Filha do assassino de Che Guevara se torna primeira mulher general da Bolívia

Quando recebeu o bastão de mando das mãos do presidente Evo Morales, no dia 9 de março passado, Gina Reque Terán entrou para a história. Acabava de se tornar a primeira mulher a alcançar o posto de general do Exército da Bolívia.

Gina recebe oficialmente o título de general do Exército, em cerimônia comandada por Evo Morales (Foto; Ministério das Comunicações da Bolívia)

Gina Reque Terán recebe oficialmente o título de general do Exército, em cerimônia comandada por Evo Morales (Foto; Ministério das Comunicações da Bolívia)

Num continente onde a participação das mulheres nas Forças Armadas é de apenas 4% – ainda que existam exceções, como o Uruguai, onde as mulheres são 25% do contingente militar –, e são menos ainda as que alcançam altos cargos hierárquicos, o caso da general boliviana é marcante.

Mais marcante ainda é o peso que o sobrenome de Gina tem no Exército boliviano. Seu pai e seu avô também foram oficiais e participaram juntos de um dos capítulos mais importantes da história da América Latina. Vilões para alguns, heróis para outros, os Reque Terán foram os responsáveis pela captura e assassinato do médico e guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara.

Em 1966, depois de um ano lutando no Congo, Che decidiu voltar à América do Sul, e iniciar uma campanha guerrilheira visando a unificação dos países latinos. Após instalar uma base no sul da Bolívia, ele arquitetou um plano que consistia em conquistar o país altiplânico como primeiro objetivo, para logo invadir sua Argentina natal.

O plano durou pouco mais de um ano, até fracassar definitivamente na aldeia de La Higuera, departamento de Santa Cruz, onde o guerrilheiro argentino foi capturado pelas tropas do comandante Luis Reque Terán. Dias depois, a execução do prisioneiro foi encarregada ao sargento Mario Reque Terán, filho do comandante Luis e pai de Gina, futura primeira mulher general do país.

De quepe militar, Mario Reque Terán observa o cadáver de Che Guevara, horas depois de que ele mesmo acabasse com a vida do guerrilheiro.

De quepe militar, Mario Reque Terán observa o cadáver de Che Guevara, horas depois de que ele mesmo acabasse com a vida do guerrilheiro.

“Quando o olhei e percebi que ele me olhou, senti tontura. O Che parecia um homem grande, muito grande, mesmo estando algemado e baleado, me olhava de um jeito ameaçador”, contou Mario em entrevista para uma revista espanhola em 1995. A lenda conta que, em suas últimas palavras, Che Guevara teria dito: “acalme-se, homem! Você vai matar um homem”.

Em 2007, Mario Reque Terán foi tratado de um grave problema na vista por uma equipe cubana trazida através de um convênio com a ELAM (Escola Latino Americana de Medicina, idealizada por Che Guevara para ser o modelo de formação de profissionais de saúde pública no continente). Os médicos cubano não negaram atenção ao ex-militar que matou o patrono de sua universidade, e lhe devolveram a visão.

Para Gina Reque Terán, “a história da família é muito rica, mas meu orgulho maior é o de incentivar outras mulheres que ingressam à carreira de oficial militar, para que acreditem que podemos avançar muito mais no futuro”. Segundo a Rede de Segurança e Defesa da América Latina (Resdal), Gina é a primeira mulher general do continente a liderar uma tropa de combate e a receber formação acadêmica completa.