Ditadura argentina: identidade do neto nº 118 é recuperada

As Avós da Praça de Maio anunciaram a verdadeira identidade de mais um neto sequestrado pela repressão durante a última ditadura civil-militar do país (1976-1983), o 118º a ser recuperado. Seu nome é Martín, 39 anos, e sua avó é Delia Giovanola de Califano, 88 anos, uma das doze fundadoras da associação.

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Foto: Abuelas Plaza de Mayo/Twitter

Os pais de Martín, Jorge Oscar Ogando e Stella Maris Montesano, foram sequestrados em 16 de outubro de 1976 na cidade de La Plata e ainda estão desaparecidos. Ela estava grávida de oito meses e teria escolhido este nome após a criança nascer, segundo testemunhas sobreviventes.

A descoberta de sua identidade começou entre 2006 e 2008, quando as Avós receberam três denúncias anônimas que diziam saber quem era o neto de Delia. Em março de 2015, Martín se aproximou das Avós por suspeitar ser filho de desaparecidos políticos. Como ele reside há 15 anos em outro país, a extração de sangue foi feita em maio através de uma representação diplomática. Sua amostra foi enviada para a Argentina e submetida ao Banco Nacional de Dados Genéticos. Em 5 de novembro, sua filiação verdadeira foi anunciada. Ele havia sido registrado como se fosse filho biológico de seus pais adotivos.

Segundo depoimento de sobreviventes, o casal esteve preso no centro de detenção clandestino “Pozo de Banfield”, e ali Martín nasceu, em 5 de dezembro de 1976. Estima-se que, ao todo, 309 pessoas estiveram presas ali, entre elas uruguaios, paraguaios e chilenos. Destas, estão desaparecidas 97 e cinco foram assassinadas Havia quatro mulheres que deram à luz. Depois, ela teria sido levada ao “Pozo de Quilmes”, um centro de detenção que funcionava também como maternidade clandestina e por onde passaram 251 presos políticos.

Entrevista coletiva concedida pelas Avós: ao centro, Estela de Carlotto e Delia (Foto: Abuelas Plaza de Mayo/Twitter)

Entrevista coletiva concedida pelas Avós: ao centro, Estela de Carlotto e Delia (Foto: Abuelas Plaza de Mayo/Twitter)

Depois do resultado do exame, Delia e Martín conversaram por telefone por mais de uma hora. “Ele me perguntou como eu era, o que fazia, como era minha família. Eu me assustei: ele também queria saber de mim”, contou.

“Finalmente é encontrar o que achávamos que nunca ia aparecer. Nossa constância, persistência, obstinação, nosso amor de nunca cruzar os braços, premiam”, disse Estela de Carlotto, presidenta das Avós na entrevista coletiva concedida na sede da associação.

Em agosto de 2011, suicidou-se a irmã de Martín, Virginia Ogando, criada por Delia desde o desaparecimento de seus pais. Virginia tinha três anos quando seus pais foram sequestrados e foi resgatada em sua casa por uma vizinha quando a repressão os levou.

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