Mercosul busca um norte, e também um oeste

Cinco chefes de Estado cara a cara, sem a chilena Michelle Bachelet, que não quis ficar para ver o debate sobre o anseio boliviano de saída ao mar.

O encontro dos chanceleres, um dos eventos da última Cúpula do Mercosul, em Brasília. (foto: AFP)

O encontro dos chanceleres, um dos eventos da última Cúpula do Mercosul, em Brasília. (foto: AFP)

Protegidos pelas paredes duras do Palácio do Itamaraty, e pela falta de entusiasmo da mídia corporativa com o evento, os presidentes protagonizaram mais uma Cúpula do Mercosul, onde Dilma pode presidir uma reunião sem sofrer as afrontas que ela se acostumou a receber no Brasil, por parte do Poder Legislativo e da imprensa, onde Evo Morales é convidado de honra, e não visto como um exótico presidente de um país insignificante, onde Cristina Kirchner é aplaudida de pé por seus colegas, em sua última participação, com o paraguaio Horacio Cartes se calando, constrangido, cada vez que Dilma e Nicolás Maduro reclamaram dos perigos de um novo golpe de Estado institucional na região.

Situações que dão a falsa impressão de que o Mercosul é um dos últimos refúgios dos líderes progressistas da região, uma instância onde eles podem dizer o que gostariam de dizer sempre, se o ambiente político do continente e as circunstâncias econômicas mundiais permitissem navegar em águas menos conturbadas, sem os questionamentos dos partidos da mídia e das forças de oposição cada vez mais raivosas.

O evento em si dá a oportunidade de que as frases e os gestos sejam bonitos, mas não efetivos. A proposta de inclusão da Bolívia é um grande passo para uma área que somente há poucos anos entendeu que não pode estar restrito ao Cone Sul se quiser ter maior relevância. Na década passada, porém, a absorção dos demais países do continente ficou restrita ao espaço de observadores, seja por falta de interesse dos mesmos em se envolver mais – como nos casos de Chile e Colômbia – ou porque os mecanismos para a adesão de novos participantes são mais burocráticos, por exemplo, que no caso da Aliança do Pacífico.

Maduro já avisou Morales que a demora para a aprovar a adesão da Bolívia será longa. (foto: AFP)

Maduro já avisou Morales que a demora para a aprovar a adesão da Bolívia será longa. (foto: AFP)

O Mercosul foi criado nos Anos 90, impulsado por um dos presidentes que simbolizou a avançada neoliberal e o sucateamento estatal no Cone Sul, o argentino Carlos Menem (1989-1999). Logo, também foi desenhado com um protocolo que visa evitar que grandes mudanças aconteçam de forma mais ágil. Por isso, o processo de inclusão de novos membros é extremamente lento, ainda mais quando se trata de uma Bolívia, como foi no caso da Venezuela, que demorou quase dez anos em conseguir a aprovação no Congresso do Brasil e do Paraguai – sempre os mais resistentes, tanto que são os únicos que ainda não aprovaram definitivamente a adesão boliviana.

Resistência essa pautada pela mídia conservadora, que exige a devida burocracia para as mudanças no Mercosul enquanto aplaude a Aliança do Pacífico por sua capacidade de tomar e implantar decisões rapidamente – como no processo de adesão da Costa Rica como membro pleno e do Panamá como observador.

A falta de maior integração com o continente deveria ser o principal objetivo, fortalecendo as relações comerciais dentro da região e as iniciativas como o Banco do Sul. Nesse sentido, o debate de uma saída ao mar para a Bolívia – tema mais adequado aos espaços políticos, como a Unasul –, que afugentou um Chile disposto a se aproximar mais do bloco, segundo vinha insinuando sua presidenta Michelle Bachelet, pode ter sido um passo para trás.

Cristina e Dilma tentam apontar um rumo novo. O paraguaio Cartes olha e ri. (foto: AFP)

Cristina e Dilma tentam apontar um rumo novo. O paraguaio Cartes olha e ri. (foto: AFP)

De qualquer forma, é difícil pensar no fortalecer o Mercosul quando os três países mais economicamente relevantes do bloco (Brasil, Argentina e Venezuela) enfrentam crises políticas internas com efeitos na economia.

O Mercosul precisa, primeiro, que esse eixo recupere certa estabilidade, que seus governos parem de somente reagir às agendas das oposições e tomem medidas, tanto para resolver seus problemas internos quanto para ter a tranquilidade necessária para dedicar algo de atenção aos desafios do bloco.

