‘Macri não tem cheque em branco para aplicar ajustes’, diz deputado argentino

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(Crédito: reprodução/Facebook)

Nicolás del Caño, 35 anos, foi o mais jovem a disputar a presidência da Argentina em 2015. Candidato pela coalizão de orientação trotskista Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT – Frente de Izquierda y de los Trabajadores), obteve o maior resultado para a esquerda desde 1983, com 812 mil votos (3,27% dos votos), ficando em quarto lugar.

Foi uma campanha difícil para candidatos de fora do eixo governo e oposição conservadora: Mauricio Macri obteve 51,40 % dos votos, Daniel Scioli, 48,60 %. Neste cenário, Del Caño trouxe propostas como equiparação de salário dos parlamentares ao de docentes, nacionalização de grandes propriedades rurais e do comércio exterior, não pagamento da dívida externa, aplicação de impostos a grandes fortunas e descriminalização do aborto.

Del Caño é também um dos nomes mais jovens do Congresso Nacional da Argentina atualmente. Foi eleito com 14% dos votos deputado nacional em 2013 pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), integrante da coalizão FIT. Ficou em terceiro lugar nas eleições gerais, uma histórica conquista para a oposição de esquerda.

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Para ele, um dos principais momentos da campanha de 2015 foi o debate de 4 de outubro por ter tido repercussão nacional. Foi realizado na Faculdade de Direito da UBA (Universidade de Buenos Aires) e estavam cinco dos seis candidatos – Del Caño, Macri (Cambiemos), Sergio Massa (UNA), Margarita Stolbizer (Progresistas) e Adolfo Rodríguez Saá (Compromiso Federal). Daniel Scioli não participou. Del Caño declarou voto em branco no segundo turmo. Para ele, as duas opções eram “filhos de Menem”.

Seu nome chamou atenção em julho de 2014 porque, durante uma manifestação contra demissões da multinacional Lear Corporation, o deputado foi vítima da repressão policial. Levou 16 tiros de bala de borracha da Gendarmería Nacional (principal Força de Segurança do país) enquanto participava do protesto, realizado na Autopista Panamericana, estrada sai de Buenos Aires e termina na fronteira argentina com a Bolívia.

Nicolás del Caño e Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP e dirigente nacional do MRT no encontro em São Paulo

Uma semana depois de realizado o segundo turno, esteve no Brasil pela primeira vez. Participou do evento As lições da esquerda argentina para enfrentar a crise no Brasil, realizado no Sindicato dos Metroviários de São Paulo, junto do MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores). A expectativa era compartilhar com dirigentes brasileiros a experiência argentina de articulação para montar uma bancada no Legislativo e discutir medidas de resistência aos ajustes fiscais. “A ideia é trocar experiências dos companheiros do Brasil com a resistência aos ajustes de Dilma, e como nós estamos nos preparando na Argentina para enfrentar os ajustes do novo governo de Macri”, disse.

Em São Paulo, o deputado conversou com a reportagem de Rede LatinAmérica. Confira a entrevista a seguir:

Como é fazer uma campanha para disputar a presidência em um cenário no qual as atenções estão voltadas para dois ou três candidatos principais?
Para nós foi difícil, até que aconteceu o debate entre candidatos realizado em outubro – Scioli não participou. Ali ficou claro que não havia somente três candidatos principais. Porque a campanha, até então, se baseou muito em Scioli, Macri e Massa. Mas, a partir do debate, chegamos até muita gente que não nos conhecia. Ficou mais claro que, entre governismo e oposição, existe uma voz independente, representando a independência política dos trabalhadores de qualquer setor, tanto em relação ao governo quanto aos setores privados. Além do espaço da tevê, existiu também uma campanha de militância.

Como estão os jovens neste processo de debate, eleição e transição de governo?
A juventude tem muito interesse político e há particularmente muita simpatia em relação à Frente de Esquerda. Proporcionalmente o voto da juventude foi mais alto na Frente de Esquerda.

Entre os trabalhadores, há uma forte militância da juventude. Os jovens têm muito a ver com esse processo de avanço da esquerda.

Participaram professores, bancários, gráficos, carteiros, metalúrgicos, operários da indústria alimentícia, estudantes secundaristas e universitários

Participaram professores, bancários, gráficos, carteiros, metalúrgicos, operários da indústria alimentícia, estudantes secundaristas e universitários


Como você avalia a vitória de Macri?

Acredito que será um governo que aplicará um ajuste, já se está debatendo inclusive a formação do gabinete de Macri e são pessoas de formação empresarial. É um gabinete que mostra muito claramente os interesses a que vão atender.

Depois, esperamos o aumento das tarifas decorrente da diminuição dos subsídios. Falam em fazer um ajuste gradual, vamos ver se será possível. Haverá muita resistência dos trabalhadores. Macri disse – e Scioli também havia dito – que não toleraria manifestações, greves, piquetes. Os preços no supermercado já estão subindo. Já é possível notar. Mas Macri não tem um cheque em branco para aplicar ajustes sem resistência. Vemos que haverá uma forte resistência.

O Kirchnerismo abriu espaço para o fortalecimento de Macri. Por exemplo, Scioli nomeou como possível Ministro de Segurança Sergi Berni, que ordenou repressão aos trabalhadores da Lear Corporación, que estavam protestando [em 31 de julho de 2014]. Houve forte repressão com bala de borracha contra trabalhadores e famílias. Aquela foi uma operação feita em conjunto com a Polícia Metropolitana de Macri e Berni, da Secretaria de Segurança de Cristina Kirchner.

Para além do discurso, Scioli teria consenso para aplicar o ajuste pelo acordo com os sindicatos patronais. Os sindicatos tiveram um papel chave. Hoje, metade dos trabalhadores da Argentina ganham 40%, 50% do que custa uma canasta familiar, que deveria ser objeto de indignação dos sindicatos.

A vitória de Macri foi uma surpresa para a Frente de Esquerda?

Para a Argentina, a eleição de outubro, primeiro turno, foi uma surpresa. A margem escassa de diferença entre Macri e Scioli foi, para todo mundo, uma surpresa.

Acredita que a situação no Legislativo estará pior no novo governo?
Veja, nós, na verdade, durante esses dois anos em que estive no Congresso, nossos projetos sequer foram levados a comissões pelo Kirchnerismo, que teve a maioria. Temos uma agenda própria, projetos contra demissões, o projeto de aborto, uma série de reivindicações que dormem no Congresso. Agora, com Macri, teremos uma composição em que o Kirchnerismo não terá maioria absoluta. Vamos ver como estará o Congresso. Não aceitaremos nenhuma medida de ajuste, como não aceitamos no governo Kirchner. Mas sabemos que enviarão pacotes de leis para implementar o ajuste.

De que se trata seu projeto que demanda abertura e divulgação dos arquivos da repressão pertencentes à Secretaria de Inteligência?
Nós apresentamos com Myriam Bregman (candidata à vice pela chapa da Frente de Esquerda, advogada e ativista de direitos humanos) para a abertura dos arquivos porque atualmente não estão à disposição dos organismos de direitos humanos todos os documentos da ditadura, em que poderiam ser encontrados dados que ajudariam, por exemplo, a recuperar mais netos sequestrados. Se houver uma abertura dos arquivos, teremos muito mais elementos para conhecer a verdade. Lamentavelmente, organismos históricos, como as Avós e as Mães da Praça de Maio se integraram ao governo, que não avançou nesta questão, que nós consideramos essencial.