Evo Morales e o capitalismo para todos na Bolívia

Este domingo é dia de eleições na Bolívia. Evo Morales tentará sua segunda reeleição. Seu favoritismo é tão grande que as pesquisas mostram que ele poderia superar sua votação recorde de 2009, quando obteve 64% dos votos – a sondagem do Instituto Tal Cual, divulgada no dia 5 de outubro, apontou que 57% votariam por Evo, enquanto o principal opositor, o empresário de direita Samuel Doria Medina, teria somente 18%.

As vozes conservadoras perderão tempo em acusar o líder indígena de “ditador bolivariano comunista”, apesar de que somente um desses adjetivos é verdadeiro.

Evo Morales levou a Bolívia a fazer parte da ALBA, a Aliança Bolivariana Para os Povos da América, criada por Hugo Chávez. Portanto, o boliviano é bolivariano mesmo.

Evo Morales manda recado aos que acham que ele é o bicho-papão vermelho do continente.

Evo Morales manda recado aos que acham que ele é o bicho-papão vermelho do continente.

Dizer que ele é um ditador é mera retórica baseada num único, raso e preconceituoso argumento: o de que ele está se mantendo no poder por mais de uma década e que não haverá alternância. Num continente onde são comuns os casos históricos de líderes que se eternizaram no poder pela via totalitária – podemos citar algumas ditaduras no Brasil, Chile, Peru, Paraguai, entre outros tantos países que tiveram uma ou mais décadas de duração –, não deixa de ser um contraste que um mandatário alcance essa façanha pela via democrática, vencendo eleições, e com cada vez mais votos. E se a falta de alternância, mesmo que ela seja decidida pelo voto, fosse mesmo um problema, as pessoas teriam a mesma opinião da Alemanha, onde Angela Merkel consegui, no ano passado, o mesmo terceiro mandato que Evo tenta conquistar agora. Antes dela, Helmut Kohl governou por 16 anos, entre 1982 e 1998 – começou governando a Alemanha Ocidental e terminou na unificada – sem nunca ter sido chamado de ditador. Não existem grandes diferenças entre os dois casos, e a mais marcante delas é o fato de que loiros alemães e um índio boliviano quase nunca são tratados igualitariamente.

Mas pasmem, o mais falso dos mitos acima normalmente atribuídos a Evo Morales é o de “comunista”. Aliás, nenhum dos países chamados bolivarianos poderia ser chamado de comunista – incluindo Cuba, que já não seria um país comunista, segundo muitas análises acadêmicas mais rigorosas sobre o termo, mas isso podemos deixar para abordar num artigo futuro.

Evo Morales também está bastante distante desse conceito, E também do conceito de chavista, embora seja normal que seja vinculado a Hugo Chávez, já que os dois mantiveram uma forte amizade, além da sintonia política e ideológica. Porém, analisando mais friamente os resultados econômicos da Bolívia, a melhor comparação seria o Brasil de Lula – e ainda assim, os números são favoráveis a Evo.

A comparação com o lulismo é adequada porque o processo boliviano, assim como o brasileiro, foi basicamente uma reforma do sistema capitalista, visando levar os benefícios a mais pessoas, os tradicionais excluídos. No caso da Bolívia, a grande maioria indígena do país passou a ter um acesso um pouco melhor aos serviços públicos – e ainda assim falta muito por avançar, em todo o caso –, e a receber, em forma de ajuda financeira estatal, parte da riqueza que cresceu no país a partir da política de nacionalizações no setor energético, especialmente o gás natural.

Os programas de redistribuição de renda de Morales diminuíram a extrema pobreza no país, que era superior aos 40% em 2005, quando ele assumiu, e atualmente começa a baixar dos 20%. Mesmo que isso não signifique um cenário de plena equidade social, é um sintoma evidente de que a situação econômica melhorou, e que os bolivianos de baixa renda estão entre os mais favorecidos. Ademais, um forte investimento em infraestrutura, junto com algumas iniciativas de modernização e diversificação da indústria, levaram a Bolívia a índices de crescimento nunca observados em sua história, e que a posicionam entre os países que mais crescem no continente. Apresenta uma média de 5,2% de aumento na taxa de crescimento anual do país durante o seu governo, e superando os 7% nos trimestres de melhores resultados, com mercado de trabalho aquecido e uma taxa de desocupação abaixo dos 4% – a mais baixa da América do Sul – e inflação controlada em 5,5% ao ano.

Evo se inspirou na fórmula econômica de Lula, embora seu coração estivesse com Chávez.

Evo se inspirou na fórmula econômica de Lula, embora seu coração estivesse com Chávez.