Depois, é preciso ampliar os horizontes. O Brasil começou, no governo de Lula da Silva, a diversificar suas relações diplomáticas, visando diversificar também suas relações comerciais. Porém, essa postura surgiu quando havia – e ainda há – obstáculos geográficos para uma política externa e um mercado que não tenham olhos somente para os Estados Unidos e a Europa. O mesmo acontece com Argentina e Venezuela, que incrementaram sua relação comercial com a China, mas continuam de costas para o Oceano Pacífico.

O Mercosul precisa de um novo norte, e esse norte pode ser o sul, como diz o lema do organismo, mas tem que ser um sul mais amplo, um sul com oeste e não só com leste, como o atual. Também precisa de uma liderança regional capaz de apostar e trabalhar por ele.

  • HERMES FURTADO

    O Maduro já está importando papel higiênico do Brasil, via Mercosul ou os venezuelanos ainda estão se limpando com o Gramna cubano????

    • Pró Israel

      Bem que poderiam limpar com o BRAHMA brasileiro.

  • Leones Tome

    Reuniu um bando de ENERGÚMENOS.

  • iMarx

    Uma reuniao inutil, sem conteudo ou futuro. Nunca saiu e nunca saira’ do papel. Ninguem vai se interessar realmente. Puro encontro ideologico onde a “nata” sul americana se encontra para aplaudir uns aos outros. Enquanto isso o mundo inteiro vai indo para frente.

    • Astro leal

      Comentário totalmente fora de foco, pois o Brasil, nesses 12 anos de governos do PT, se transformou completamente, pois atingiu o status de 7ª Potência Econômica Mundial, enquanto os EUA, desde a crise de 2008, só tem entrado em decadência, enquanto a Europa, após a crise nos EUA, também teve sua crise em 2011, e hoje, já entra na UTI já quase falida, basta conhecer um mínimo sobre as economias de países, como, a Espanha, Grécia, Irlanda, Itália, Reino Unido, entre os outros demais, constituintes da Zona do Euro. A cegueira da oposição brasileira, através das mentiras do Partido da imprensa Golpista, comandado pela Globo, só existe, por oportunismo de brasileiros que nunca pensaram e não pensarão jamais no bem estar social do conjunto da nossa população, mas pensando sempre na elite atrasada e egoísta, sonegadora e corruptora, composta por apenas 1% da população, ou seja pouco mais de 2 milhões de privilegiados, entre os 202 milhões de brasileiros. É de estarrecer, a petulância de nossa elite, é revoltante !

      • César Roma

        Caracas! Você só assistiu hoje a propaganda eleitoral do João Santana?

      • iMarx

        Informe-se melhor. A 7 economia mundial e’ o estado da California. Se voce falar em paises sera’ o Brasil.

      • Marcio

        7º maior PIB total não quer dizer nada. O que mede realmente a riqueza de um país é o PIB per capita, que no caso do Brasil é de US$ 11.000 (61º lugar). Enquanto que nos EUA é de US$ 53.000 e Reino Unido, de US$ 39.000. Os EUA e o Reino Unido devem crescer 2,5% este ano com inflação abaixo de 2%. A taxa de desemprego nos EUA é de 5,5% e no Reino Unido, de 5,4%, enquanto no Brasil deveremos ter recessão de -1,5%, inflação de 9,5% e desemprego na casa dos dois dígitos no final do ano. Você está muito mal informado, vá ler artigos especializados em economia.

      • Claudio Almeida Dos Santos

        Gostaria que o Brasil fosse um país decadente como os Estados Unidos, tanto é que milhares de pessoas todos os anos tentam ir morar lá, o Brasil é um país cenário, por traz não tem nada, só propaganda dessa esquerda safada que aí está, construindo estádios pra 2 ou 3 jogos,milhares de obras começadas e não terminadas muito dinheiro do povo jogado fora e ainda tem idiota que defende esses canalhas!

      • Vaccari

        tu deve morar em outro país então ou estar mamando na teta do governo.

      • HERMES FURTADO

        Principalmente a ELITE petista.

    • Pró Israel

      Daqui a 20 anos a América Latina estará no ponto em que sempre esteve, atrasada no mínimo uns 50 anos, em relação aos países CAPITALISTAS DESENVOLVIDOS. Com o povo que tem, nem dá pra exigir mais que isso.

  • anonimo

    Este Mercosul foi totalmente desvirtuado pelos comuno-petistas bolivarianos. É bom explodir junto com o Unasul e esperar que estes ditadores populistas sejam apeados do poder pelo povo. Aguardem. Só após, devemos criar o Alca, ou ainda mercados com países europeus, com Japão, com a China, etc. Lula e camarilha (Chavez e CK) foderam com toda a América do Sul e merecem o paredón junto com o Fidel.

