Kirchners x Veja e os 40 anos da Operação Condor midiática

Desde a semana passada, a Revista Veja iniciou uma espécie de campanha contra Máximo Kirchner, o filho de Cristina Kirchner.

Máximo Kirchner, sob ataques da aliança Veja-Clarín (Foto: Diario Uno).

Máximo Kirchner, sob ataques da aliança Veja-Clarín (Foto: Diario Uno).

Depois que a trama policial contra o governo pela estranha morte do promotor Alberto Nisman deu com os burros n´água (a Justiça argentina já deu duas sentenças afirmando que as acusações de Nisman contra Cristina pelo Caso AMIA não tinham nenhum fundamento, e fica difícil defender a tese de que o governo argentino tinha interesse em sua morte, se não havia nada concreto contra si), surgiram nas páginas brasileiras, com o poder que vemos em certo tipo de coincidência, acusações de que o filho da presidenta argentina teria contas secretas em paraísos fiscais, que seriam regadas por recursos vindos de uma maquiavélica aliança nuclear entre Argentina, Irã e Venezuela.

O artigo de Dario Pignotti, na Carta Maior, explica melhor a trama narrada com a particular imaginação do jornalismo da Veja, e com aquela típica falta de documentos e fatos comprováveis que caracteriza as denúncias do semanário da Editora Abril – como na acusação contra Dilma e Lula na véspera do segundo turno em 2014, como o grampo sem áudio que sepultou a Operação Satiagraha, em 2008, e tantos outros casos.

Também mostra a espantosa sincronia entre a Veja e o Clarín na repercussão das matérias em Buenos Aires quase em tempo real, como se estivessem sendo escritas para o público argentino e não o brasileiro. Jornalistas de meios ligados ao Clarín, ferrenho opositor aos governos Kirchner, usam a, segundo eles, “prestigiosa Revista Veja” para sustentar uma acusação que não tem provas, mas que é validada por surgir de um meio de imprensa estrangeiro.

Essa coordenação internacional entre meios jornalísticos sulamericanos, com tempero da simultaneidade e da dúvida a respeito do verdadeiro público alvo, não é uma novidade. O caso mais famoso na América Latina (embora pouco conhecido no Brasil, por razões que se entenderão) nos leva de volta aos anos mais sangrentos das ditaduras da região.

A histórica capa do jornal La Segunda, de 24 de julho de 1975, com a notícia que, anos depois, se descobriu que foi manipulada para esconder os massacres da Operação Colombo.

A histórica capa do jornal La Segunda, de 24 de julho de 1975, com a notícia que, anos depois, se descobriu que foi manipulada para esconder os massacres da Operação Colombo.

Já faz quase 40 anos, foi no dia 24 de julho de 1975, quando as bancas de Santiago do Chile receberam o diário vespertino La Segunda que trazia a manchete “Exterminados Como Ratos”. A notícia falava de dois diferentes enfrentamentos internos entre militantes clandestinos do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária, em sua sigla em espanhol), que teria terminado com os esquerdistas se matando entre si, em supostos esconderijos no noroeste da Argentina.

A matéria chilena citava duas fontes diferentes estrangeiras. Uma delas, a revista argentina Lea, trazia uma lista de com 60 nomes de integrantes do MIR que teriam sido assassinados por seus próprios companheiros. A outra fonte era o suposto diário Novo O Dia, um estranho relançamento do diário O Dia, de Curitiba, contava o mesmo fato, que teria acontecido em outro esconderijo, e continha uma lista com 59 nomes, todos diferentes da lista de Lea.

A verdade sobre o ocorrido só seria descoberta 15 anos depois, quando o Chile realizou sua primeira Comissão da Verdade (Informe Rettig), e anos depois, quando foram desclassificados os primeiros documentos relativos à Operação Condor.

Os 119 militantes do MIR, cujos nomes foram publicados na matéria de 1975, nunca saíram do Chile. Foram assassinados em seu próprio país, durante uma ofensiva dos órgãos de repressão da ditadura de Pinochet (1973-1990), a chamada Operação Colombo. Devido a pressão interna pelo desaparecimento de opositores, a ditadura chilena resolveu se valer de uma artimanha midiática para branquear o massacre cometido, usando meios de imprensa estrangeiros para respaldar uma falsa versão na qual as mortes não foram cometidas pelos órgãos de repressão.

Novo O Dia

A única edição do jornal curitibano Novo O Dia, e a triste história de uma publicação que só existiu como estratégia chilena para ocultar um massacre de opositores à ditadura.

Na operação, o jornal chileno La Segunda, pertencente ao Grupo El Mercurio – o mais importante empresa de comunicação do Chile, que apoiou o golpe e a ditadura de Pinochet até o último dia –, também lavou as mãos, atribuindo a informação às fontes estrangeiras. O problema é que tanto a revista argentina Lea quanto o jornal curitibano Novo O Dia só existiram para fazer da montagem. Ambos só tiveram uma edição, em meados de 1975, na qual citavam as supostas brigas internas do MIR com mediano destaque. Apesar da evidente inexpressividade de publicações recém-nascidas, foram usadas pelo periódico santiaguino e descritas como “fontes fidedignas”.

A tática da aliança entre Veja e Clarín é parecida, embora a revista brasileira seja uma publicação real e conhecida em seu país, mas se baseia na mesma artimanha de respaldar uma acusação sem provas no fato dela ser denunciada na imprensa de outro país.

Com a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa, defensora da hegemonia dos monopólios midiáticos do continente), dedicada a combater os governos interessados em democratizar os meios de comunicação na América Latina, é possível que vejamos novos casos de triangulação (des)informativa entre meios ligados à entidade, principalmente nos países onde os presidentes usam um termo que causa arrepios nos grandes meios de comunicação: Lei de Meios.