Lula é o herói dos anti-chavistas bolivarianos da Venezuela

BOLIVARIANO é o adjetivo do momento no Brasil, quer para atacar o PT e a esquerda, quer para tirar uma onda com os que o usam para o primeiro propósito.

Sobra até mesmo para as publicações não alinhadas com a mídia hegemônica, como a Carta Capital, ter que carregar com essa pecha, embora eu, como colaborador eventual da mesma, não consiga descrevê-la aos colegas correspondentes no exterior como uma revista de esquerda – talvez porque nenhum vai acreditar que uma revista com “Capital” no nome possa sê-lo, e tenho preguiça de explicar.

“Companheiro Hugo, sabe aquele pessoal ali? Acredita que para eles eu sou `bolivariano´?”. Foto: MinCI, Venezuela.

Entretanto, na República Bolivariana da Venezuela, o bolivarianismo não é um fantasma nem uma expressão pejorativa. Pelo contrário, é um conceito ainda em disputa, e mais depois da morte de Hugo Chávez.

É bem verdade que a oposição passou anos criticando a forma como Chávez utilizava politicamente a figura de Simón Bolívar, o prócere da independência latino-americana, alçando-se como uma espécie de reencarnação dele.

Pouco antes da morte do caudilho, a direita mudou sua estratégia, e começou a jogar o mesmo jogo. É o que se vê hoje no discurso da MUD (Mesa de Unidade Democrática, principal coligação política de oposição ao chavismo) e até mesmo o nome do seu quartel-general, batizado como Comando Simón Bolívar, segue essa tendência.

A estratégia da direita venezuelana mostra como Chávez venceu o debate ideológico no país. Além de querer se apropriar do bolivarianismo, a MUD pretende limpar os rastros neoliberais do seu discurso, e buscar princípios que eles chamam de “progressistas”, uma forma de criticar o socialismo pregado por Chávez e Maduro, e ao mesmo tempo garantir certo compromisso com a distribuição de renda e os direitos sociais.

Henrique Capriles, o jovem líder da oposição venezuelana, é o que mais usa esses termos, os repete até o cansaço, e com isso tem consolidado uma figura de moderado ideologicamente. Dizer quea MUD e Capriles são boliviarianos é um exagero aqui confessado, para chamar a atenção no título – o jornalista que nunca flertou com o sensacionalismo que atire a primeira pedra –, mas é verdade que não lhe faltam as alusões em cada uma de suas declarações, como sua nova forma de saudação para “filhas e filhos de Bolívar…” em cada discurso. É possível que, num futuro a médio ou longo prazo, exista um bolivarianismo de esquerda e outro de direita, como acontece com o peronismo na Argentina.

Avanzada Progresista é um partido de centro esquerda que compõe a anti chavista MUD, que sustenta o líder da oposição venezuelana.

Avanzada Progresista é um partido de centro-esquerda que compõe a anti-chavista MUD, que sustenta o líder da oposição venezuelana.

Enquanto esse futuro não chega, essa oposição sofre pela falta de uma figura local que sirva de exemplo – a direita venezuelana já está há quinze anos longe do poder, e seus últimos presidentes foram ruins o suficiente para não valer a pena reivindicá-los –, e foi preciso buscar além fronteiras um modelo de comparação que fosse um contraste viável ao chavismo e de fácil entendimento para o eleitor venezuelano.

Não carece de suspense, já que a resposta está no título deste artigo. Sim, o escolhido foi Luiz Inácio Lula da Silva, e não há mesmo espelho mais adequado. O Brasil que surgiu nos governos do PT, com seu capitalismo de oportunidades para todos, é o exemplo sonhado da direita latino-americana, pelo menos como um discurso que disfarça bem o capitalismo neoliberal, que, no fim dos Anos 90, era sinônimo de economia arrasada, na Venezuela, no Brasil, na Argentina, em quase todo o continente – e não importa se depois a prática do discurso é completamente diferente. Uma negativa imagem dos pacotes neoliberais continua vigente.

