Esquerda quer chegar de surpresa ao segundo turno no Peru

Os processos eleitorais no Peru estão certamente entre as mais imprevisíveis do mundo, devido à facilidade com a que as tendências mudam, às vezes bruscamente, derrubando favoritos ou promovendo azarões em coisa de semanas, ou até em dias.

Dizer isso este ano pode parecer um equívoco, já que o próximo capítulo dessa história – o primeiro turno, que acontecerá neste domingo (10/4) – será o desfecho de uma corrida que até agora mostrou poucas novidades, e um favoritismo até agora intocado de Keiko Fujimori, ela mesma, a filha de Alberto Fujimori – o ditador civil, que hoje se encontra preso por crimes de violação aos direitos humanos.

Contudo, outra característica marcante da política peruana, durante muitos anos, foi a ausência de uma alternativa de esquerda com chances reais de vencer a disputa. Essa situação mudou na última década, a partir do surgimento de Ollanta Humala. Porém, a baixíssima popularidade de sua gestão parecia devolver o campo progressista a um espaço irrelevante no panorama político nacional.

A jovem congressista Verónika Mendoza era carta fora do baralho há 40 dias atrás, e agora aparece empatada tecnicamente no segundo lugar, com boas chances de avançar aos próximo turno. (foto: Mildred Guerra/Radio Exitosa)

A jovem congressista Verónika Mendoza era carta fora do baralho há 40 dias atrás, e agora aparece empatada tecnicamente no segundo lugar, com boas chances de avançar aos próximo turno. (foto: Mildred Guerra/Radio Exitosa)

Por isso, o crescimento da campanha da Frente Ampla nestas semanas decisivas foi uma surpresa interessante. O nome dessa surpresa é Verónika Mendoza, uma jovem congressista de 35 anos que surgiu como figura política no sul do país e se projetou nacionalmente como referente de uma esquerda que se declarou traída pelo atual presidente, cujo governo não foi nem reformista nem distribuidor de renda, como se esperava.

Verónika Mendoza passou grande parte da campanha como uma coadjuvante regional – com muitos votos no sul, sobretudo na região de Cuzco, de onde é proveniente, mas quase nada no resto do país – mas aos poucos foi se tornando conhecida no resto do país. Sua entrada na disputa por uma vaga no segundo turno ocorreu repentinamente em março, quando saltou da média de 4% entre novembro e fevereiro direto para a casa dos dois dígitos. Até então, só a favorita Keiko Fujimori e o neoliberal Pedro Pablo Kuczynski (vulgo PPK) chegaram a esse patamar.

Na última pesquisa realizada pelo instituto Ipsos, na última semana de março, Mendoza já aparecia em empate técnico com PPK – 15% para ela, contra 16% do economista –, tornando essa a grande disputa deste primeiro turno, para saber quem irá ao segundo turno contra Keiko Fujimori – 33%, segundo a mesma medição. O resultado também mostrou que a candidatura de Mendoza se impôs definitivamente na região sul do Peru, superando a de Keiko. Ela também consegue equilibrar com a candidata conservadora nos extratos socioeconômicos mais baixos, classes D e E, e claro, superar PPK nesses setores. Seu ponto fraco, porém, é que sua campanha ainda não deslanchou em Lima, a capital e principal colégio eleitoral do país.

O primeiro desafio de Mendoza será o óbvio: obter a vaga no segundo turno, algo que parece uma grande incógnita, já que quase não há diferenças entre a sua candidatura e a de PPK segundo as pesquisas, fazendo com que esta última semana de campanha seja decisiva. Alguns analistas peruanos não descartam uma surpresa no domingo, um voto silencioso em favor do ex-presidente Alan García, de centro-direita. Os números, porém, mostram um García distante, incapaz de superar os 7% durante toda a campanha.

Se concretizar a façanha de alcançar o desempate eleitoral, Verónika Mendoza terá um duelo cara a cara com Keiko Fujimori, com ambas disputando um lugar na história: ser a primeira mulher a governar o Peru.

