Os velhos fantasmas ressurgem em Honduras

Tegucigalpa / foto: Wikimedia Commons

Tegucigalpa / foto: Wikimedia Commons

Foi fraude ou não foi fraude? A pergunta que urge das mal contadas urnas hondurenhas tem tudo para se tornar ridícula com o passar do tempo, mas hoje ela é só uma polêmica, que terminará sem nenhuma mudança no resultado que a autoridade eleitoral do país já declarou como oficial.

Na última semana de novembro, em eleição de turno único, o governista Juan Orlando Hernández foi declarado novo presidente de Honduras. A candidata da oposição, a socialista Xiomara Castro, liderou todas as pesquisas, inclusive a boca de urna, mas a apuração apontou que ela teve menos votos 28%, contra 34% de Hernández.

Na mesma semana após o domingo eleitoral, o partido de Xiomara divulgou um documento onde comprovava diversas irregularidades, mortos que votaram, vivos impedidos de votar, urnas de zonas eleitorais favoráveis à esquerda classificadas como “especiais” e não contabilizadas. O trabalho dos observadores internacionais não foi suficiente para elucidar o conflito. Parte deles declarou que o processo foi limpo, e nesse grupo está a OEA (Organização dos Estados Americanos). Outro grupo, que inclui observadores da União Europeia, relatou as mesmas fraudes descritas na denúncia feita pela oposição. O Tribunal Eleitoral de Honduras resolveu dar ouvidos somente aos que legitimavam o processo, e decretou que não havia motivo para recontagem.

Na imprensa internacional, poucos foram os que insistiram em tentar ver as nuances do que aconteceu no país. Diferente do que aconteceu na Venezuela, onde os meios passaram meses dando repercussão para as acusações do oposicionista Henrique Capriles, apesar dele nunca ter apresentado as tais provas da sua denúncia (alegando que as mostraria somente no momento certo) e mesmo depois que o Poder Eleitoral (que, na Venezuela, é independente dos demais poderes do Estado) realizou uma auditoria nas urnas eletrônicas e comprovar que não houve adulteração dos dados.

Em Honduras, não houve recontagem nem auditoria, e a imprensa não clamou por nada, abandonou o país com o resultado oficial em mãos, ignorando as denúncias feitas por Xiomara Castro – aliada do que alguns colunistas chamam de “chavismo”, como um fenômeno que se manifesta além das fronteiras venezuelanas.

O que acontece em Honduras é algo que se esperava que não aconteceria mais no mundo da tecnologia da informação e do zelo pelo cuidado da democracia. Mas parece que as evidências de uma fraude eleitoral ainda são insuficientes para determinar uma investigação mais pormenorizada dos processos eleitorais – dependendo do caso, já que na Venezuela, berço do chavismo, o oposicionista Capriles conseguiu facilmente provocar uma auditoria das urnas eletrônicas, o que está bem, diga-se de passagem.

Problema ainda maior será o precedente que poderá marcar a partir desse caso.

E os problemas em Honduras no passado recente têm marcado precedentes. Lembremos que em junho de 2008, os militares hondurenhos invadiram a residência do então presidente Manuel Zelaya, sequestrado e depositado, em pijamas, num aeroporto na Costa Rica. Depois disso, Zelaya tentou voltar ao seu país – ficando, inclusive, hospedado meses na embaixada brasileira em Tegucigalpa.

Embora tenha tido todos os elementos de um golpe de Estado, não faltaram os defenderam a ação, incluindo uma comissão de parlamentares brasileiros, liderada pelo ex-deputado do PPS e ex-ministro de FHC, Raul Jungmann, que, entre outras coisas, chamou Zelaya de chavista – curioso, já que o presidente deposto é casado com Xiomara Castro, que se candidatou em 2013 porque o marido teve seus direitos políticos cassados pelos novos governantes de Honduras.

O golpe em Honduras teve pelo menos dois ecos na região. Em setembro de 2010, um batalhão policial equatoriano cercou e começou a disparar contra um hospital onde se encontrava o presidente Rafael Correa. Na ocasião, a imprensa internacional se debateu sobre se aquilo havia ou não uma tentativa de golpe. Em maio de 2012, Fernando Lugo foi derrubado no Paraguai, através de uma manobra legislativa apoiada internacionalmente por diversos grupos políticos – no Brasil, foi o senador Álvaro Dias (PSDB/PR) quem corroborou o processo.

Nos Anos 60, em cada país onde nascia uma nova ditadura condor, se iniciava o mesmo debate: foi golpe ou não foi golpe? Um debate artificial, cujo propósito é alimentar a parcimônia da sociedade sobre o caráter das transformações políticas mais abruptas, e se esquivar de possíveis condenações por parte da comunidade internacional.

Visto hoje, cinquenta anos depois, pode parecer ridículo falar que naqueles dias, e durante anos, se travou uma discussão sobre a legalidade da manobra que levou os militares ao poder, com bons defensores dos dois lados, e que a falta de um consenso sobre o tema colaborou para que a imposição do regime não fosse maiormente questionada.

Porém, os ciclos inevitáveis da história nos permitem, hoje, ver como esses fenômenos acontecem. E que o destino nos proteja de ter que ver exemplos mais próximos, porque o mais negativamente interessante não está tão distante.