Mujica põe em jogo sua popularidade na Colômbia

Já sem a atribulada agenda presidencial para mantê-lo sempre em evidência, o agora senador Pepe Mujica encontra mais tempo para atender os pedidos internacionais. Por isso, terminou a semana passada com uma viagem, primeiro a Havana, e que se estendeu esta semana até Bogotá, atendendo uma solicitação do presidente Juan Manuel Santos para participar das negociações de paz entre o governo colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Mujica tem muito a perder, enquanto Santos só tem a ganhar com a participação do uruguaio nas negociações de paz com as FARC. (Foto: Ministério de Relações Exteriores da Colômbia)

Mujica tem muito a perder, enquanto Santos só tem a ganhar com a participação do uruguaio nas negociações de paz com as FARC. (Foto: Ministério de Relações Exteriores da Colômbia)

As chances desse encontro terminar num pequeno fracasso, e um desgaste desnecessário para a imagem de Mujica, são muito grandes. Ele pode ser um grande líder político, e foi um grande presidente do Uruguai, mas não é um negociador, e não será nada fácil estabelecer uma solução real para um conflito que já dura quase meio século e tem suas características muito peculiares.

A presença de Mujica na Colômbia serve muito para o presidente Santos, que utiliza um político ícone da paz, como o atual senador uruguaio, para promover sua imagem de líder promotor do diálogo e interessado em terminar com o conflito em seu país. Um movimento que serve muito, principalmente depois do confronto recente, que quebrou a trégua entre o Exército colombiano e as FARC, do qual ainda é difícil apontar responsabilidades – e que expõe, na verdade, que nem o Exército nem as FARC estão dispostos a ceder totalmente, o primeiro porque nunca prometeu baixar a guarda, e os segundos, porque, ao que parece, não têm controle sobre todas as colunas, já que algumas dizem que os negociadores não as representam e que pretendem se manter mobilizadas.

Por outro lado, Mujica pode, talvez, ser um conselheiro útil às FARC, especialmente aos grupos que tentam fazer a transição entre a guerrilha e a atuação política em tempos de democracia. Sua história pessoal o habilita para isso: um dos fundadores do MLN-T (Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros), Mujica foi tupamaro numa época em que a guerrilha fazia sentido, na luta contra regimes ditatoriais nascidos no contexto da Guerra Fria e da Operação Condor. Passou doze anos preso numa solitária, e uma vez libertado, foi figura central na transformação do MLN em partido político, o MPP (Movimento de Participação Popular), que forma parte da atual Frente Ampla. Anos mais tarde, ele seria o primeiro deputado, senador, até ser o primeiro ex-tupamaro eleito presidente do Uruguai pela legenda.

Mujica em anos de campanha ao Senado, nos Anos 90, quando MPP se apresentava como a transição do movimento tupamaro ao novo sistema democrático.

Mujica em anos de campanha ao Senado, nos Anos 90, quando MPP se apresentava como a transição do movimento tupamaro ao novo sistema democrático.

As FARC surgiram na mesma época do movimento tupamaro (meados dos Anos 60), mas se mantiveram ativas nas décadas seguintes, e até hoje, insistindo nas mesmas práticas. Há anos carecem de um processo de adaptação aos novos tempos, e para alcançar esse resultado, a relação entre Mujica e as tendências que pretendem constituir uma alternativa de esquerda democrática precisa ir além dos encontros em Havana. Ser, portanto, mais do que aquilo que o presidente Santos pediu a ele. Se as conversas fracassam, os efeitos negativos recairão todos sobre o senador uruguaio. Santos foi hábil ao terceirizar o diálogo, e ao mesmo tempo dizer que Mujica não foi nomeado mediador do conflito, pois ainda assim poderá usá-lo como escudo se as negociações não prosperam, ou atribuir a si os louros de um eventual avanço em direção à paz, ainda que improvável.

Mujica tem muito a perder, a não ser que consiga criar um vínculo permanente e projetar uma solução a médio ou longo prazo, pensando na reestruturação da esquerda colombiana – num país que, hoje, está politicamente dividido entre a ultradireita belicista, representada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, e a direita econômica moderada, liderada pelo atual mandatário.

Caso consiga algum resultado em favor da paz na Colômbia, o staff político de Mujica terá um importante elemento para acrescentar ao projeto que vem sendo trabalhado nos últimos dois anos: sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz. Porém, é justamente nesse projeto onde ele pode acumular mais prejuizos, caso não consiga nenhum avanço comprovado.

  • guilhermenagano .

    Engraçado o apoio da CC às FARC! Reclamam da diminuição da maioridade penal mas não fala nada sobre os narcotraficantes das FARC!

    • Contra a Globo

      Tá mal informado amigo. O tráfico é facilitado pelos homens da Cia baseados na Colômbia.
      Onde os EUA estão presentes o aumento de produção e tráfico de drogas é exponencial .
      Vide Afeganistão e México.

      • guilhermenagano .

        Quem ta mal informado é vc! A presença dos Americanos no Peru é limitada e eles passaram a Colombia em 2013! No caso do Afeganistao não há como discordar a papoula ta rolando solta! O Mexico é mais importante como País de transito do q produtor de drogas (ainda masi quando a maconha esta em processo de legalização), tão longe de Deus e tão perto dos EUA…

      • guilhermenagano .

        Facilitado pelos homens da CIA…depois reclamam da insanidade da direita! Perdeu o argumento!

        • Contra a Globo

          Nunca ouviu falar do caso Irã – Contras, garotinho inocente?

          • guilhermenagano .

            A transferencia de armas do Governo Reagan? Claro! Vou ver o filme! Obrigado!

          • guilhermenagano .

            Vi o filme e pesquisei a denuncia! O próprio jornal admitiu erros na condução da reportagem denunciando a CIA, faltou credibilidade do reporter no final! Esse filme puxa o saco do reporter e tenta apagar os sérios problemas envolvendo essa séria denúncia de tráfico de drogas por parte da CIA! Interessante q o livro Legado de Cinzas q conta os inumeros fracassos da CIA não fala nada sobre caso!

            • Contra a Globo

              Pesquise Michel Levine!
              Tim Weiner faz parte do esquema. E no filme os grandes jornais são pressionados a liquidar o jornalista.

  • Aristocrata dos 7 mares

    Farc = Terroristas!

  • Willian Massumi

    Pelo que transparece da personalidade de Mujica, ele procura simplesmente ajudar na questao da Colombia sem exitar ou se preocupar em por em risco uma candidatura ao nobel da paz

  • Daniel Machado Dacol

    O articulista esta preocupado com o Mujica. Mas o Mujica esta preocupado com a paz.

  • Contra a Globo

    Tá mal informado amigo. O tráfico é facilitado pelos homens da Cia baseados na Colômbia.
    Onde os EUA estão presentes o aumento de produção e tráfico de drogas é exponencial .
    Vide Afeganistão e México.

  • Humberto

    A saída que se tem ventilado há tempos para as FARC é a transformação em partido político, num movimento semelhante aos tupamaros, com insinuou o autor. Seria uma paz possível e um fator de estabilização de toda a América do Sul. Talvez credenciaria Mujica ao Nobel, a depender do seu grau de participação.