Se no Brasil do ainda morno levante ultrarreacionário, Lula e Dilma são chamados de comunistas bolivarianos, amigos de Cuba e inimigos da moral cristã-ocidental, no resto da América Latina, o ex-presidente brasileiro é quase uma unanimidade, que reúne seguidores de esquerda a direita. Já foi mencionado – chegando a ser cultuado em alguns casos – por conservadores e liberais em países como Argentina, México, Colômbia e Chile, entre outros, pelo mesmo motivo que levou a direita venezuelana a cortejá-lo. Sua figura é tão carismática e popular quanto a de Hugo Chávez e o modelo que impulsou no Brasil é apresentado como uma antítese do projeto bolivariano chavista – claro que com um exagero de retórica, desses típicos da política –, sem abdicar das semelhanças que ambos têm, como a ênfase na distribuição de renda.

Mas a ironia da direita brasileira, de saber que seus aliados externos preferem ser amigos dos seus inimigos internos, não precisa ser terrível nem vergonhosa. Pode ser lida simplesmente como o indício de que é preciso corrigir alguns rumos. Que o diga Xico Graziano.

  • Leon

    Teria como colocar as fonte utilizadas por favor ?

    • Leon, artigo de opinião não precisa disso. Justamente porque é um artigo que expressa a OPINIÃO de um sujeito. Veja um discurso do político citado e verifique se o argumento é verdadeiro ou não.
      Abraços!

    • auricio nobre

      esses caras nem me deixam comentar. pois enganam o povo brasileiro…

  • Em verdade, não há nada que comparar! Chavez representou e representa um grande avanço na conquista de um protagonismo popular de verdade na Venezuela, com ampla mobilização e involucramento de amplos setores populares, principalmente as camadas mais excluídas de verdade, protagonizando e empuxando o processo bolivariano, com todas as suas contradições e problemas, enquanto o lulismo petista tange muito timidamente alguma distribuição de renda para os muitos milhões de excluídos, destinando 1 ou, no máximo, uns 1% do orçamento nacional para o bolsa família e outros programas populares, enquanto direciona em torno de 50% do orçamento apenas para pagamento da famigerada dívida pública (juros, amortizações e rolagens), o que significa pagar mais de R$2 BILHÕES POR DIA, aos banqueiros e agiotas (e já programando, para o segundo mandato de Dilma, o desastroso superávite primário maior para tal fim) e anunciando austeridade nos gastos públicos com fins sociais, aumento tarifário e outras maldades para com os menos aquinhoados, enquanto acena com preservação dos ganhos dos mais ricos e poderosos (grandes empresas, banqueiros, agronegocistas, latifundiários, FMI, BM e assemelhados…). O governo petista neoliberal, não tem coragem de enfrentar a banca nacional e internacional, o império ianque, para valer, as privatarias demotucanas, as necessárias reformas de base, agiotas, os gorilas de pijama para abrir os arquivos da ditadura civil-militar de 1964 e suas oligarquias carcomidas e afins…
    É preciso que o povo se mobilize, saia às ruas e desbanque os saudosistas da direitona golpista, que já está até botando mais explicitamente as manguinhas de fora, já que conta com os mesmos de sempre, como Globo, Mídia venal-corporativista, império ianque e seus aliados das oligarquias locais.
    É preciso barrar o retrocesso nazi-fascista-sionista que não se envergonha em suas aparições explícitas!

  • josé antonio cid peres

    Se existe algum Lobão ou Bolsonaro na Venezuela, logo, logo, ele irá se filiar ao Partido Comunista!!!!!!!!!

  • sara medeiros de oliveira

    Gosto da revista Carta Capital . É um oásis em meio a tantas publicações de qualidade discutível.

  • Estou com uma dor de cabeça bolivariana…Bate meu carro num cruzamento bolivariano…Sai com uma mina que usava uma saia bolivariana…bolivariana…bolivariana…zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

  • Leonardo Soares

    Amo o Presidente Lula!

  • Procionídeo

    Tá bom, o Lula é referência, ok. Mas está na hora de nós brasileiros nos livrarmos desse ufanismo oficialesco, que dita que quando um brasileiro é respeitado, ou faz sucesso de algum tipo no exterior, ele então é “reverenciado”, “idolatrado”, “tratado como um deus”; nada disso é verdade, nem em se tratando do Lula, nem do Paulo Coelho, nem do Pelé, nem da Gisele Bündchen.

  • Mauro

    Herói? Como diria meu pai: Aí você pulou o Corguinho kkkk

  • anonimo

    Em pouco tempo este editor e sua revistinha de recalcados mononeurônios neocomunas bolivarianos terá uma visitinha da PF para checar como anda a mesadinha do Petrolão, assim como aquele “concorrente” 247; é tudo 171.