARC e milicianos, sob a ausência do Estado.

Foto: Alex Hercog

Foto: Alex Hercog

Hoje as FARC estão enfraquecidas, com menos dinheiro e apoio popular. O atual presidente, Santos, aparentemente não financia as milícias, e o Estado tem travado um diálogo com os guerrilheiros. Na minha passagem pela Colômbia, a sociedade acompanhava com esperança um acontecimento inédito: em Havana, líderes das FARC se reuniam com familiares de sequestrados para travar um diálogo de paz.

Essa pauta era trazida diariamente pelos noticiários, junto com os “25 anos da morte de Galan”. Galan foi um político e um dos principais opositores do traficante Pablo Escobar. No entanto, há 25 anos, quando participava de um comício, sofreu um atentado encomendado pelo traficante. Sua morte foi filmada e marcou a história da Colômbia. O vídeo do atentado pode ser visto aqui.

Portanto, o que mais se via nos noticiários colombianos era a cobertura dos “Diálogos de Paz” entre as FARC e suas vítimas e os “25 anos da morte de Galan”. Ou seja, a violência ainda é pauta no país, seja para relembrar seus fantasmas, seja para acenar com um futuro mais esperançoso. No entanto, a Colômbia me pareceu viver uma nova fase, em que Pablo Escobar e a guerra entre milicianos e as FARC parecem estar cada vez mais no passado, enquanto o presente tem trazido muito mais tranquilidade e paz.

*Alex Hercog, 27 anos, baiano. Formado em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia. Coordenador de Comunicação da Associação Vida Brasil. Autor do blog www.366filmesdeaz.blogspot.com.br, possui pesquisas e publicações na área de audiovisual. Além do cinema, tem interesse em viagem, na política latino-americana e em projetos ligados à democratização da comunicação.