São só alguns índices que explicam o sucesso do governo de Evo Morales, e que mais que balançar o sistema capitalista, o reforçou e aumentou o número de indivíduos economicamente ativos. Embora tenha sim balançado os conceitos neoliberais, que levaram o país a seguidas crises nas décadas anteriores à chegada de Evo ao poder. Quando as políticas econômicas do país eram pautadas pelas privatizações e recorte dos gastos sociais, o resultado foi inflação descontrolada, demissões em massa e uma crise que rapidamente se traduziu em instabilidade política – foram sete presidentes diferentes em pouco mais de 15 anos.

Também nas crises de Evo, se pode analisar o que tem sido o seu governo. A revolta de 2008 na chamada Meia Lua foi contornada com a ajuda política da Unasul. Depois disso, bonança econômica mudou os humores, e alguns dos departamentos que se revoltaram hoje são redutos políticos evistas – em Pando, região onde os enfrentamentos daquele ano foram mais violentos, Evo deve conseguir pelo menos 55% dos votos, segundo as pesquisas mais recentes. A direita boliviana não conseguirá uma votação tão expressiva nem mesmo em Santa Cruz, seu último reduto importante, e luta nesses últimos dias de campanha contra a possibilidade da pior derrota eleitoral de sua história.

Ao mesmo tempo, e tal qual aconteceu com os governos petistas no Brasil, houve um leve porém sentido distanciamento de Evo com os movimentos sociais, especialmente o movimento indígena. Não é suficiente para falar num rompimento, tanto que sua provável alta votação neste domingo deverá vir majoritariamente desse setor social. Por enquanto são apenas os primeiros sinais de desgaste, demonstrados no fato de que este ano, pela primeira vez, um dos seus adversários também tem raízes indígenas o candidato do Partido Verde, Fernando Vargas, que liderou uma onda de protestos em 2013, contra os efeitos da construção da Rodovia Bioceânica em algumas zonas da Amazônia Boliviana – os resultados eleitorais de Vargas darão uma ideia sobre o grau de distanciamento do presidente com essa parte do movimento.

Essa é a Bolívia que vai às urnas, da qual se espera poucas surpresas. A maior surpresa, aliás, é perceber que o país não é tão marxista e bolivariano na prática quanto o discurso de Morales prega na teoria, embora isso não vá mudar a opinião de muitos dos que vociferam contra ele, sem nunca ter adentrado em sua realidade.

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  • EDSON TADEU

    eu so favoravel que um presidente governador seja eleito quantas vezes ele quizer afinal nao dizem que o voto emana do povo para o póvo. ou o poder emana do povo para o povo, seja la como for se um candidato se reelefe por 2 4 ou 5 vezes o faz porque é da VONTADE DO POVO ENTAO QUE SE RESPEITE A VONTADE DO POVO – Olha a tirania em Minas com todo o aparato midiatico, politico, desembargador e ate justiça do lado do governador atual e com apoio de Aecio o povo disse NAO A ELES, disse nao aos corruptos, entao o PÓVO É QUEM DECIDE QUEM VAI GOVERNAR E POR QUANTO TEMPO DEVE PERMANECER NO PODER. Nao tem que existir lei nenhum dizendo que so se pode candidatar 1 ou 2 vezes. isso tem que ser aberto como na Alemanha e em outros países e como diz o texto acima ninguem é chamado de ditador.Alias esse negocio de chamar governantes de esquerda ou contrarios aos EUA é coisa desses americanos que querem escravizar o mundo. O Sujeito é um bom governante mais nao faz o jogo dos EUA é rotulado de DITADOR TERRORISTA, e cai na lista negra onde será cassado por todos os meios.

  • Sonia

    Pior cego e aquele que não quer enxergar , não sei de que pais estão falando só sei que não é da Bolívia , vcs deveriam ir até lá para ver pessoalmente, aliás verifiquem a quantidade de Bolivianos que pediram asilo político estes últimos anos, a folha publicou hoje que todos os índios que não votarem pelo Evo serão chicoteados .

    • Helenita

      Sonia, quer dizer que a folha de são paulo falou, está falado, ela não inventa e nem mente, jamais, não é?

    • regina lima

      Então foi na folha que vc foi buscar subsídios para dizer isso? porque não foi na Veja, na rede Globo também? Se vc não ler imprensa brasileira isenta, nunca vai ter noticias isentadas!! infelizmente existe em nosso país a ditadura da imprensa que é a pior!!! Carissima, se o povo da Bolívia não estiver satisfeito com um governo que esta fazendo o país crescer, não seio que mais o poderá querer?

    • maria meneses

      Sonia que acredita no você diz, acredita em qualquer coisa. Para começar o voto é secreto. E você quem será.?

    • Nestor

      Na Folha? Ah, um jornal muito confiavel… chicoteados, sometidos a esclavidão, seus filhos enviados para um campo de reeducação e suas mulheres condenadas à prostituição. A Folha não falou isso também?

