Macri encurralado pelas memórias argentinas

Centenas de milhares de pessoas na e praça e nas avenidas ao redor da Casa Rosada, ou em outros diferentes pontos da capital, se tornaram quase uma paisagem habitual para o presidente argentino durante este mês de março.

Neste março, em frente à Casa Rosada, já passaram manifestações de diferentes categorias, especialmente a dos professores.

O governo de Mauricio Macri começou com a esperança de marcar a renovação da direita na América Latina, com um discurso que prometia usar as conhecidas políticas econômicas de austeridade e ao mesmo tempo garantir o combate às desigualdades sociais.

Após quinze meses de gestão, porém, o desgaste da nova administração a posicionam muito mais próxima do fracasso que de um sucesso redentor. O aumento do desemprego e dos índices de pobreza, além da inflação que já era alta no final do governo de Cristina Kirchner e que se incrementou em 2016 – efeito contrário ao prometido em campanha –, são as razões do cenário difícil enfrentado por Macri.

O maior problema, no entanto, é a memória de outras situações complexas vividas em anteriores governos de direita na Argentina, e o fato de que nenhum dos governos que enfrentaram tais problemas acabou bem – e que a população terminou ainda pior.

As pesquisas de opinião dão uma ideia de quanto vem caindo a confiança dos argentinos em seu governo: todas as pesquisas publicadas este ano mostram uma queda de quase dez pontos percentuais na popularidade de Macri – os institutos Aresco e Management & Fit são os que o colocam mais abaixo, com apenas 38% de aprovação. Os números são de antes de março, ou seja, não consideram ainda os possíveis efeitos negativos das muitas marchas ocorridas neste mês.

Além disso, outro fator desfavorável a Macri são as questões a respeito da percepção sobre o viés de sua administração. Por exemplo, 54% dos argentinos considera que Macri governa para os ricos, 29% disse que ele defende todos os setores, e apenas 7% acha que ele prioriza os trabalhadores. Em outra questão, 59% dos entrevistados responderam que a situação dos trabalhadores piorou nos últimos meses, contra 18% de otimistas. Finalmente, 48% acredita que a situação econômica do país vai piorar nos próximos meses, enquanto 27% acha que vai melhorar – no âmbito individual, 44% acha que sua situação pessoal vai piorar, enquanto 21% acredita numa melhora.

Mauricio Macri na berlinda.

Essa tendência ainda pode ser continuada ou revertida, dependendo do desfecho que terão os conflitos nos quais o governo enfrenta algumas organizações sociais e sindicatos. Ao analisar alguns desses problemas, como mobilizações permanentes contra o governo, a sensação é de que Macri ainda não chegou ao pior cenário possível, mas pode estar a caminho dele.

As batalhas nas ruas

Começou com os professores, que exigem um reajuste salarial que o governo se nega a pagar. Durante todo o mês de março, sindicatos de professores de toda a Argentina organizaram diferentes marchas. Algumas descentralizadas, com manifestações em diferentes cidades. Outras com grupos que viajaram desde suas regiões até Buenos Aires, para protestar perto do Palácio de Governo.

Os professores pedem um reajuste o mais próximo possível da taxa de inflação registrada em 2016, que foi de 40%, por isso a pedida dos sindicatos de docentes é de recomposição de 35% dos salários. O governo de Macri rejeita uma negociação nacional com os professores, e empurra os sindicatos a negociarem regionalmente com os governos provinciais.

Na Província de Buenos Aires – a de maior população do país, e que inclui a região metropolitana, mas excetua a capital, que é cidade autônoma –, a governadora macrista María Eugenia Vidal é um exemplo do estilo de negociação do governo, ou seja, a não negociação. Vidal já tentou de tudo: ofereceu prêmios extras a professores que furassem a greve, convocou voluntários para substituir os grevistas da rede pública e até já pediu ao Ministério do Trabalho que aplique multas altíssimas ou até mesmo a cassação do registro dos sindicatos que não aceitem uma “mesa de reconciliação” baseada na sua proposta (reajuste de 18%, a metade do pedido).

Além dos professores, a Argentina também viu diversas outras manifestações em março: das mulheres (no dia 8 de março, no contexto do movimento Ni Una Menos), de diferentes movimentos sociais e de centrais sindicais, seja apoiando os professores ou defendendo suas próprias demandas – uma delas, a CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) convocou uma greve geral para o dia 6 de abril, para a qual os demais conglomerados estão avaliando a possibilidade de aderir ou não.