Com a ascensão de Mendoza, o neoliberal Pedro Pablo Kuczynski (PPK), passou a ver o cenário rumo ao segundo turno mais turvo, mas ele ainda é o segundo colocado nas pesquisas, ambora empatado tecnicamente. (foto: Peru21)

Com a ascensão de Mendoza, o neoliberal Pedro Pablo Kuczynski (PPK), passou a ver o cenário rumo ao segundo turno mais turvo, mas ele ainda é o segundo colocado nas pesquisas, embora empatado tecnicamente com a candidata do campo progressista. (foto: Peru21)

Também teria que enfrentar maior oposição das forças de direita reunidas – apesar de ser um firme crítico da herdeira do clã Fujimori, o neoliberal clássico PPK aceitaria muito mais facilmente uma aliança com o conservadorismo de direita que com a esquerda reformista proposta por Mendoza – e uma campanha mais agressiva contra si, sem os ataques que não existiam quando ela estava relegada ao quinto lugar, e que começou a sentir assim que pulou para o terceiro.

A campanha do segundo turno no Peru é bem longa. Serão dois meses até a primeira semana de junho, o que dá, tanto a Mendoza quanto a PPK, a segurança de que mesmo uma vantagem grande em favor de Keiko no primeiro turno, que provavelmente será confimada nas urnas neste domingo, pode ser revertida posteriormente. Porém, analisando os possíveis cenários para o desempate eleitoral, fica claro que a candidata da esquerda é a que tem mais elementos capazes de se desmarcar da até agora candidata favorita.

As críticas até agora passam pelo fato de que ela e sua Frente Ampla chegaram a apoiar o atual presidente Ollanta Humala, o qual ninguém se atreve a defender. Mas têm convencido pouco, já que ambos romperam com o governo logo no primeiro ano, justamente por ele não ter feito as reformas nem as políticas redistributivas que a esquerda volta a propor agora.

É evidente que, num hipotético segundo turno, as críticas à esquerda como um todo seria reforçada, apoiada no velho discurso de estigmatização, usado com muito sucesso pelo pai de Keiko nos Anos 90 – acoplado a um discurso antiterrorista, com alusões aos já desarticulados grupos Sendero Luminoso e Tupac Amarú –, e que PPK já vem utilizando nessa reta final, visando frear o avanço de Mendoza.

Susana Higuchi

Keiko Fujimori, abraçada a Susana Higuchi, durante a campanha de 2011. Neste ano, a candidata afirmou que a mãe a “apoia discretamente”, embora não tenha feito maior gesto de forma pública. (foto: Peru21)

Uma disputa entre mulheres poderia favorecer Mendoza justamente pelo voto feminista, já que Keiko teria aí dois pontos fracos, fruto de seu sobrenome e sua própria escolha. Entre as diversas políticas criminosas realizadas por Alberto Fujimori durante seu governo, está a de esterilização forçada de mulheres pobres.

Porém, o fato mais polêmico foi a acusação de Susana Higuchi, a mãe de Keiko, que afirmou ter sido torturada e mantida como refém pelo marido, episódio ocorrido na primeira metade dos Anos 90. Na ocasião, uma ainda jovem Keiko se colocou em favor do pai, e mais que isso, assumiu o “cargo” de primeira-dama do país após o divórcio entre eles.

Ambos os episódios já haviam frustrado sua tentativa de capitalizar o voto feminino em 2011, no segundo turno contra Humala, apesar de Keiko ter esboçado uma reconciliação com a mãe, o que parece não ter convencido a muitos.

Assim sendo, neste domingo, o Peru decidirá que quer uma decisão eleitoral entre gêneros diferentes, mas sem grandes variantes programáticas, como seria a disputa entre Keiko Fujimori e Pedro Pablo Kuczynski – que garantiria uma segunda vitória eleitoral consecutiva para uma direita que tenta recuperar espaço no continente -, ou um confronto entre duas jovens mulheres, e entre elas muitas diferenças em termos de conteúdo e de visão política