  • humberto mello castilhos

    Uma dúvida e não uma crítica: por quê tantos Bolivianos (famílias) vêm pro Brasil e acabam se submetendo a trabalho escravo? Volta e meia a Polícia Federal e MPT desbaratam fabricas de roupa clandestina com mulheres, homens e crianças trabalhando horas e horas sem qualquer direito. Sendo Evo um gestor tão democrático que trabalha a inclusão de seu povo, porque tem tantos imigrantes ilegais no Brasil. E mesmo os Legais, o que estão fazendo aqui?

    • Thiago

      Conheço toda a Bolívia. O motivo é simples. É o mesmo motivo que leva brasileiros a item tentar viver nos EUA e Europa aceitando sub- empregos.
      A Bolívia melhorou muito mas ainda é um país muito mais pobre que o nosso. A situação no interior e muito complicada, falta água e saneamento. Não se resolve 500 anos de abandono com em 10. Mas estão avançando.

  • nação paulista

    Na Bolívia tà tão bom que eles estão vindoem massa para SP.

    • Gabriel Braga

      Vc não leu o texto e se leu não entendeu.

      Em nenhum momento o autor defende a idéia de que a Bolívia virou o paraíso na terra.Tanto é que o próprio texto menciona que a pobreza extrema ainda atinge cerca de 20% da população.

  • Slim

    muito bom artigo

  • João

    Há uma grande diferença mental e cultural entre um alemão e um boliviano médios e esta permite verificar, que mandatos prolongados no tempo nos respectivos países, tem razões bem diferentes. A Bolívia é um país sul-americano, mediterrâneo, de limitado PIB, com grande presença de indígenas em sua população e cujos Executivos sempre se sobressaem em relação aos demais poderes estatais (legislativo e judiciário), colocando-se o seu presidente acima de todas as demais autoridades e até acima das leis. Não é o caso da Alemanha, hoje unificada, que livrou-se em definitivo do nazismo, e cujas eleições são realmente democráticas e livres, tendo uma avançada cultura e um forte respeito pelas leis. Sobre ser Morales comunista ou não, este mesmo em reunião internacional na ONU no passado proclamou-se “comunista”, tal como noticiado na mídia boliviana. A relação entre Evo e Cháves existiu e foi é claro interesseira e paternalista, enquanto o segundo viveu, pois o primeiro dependia dele em tudo(econômica e politicamente). Com a morte do bolivariano tudo cessou, pois Morales é profundamente interesseiro, e nada podendo obter da hoje combalida Venezuela a abandonou. Também Evo e Lula agiram de maneiras diferentes em seus países, pois o primeiro espargiu algumas migalhas estatais para o povo pobre, enquanto Lula realmente criou programas importantes na área educacional e social. Basta ver ai o número e os valores dos mesmos em comparativos. Sobre o crescimento da Bolívia, ao que se diz, as suas taxas anuais são boas e constantes, mas o atraso econômico, político e social do país é tão grande, que as mesmas terão que se prolongarem por décadas para solucionarem a questão. Note-se, que a economia lá cresce, devido em parte ao contrabando em geral e ao tráfico de cocaína, que carreiam dólares aos seus operadores, depois aplicados na economia, inclusive para “lava-los”, pois trata-se de “dinero sucio”. Pior ainda, parte dos recursos estatais são aplicados em projetos caros e desnecessários, como o satélite recentemente adquirido e um teleférico para transporte coletivo intermunicipal. E as empresas estatais recentemente criadas pelo governo Morales no geral não são auto-sustentáveis (fábricas de papelão, lácteos, etc.), dependendo de ajuda governamental para se manterem. E para finalizar, Evo e as etnias indígenas, se entendem, na medida que estas recebam ou não vantagens do governo; no geral, o presidente se entende bem com aimarás e quéchuas, pois os favorece, dado que constituem a maior parte da população indígena nacional; já os demais, que são em grande número de tribos, mas com poucos elementos humanos, são esquecidos e menosprezados pelo suposto “governo indígena” (daí esta candidatura de Vargas). Enfim, o Estado Plurinacional da Bolívia (nome dado ao país pelo seu atual governo) parece ser um sucesso, mas não é, e isto aparecerá com o tempo.

    • Bruno Dias

      Quer dizer que alemães são melhores que bolivianos? Gente, que absurdo!!

      • João

        Olha, com certeza lá se conseguiu faz tempo o “viver bien”, que Morales apregoa na Bolívia, mas lá só ele e uns poucos o tem.

  • Hugo Teixeira

    Alguns dos defensores desse modelo deveria tentar se mudar para lá… Uma política que permite a passagem de drogas para o nosso país, que levou boa parte de nosso dinheiro no gasoduto, enfim… E ainda tem gente que acredita que é “capitalismo para todos”, essa “bigodagem” descarada desse senhor… A América Latina está completamente a deriva com essa companheirada corrupta no poder.

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