A Plaza de Mayo, em frente ao Palácio de Governo da Argentina, foi cenário de diversas manifestações sindicais este mês. A maior delas reuniu não só os professores em greve, como também os representantes das maiores centrais sindicais do país.

Finalmente, no dia 24 de março aconteceu a tradicional e sempre multitudinária marcha pelo Dia da Memória, quando os argentinos recordam o golpe de Estado de 1976 e suas consequências. A data foi marcada, nas últimas duas edições, por reclamações contra os abusos cometidos durante a gestão de Macri, como as prisões arbitrárias e o excesso de violência policial nas manifestações, em ações que muitas vezes são comparadas ao ocorrido em tempos de ditadura.

A principal reclamação nesse sentido se dá pelo caso da líder indígena Milagro Sala, que foi presa em fevereiro de 2016 por determinação do governador Gerardo Morales, da província de Jujuy, aliado do presidente. A detenção de Sala é alvo de críticas das organizações argentinas e de diversos organismos internacionais de proteção aos direitos humanos.

Como resposta a todas essas manifestações, o macrismo tenta reagir com a sua própria mobilização. Nos últimos meses de governo de Cristina, a então oposição conseguiu organizar marchas também massivas, com o apoio também de alguns meios de comunicação, como os diários antikirchneristas Clarín e La Nación. Desta vez, os grupos de simpatizantes contam sobretudo com o poder de convocatória das redes sociais. A marcha governista está marcada para o sábado, 1º de abril.

Pobreza zero

Outro problema que coloca a administração de Macri contra as cordas é o slogan “pobreza zero”, usado na campanha eleitoral de 2015, que vem se mostrando inviável, segundo números revelados por estudos recentes.

Um informe realizado pelo Observatório da Dívida Social Argentina, publicado no começo de março, mostra um aumento significativo dos índices de pobreza durante o atual governo: cerca de 1,5 milhão de pessoas alcançaram nível de pobreza, enquanto cerca de 600 mil pessoas passaram à indigência. Isso significa um aumento de 33% na precarização do nível de renda, o que leva à estimativa de que cerca de 13 milhões de argentinos se encontram nessas condições, um número expressivo para um país de pouco mais de 40 milhões de habitantes.

Macri em campanha, em 2015, quando seu discurso falava em “pobreza zero”. Os números de agora dizem outra coisa.

Nesse sentido, começa a voltar ao imaginário argentino a lembrança da tragédia econômica neoliberal dos Anos 90, que começou com o ocaso da Era Menem e se tornou crise social no governo de Fernando de La Rúa – cuja renúncia e fuga da Casa Rosada de helicóptero ainda é uma imagem presente na memória da cidadania. Não por acaso, alguns parlamentares da oposição e líderes sindicais críticos ao governo ironizam com que os possíveis novos erros econômicos do presidente podem se transformar em sua “viagem de helicóptero”.

Entre as medidas anteriores consideraras equivocadas pela oposição estão algumas das promessas do macrismo durante a campanha eleitoral de 2015 que não foram cumpridas. Pelo contrário, em alguns casos, Macri chegou a fazer exatamente o contrário do que disse.

Para negar que sua agenda econômica era neoliberal – como havia sido sua gestão na Prefeitura da cidade autônoma de Buenos Aires – Mauricio Macri adotou um discurso ousado, assegurando que não desvalorizaria o peso, que não cortaria os subsídios para o gás e outros serviços básicos e que não perseguiria funcionários públicos por razões políticas.

Na prática, a desvalorização foi uma das primeiras medidas, logo nas primeiras semanas de governo, em dezembro de 2015. No mês seguinte, começaram as demissões de funcionários, chamados pelos macristas de “nhoques” – expressão usada na Argentina para se referir a funcionários fantasmas com apadrinhamento político, no caso, ligados ao kirchnerismo –, criticada pelos sindicatos, inclusive alguns que apoiaram a candidatura de macrista, por usar o rótulo para justificar demissões políticas de funcionários concursados, chegando a mais de 150 mil durante o primeiro semestre, segundo as centrais sindicatos.

Finalmente, o fim dos subsídios também aconteceu, e os aumentos de tarifas, não somente do gás como de outros serviços básicos, foram uma constante em todo o ano de 2016. Tudo isso junto com um pequeno pacote de privatizações e o acordo de pagamento da dívida com os chamados “fundos abutre”, resumem o primeiro ano da direita argentina no poder.