  • Zoiodopovo

    Importante reunião, pois fortalecer o Mercosul com a Bolívia, tão ignorada pelos governos neoliberais de fHC,Menen e outros. Não é demais lembrar que com um legítimo Inca Morales a economia boliviana está crescendo, com democracia e distribuição. Quem quer crescer tem que aprender a reconhecer a importância de uma Bolívia que tem sido um governo que corrige a duras penas injustiças seculares.

    • Diogo

      Roubando refinarias, e tudo mais, grande crescimento…

      • Zoiodopovo

        Ninguém rouba o que é seu. O gás e o petróleo é boliviano meu caro. É legítimo que um povo tenha soberania sobre as riquezas da terra onde nasceram. Além do que houve um acordo entre Brasil e Bolívia, quando da nacionalização das refinarias da Petrobrás.

        • Diogo

          A refinaria não, tudo foi feito de comum acordo. O resto é esse papinho da esquerda. Adoram caloteiros, quase sempre o são.

    • Spike Spiegel

      “Legitimo Inca” asuhsahuuashhsauhasuuhas

      Evo Morales eh Aimara! Incas sao Peruanos!
      Em qualquer caso esse acordo é uma total imbecilidade politica, a unica coisa que ele fara é nos impedir de progredirmos com acordos com os Chilenos, ja que a Bolivia passara a fazer pressao pra ter “seu” litoral de volta. Mas considerando que os Chilenos ja tem acordos melhores com paises que exportam bens sofisticados, pra que entrar no mercosul mesmo…..

      • Zoiodopovo

        Meu caro,o sentido INCA é um sentido figurado, pois de fato a descendência de Evo é Aimara. Na AL antes de Evo tanto os descendentes de incas quanto aimara tem sido secularmente excluídos, mesmo sendo uma maioria. A figura de Evo um sindicalista, um cocalero , agora um presidente recoloca toda esta discussão a mesa. Essa é das tantas lideranças, que tem sido atacadas pela imprensa elitista no Brasil e na AL. A sua postura de defender os interesses do seu país é legítima e quanto a pressão é do jogo. O importante é que seja democrática e que resulte em bons acordos.

        • Bolívar Odebrecht

          Se conhecesse a Bolívia não teria usado esse sentido figurado torto. Bolívianos não se sentem Incas.

  • Diogo

    Que texto é esse ? constrangido deveriam estar os outros presidentes, que seus países vão de mal a pior, Argentina, Brasil e Venezuela possuem governos envolvidos em escândalos, destruídos e quem deve ficar constrangido é o presidente do Paraguai, me poupe! Golpe é conversa, foi um Impeachment, processo constitucional.

  • César Roma

    “Protegidos pelas paredes duras do Palácio do Itamaraty, e pela falta de entusiasmo da mídia…”.
    Pensei que fosse uma convenção da máfia!

  • César Roma

    Desculpem-me, respeito a Bolívia como Estado soberano, mas ela dá relevância ao Mercosul?
    Trilhões de dólares, ou pesos, ou guaranis, ou seja lá o que for às relações comerciais.
    Já podemos “peitar” o G7.

  • César Roma

    Este texto pode propiciar várias piadas, mas elas são datadas.
    Mesmo a contra gosto o governo Dilma já procura parceiros mais saudáveis com os EUA e a união européia.

  • Fernando Falcão Ferraz

    A relevância do MERCOSUL pode ser medida pelo crescimento do PIB e da inflação neste ano no trio dos falidos, Brasil, Venezuela e Argentina, em comparação com o ausente Chile!! Até Cuba busca a aproximação dos EUA!

  • Luís Carlos

    O Mercosul é ótimo para proporcionar viagens internacionais periódicas aos presidentes dos países-membros. Nada mais. Não tem relevância para os países-membros, que dirá para o resto do comércio mundial.

  • Claudio Almeida Dos Santos

    A reunião da cúpula do Lixo!

  • Rafael Barbosa

    Se colocar uma lona em cima vira circo! Reunião inútil desse grupelho bolivariano!

  • João Paulo C Pereira

    “o Mercosul é um dos últimos refúgios dos líderes progressistas”. A vontade foi parar de ler nesse momento. Continuei somente para ver o resto da panfletagem retrógrada e absurda.

  • João Paulo C Pereira

    Como CC tem bloqueado meus comentários, hein?…

    • Bolívar Odebrecht

      Os meus também. Uns 30%.

  • Alex

    O Mercosul é como o Brasil: se perdeu de si mesmo.