Informe estadunidense introduz a Odebrecht nas eleições do Equador

A onda de retomada do poder por parte da direita na América Latina terá um difícil desafio neste começo de 2017: vencer a hegemonia da Aliança PAIS no Equador, uma das forças de esquerda mais bem consolidadas no continente.

Jorge Glas e Lenín Moreno, os candidatos governistas para substituir Rafael Correa nas eleições de fevereiro.

Jorge Glas e Lenín Moreno, os candidatos governistas para substituir Rafael Correa nas eleições de fevereiro.

Terá a seu favor o fato da esquerda também encarar o seu próprio e bastante duro desafio, que é o mesmo enfrentado pelo PT em 2010: vencer sem Rafael Correa, que liderou as vitórias eleitorais de 2006, 2009 e 2013.

Para o pleito do dia 19 de fevereiro (data do primeiro turno), a coalizão governista será encabeçada pelos dois históricos companheiros de Correa em seus mandatos: Lenín Moreno, que lidera a chapa, foi vice-presidente nos dois primeiros mandatos, entre 2006 e 2013, e seu candidato a vice é o atual vice-presidente, Jorge Glas.

Apesar das turbulências dos últimos anos, a imagem de Correa diante do eleitorado ainda é positiva, e vem garantindo o favoritismo da dupla Moreno-Glas, que apareceu na liderança de todas as pesquisas durante 2016. Mesmo as pequenas quedas de percentual observadas no final do ano, que coincidiram com os lançamentos das três principais candidaturas de oposição, tirou dos candidatos da Aliança PAIS a vantagem de mais de dez pontos, necessária para uma vitória já no primeiro turno – o sistema eleitoral prevê decisão sem desempate em caso de um candidato ter mais da metade dos votos válidos ou se superar os 40% e impor uma vantagem de mais de 10% sobre o segundo colocado.

A transposição dos rios Chone e Portoviejo, uma das obras da Odebrecht realizadas no Equador recentemente.

A transposição dos rios Chone e Portoviejo, uma das obras da Odebrecht realizadas no Equador recentemente.

Para mudar esse panorama, a direita tem como principal carta na manga um sobrenome bastante comum no noticiário político brasileiro, especialmente na cobertura a respeito de escândalos de corrupção: Odebrecht.

A empresa brasileira realizou várias obras em diversos países latinoamericanos nas últimas décadas, e o Equador não foi uma exceção. A partir de uma série de informes do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que inclui a nação andina entre dezenas de outros países que foram destinos de propinas pagadas pela construtora brasileira para obter contratos, a imprensa local iniciou uma forte cobertura sobre as supostas ligações entre a empresa e personagens do governo de Correa.

Omissões jornalísticas

Acontece que o informe estadunidense, pelo menos no caso do Equador, não entrar em maiores detalhes sobre quais obras tiveram pagamento de propina e que pessoas estariam ligadas aos supostos esquemas. Para viabilizar o relato do vínculo da Odebrecht com o governo nacional, os jornais anti Correa cometeram duas omissões importantes.

Mauricio Rodas e Guillermo Lasso, dois líderes da direita equatoriana que asseguram não ter envolvimento com a acusação do Departamento de Justiça estadunidense.

Mauricio Rodas e Guillermo Lasso, dois líderes da direita equatoriana que asseguram não ter envolvimento com a acusação do Departamento de Justiça estadunidense.

A primeira omissão é sobre o fato de que o governo de Correa tem sido há tempos um dos mais duros com a Odebrecht no continente, chegando inclusive a expulsar a empresa do país, em 2008, após questionar os errores no projeto de construção de uma usina hidroelétrica que não foram solucionados pela empresa – na ocasião, alguns políticos brasileiros chegaram a pedir intervenção do governo brasileiro contra o Equador, ao que o então chanceler Celso Amorim respondeu que se tratava de um problema da empresa Odebrecht, e não do governo brasileiro. A construtora só voltou a atuar no Equador em 2011, após apresentar uma carta de compromisso na qual garantia o respeito às leis vigentes no país para obter novos contratos.

