Justiça da Guatemala acata juízo prévio contra presidente a duas semanas das eleições

Nesta terça-feira (25/8), a Corte Suprema da Guatemala aprovou o pedido de juízo prévio contra o atual presidente do país, Otto Pérez Molina, por sua possível vinculação com o Caso de La Línea, um esquema de corrupção que operava nos serviços aduaneiros do país, e que já tinha envolvidos alguns altos funcionários da administração pública, incluindo a vice-presidenta do país, Roxana Baldetti.

Otto Molina AFP

Várias manifestações vem ocorrendo na capital guatemalteca nos últimos meses. As mais recentes pedem diretamente a renúncia do presidente Otto Pérez Molina. (foto: AFP)

O juízo prévio aprovado pela máxima autoridade da Justiça guatemalteca significa que o Congresso precisará aprovar a acusação contra Pérez Molina para que ele seja oficialmente declarado réu no processo. A Justiça determinou que os indícios envolvendo o presidente são considerados válidos para que o presidente seja investigado e julgado.

O Congresso ainda não estipulou uma data para avaliar o tema, e as primeiras reações no país enfrentam uma situação especial, já que o primeiro turno das eleições presidenciais acontecem no dia 6 de setembro. Alguns grupos de esquerda, ligados à candidata Sandra Torres (terceira colocada nas pesquisas, com cerca de 18%) pedem que o julgamento contra Pérez Molina aconteça o mais rápido possível, antes das eleições, “porque o povo deve votar sabendo se o seu presidente é ou não réu num processo por corrupção”.

Já as forças mais à direita, principalmente as ligados ao Partido Patriota (legenda de extrema direita a qual pertence Pérez Molina) afirmar que é impossível realizar uma votação antes das eleições. “A maioria dos parlamentares estão trabalhando em suas campanhas, e este é um assunto sério, não é só chegar e votar. Cada deputado terá que estudar profundamente o caso para dar sua opinião, para que seja uma sentença sobre os fatos, e não sobre o governo do presidente”, disse o jornalista Mario Garcia Velasquez, candidato presidencial do Partido Patriota, que também acusou a Corte Suprema de atuar politicamente, ao aceitar o juízo prévio neste momento.

Molina

O presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina, não vê um céu de brigadeiro sobre sua cabeça. (foto: AFP)

Embora o próprio presidente já tenha declarado que não irá renunciar, alguns diários da Guatemala asseguram que fontes do Palácio de Governo relataram negociações sobre uma possível renúncia antes do juízo prévio, caso ela pudesse produzir o efeito de evitar uma investigação mais profunda sobre a participação do mandatário nos esquemas de corrupção.

Os dois candidatos melhor posicionados nas pesquisas são conservadores: o empresário Manuel Baldizón (cerca de 30% das intenções de voto) e o ator e produtor de televisão Jimmy Morales (24%). Nenhum dos dois deu declarações até o momento sobre a decisão da Corte Suprema. Morales vem sendo uma pequena surpresa na disputa, já que suas intenções de voto se catapultaram depois que o Caso de La Línea surgiu, afetando o partido patriota – seu partido, a Força de Convergência Nacional, se apresenta como um nacionalismo alternativo ao do Partido Patriota.

Contudo, vale lembrar que nenhuma das pesquisas divulgadas até agora mediram as intenções de voto do candidato governista Mario García Velásquez. É pouco provável que ele esteja entre os primeiros colocados, mas sua votação, por menor que seja, pode ter incidência importante no resultado do primeiro turno.

La Linea

A estrutura corruptora do caso La Línea, envolvendo o presidente Pérez Molina, a vice Roxana Baldetti e vários responsáveis pelos serviços aduaneiros. O gráfico é da CICIG – Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala, organização responsável pelas investigações.