A outra omissão é que a mais importante das três obras que a Odebrecht realiza atualmente no Equador é a expansão do metrô de Quito, projeto impulsado por um dos líderes da direita no país, o prefeito Mauricio Rodas. Após a divulgação dos informes estadunidenses, Rodas e sua coalizão (SUMA), publicaram rapidamente um comunicado no qual garantem que os documentos estadunidenses que comprovam que a sua obra não forma parte dos esquemas de propina descobertos no país. O desmentido de Rodas teve ampla e rápida divulgação na imprensa local, surgindo logo após a revelação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O candidato do partido de Rodas nas eleições presidenciais, o empresário Guillermo Lasso, é o opositor que aparece melhor posicionado nas pesquisas.

Correa acusa os Estados Unidos de querer interferir nas eleições em seu país.

Correa acusa os Estados Unidos de querer interferir nas eleições em seu país.

Resposta de Correa

Por sua parte, o governo respondeu difundindo seu próprio informe, no qual apresenta detalhes das cinco obras realizadas pela Odebrecht no país depois do retorno da empresa, em 2011, mostrando também os valores gastos pelo Estado, entre outros dados. Também alegou que o informe estadunidense se basearia somente em depoimentos do empresário Marcelo Odebrecht e de outros executivos da empresa, e não em provas documentais.

O presidente Rafael Correa, em seu programa semanal Enlace Ciudadano, acusou os Estados Unidos de tentar intervir nas eleições do seu país: “não é primeira vez que o Departamento de Justiça faz estas investigações, e não em função da justiça em si, e sim para favorecer os interesses geopolíticos de Washington, e sabemos para onde apontam esses tiros, (dizem que) `foi o Correa´ ou `foi o vice-presidente Glas´, e até que demonstremos que é mentira já se passou o 19 de fevereiro (dia do primeiro turno), e é isso que buscam, influir nas eleições”. No mesmo programa, Correa lembrou de quando ele expulsou a empresa do país, há nove anos atrás, e afirmou que “nenhum país jogou tão duro com essa construtora quanto o nosso”.

Figuras ligadas ao governo também citaram os projetos de impulso à industrialização que o Equador assinou recentemente com a China como a razão pela qual os Estados Unidos teria interesse em intervir no panorama eleitoral do país. Segundo Jorge Glas, atual vice-presidente e candidato para revalidar seu posto, “parece que eles não estão confortáveis sabendo que alguém pode ameaçar a hegemonia deles no continente”. O acordo com os chineses prevê um forte investimento da China para a modernização da indústria equatoriana de produtos tecnológicos com valor agregado, visando que tenham o mercado chinês como prioridade.

A democrata-cristã Cynthia Viteri é uma das opositoras que pretende chegar ao segundo turno contra o correísmo.

A democrata-cristã Cynthia Viteri é uma das opositoras que pretende chegar ao segundo turno contra o correísmo.

Panorama eleitoral

As pesquisas de opinião mais recentes colocam o candidato governista Lenín Moreno como favorito para vencer a disputa do dia 19 de fevereiro, e com chances de ser eleito já nesse primeiro turno. O socialista flutua entre 36% e 28% das intenções, dependendo do instituto que realizou a medição, e sempre com vantagem igual ou superior aos 10% necessário para vencer o pleito sem necessidade de uma segunda instância.

Entre os opositores, há um empate técnico entre os dois candidatos mais à direita, o empresário conservador Guillermo Lasso (cujos percentuais, dependendo da pesquisa, varia entre 22% e 17%) e a jornalista Cynthia Viteri (entre 19% e 15%, dependendo da pesquisa), representante democrata-cristã. O ex-militar Paco Moncayo, que encabeça a frente de centro-esquerda social democrata e é um forte crítico de Correa, aparece em quarto lugar, flutuando entre 14% e 8%.

O principal objetivo da oposição, admitido pelos próprios candidatos, é levar a disputa para um segundo turno, no qual as três candidaturas poderão se unir, além de ganhar tempo, quase dois meses, para enfrentar a chapa governista, já que um possível segundo turno se realizaria somente no dia 2 de abril.