Multidão pede renúncia do presidente a quatro meses das eleições na Guatemala

Faltando apenas quatro meses para as eleições presidenciais, a Guatemala vive um clima de instabilidade que deixa de lado a própria campanha eleitoral. No último sábado (16/5), uma grande manifestação se realizou no Parque Central da capital, reunindo 50 mil pessoas que pediam a renúncia do presidente Otto Pérez Molina.

Multidão pede no Parque Central da Guatemala pede renúncia do presidente Otto Pérez Molina (Foto: HispanTV)

Multidão no Parque Central da Guatemala pede renúncia do presidente Otto Pérez Molina (Foto: HispanTV)

Foi o segundo protesto no país em menos de um mês. O primeiro, com cerca de 20 mil participantes, aconteceu no dia 25 de abril, uma semana depois de se descobrir o Caso de La Linea, pelo qual funcionários do Palácio Presidencial gerenciavam um esquema de corrupção, ou “a linha” criada através dos serviços aduaneiros do pais, por onde passava dinheiro empresarial para ser lavado em paraísos fiscais como Belize e ilhas do Caribe.

O caso veio a público no dia 16 de abril, quando a CICIG (Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala), que inicialmente se tratava de uma instância para investigar os casos de violações de direitos humanos ligadas ao narcotráfico, revelou documentos que comprovavam o esquema de corrupção e o envolvimento de Juan Carlos Monzón, que era secretário particular da então vice-presidenta Roxana Baldetti.

Monzón foi acusado de liderar uma rede de diretores da Agência Nacional de Aduanas e da Superintendência de Administração Tributária da Guatemala, através das quais funcionava a “linha” de lavagem de dinheiro. Sua participação no esquema atingia tanto a vice-presidenta, para quem trabalhava diretamente, quanto o presidente Pérez Molina, com quem tinha relação próxima – Monzón é um ex-capitão do Exército que seguiu carreira política apadrinhado pelo ex-general Pérez Molina, ambos formam parte do setor dos ex-militares, com muita força no governista Partido Patriota.

Roxana Baldetti já deu adeus ao cargo, enquanto Otto Pérez Molina se segura na faixa para ela não cair. (Foto: Diário Prensa Libre da Guatemala)

Roxana Baldetti já deu adeus ao cargo, enquanto Otto Pérez Molina se segura na faixa para ela não cair. (Foto: Diário Prensa Libre da Guatemala)

A primeira reação do governo diante da crescente onda de protestos contra a corrupção no país foi errática. Pérez Molina solicitou à Corte Suprema de Justiça para não incluir nem Monzón nem Baldetti nas investigações, com a desculpa de que o esquema passaria somente pelos diretores dos organismos governamentais.

Longe de ajudar, o pedido causou anda mais reações adversas. No dia 9 de maio, Roxana Baldetti renunciou ao cargo, e com isso o governo esperava acalmar os ânimos, mas a manifestação deste último fim se semana, com mais que o dobro de participação da primeira e um pedido claro de “Renúncia Já” do presidente, mostraram que a queda da vice não foi suficiente.

Em discurso discurso em cadeia nacional, realizado nesta segunda-feira (18/5), Otto Pérez Molina garantiu que não irá renunciar, acusou as manifestações de estarem sendo instrumentalizadas com fins eleitorais, e disse que pretende realizar uma reforma política antes de terminar o mandato, mesmo que em meio a um período eleitoral.

Panorama eleitoral

Pérez Molina não foi o único hostilizado na manifestação de sábado. O candidato presidencial Manuel Baldizón também foi lembrado pela multidão – um dos gritos mais entoados no protesto foi o de “Molina y Baldizón, la misma mierda son”.

No entanto, as pesquisas eleitorais posicionam Baldizón, candidato da centro-direita, como o favorito para vencer o pleito em setembro, com possibilidade de faturar já no primeiro turno. Seu apoio varia entre 36% e 43% dependendo do instituto.

A segunda colocada é a ex-primeira-dama Sandra Torres, representante da centro-esquerda. Em 2011, ela era favorita para a sucessão do seu então marido Álvaro Colom, mas foi impedida de concorrer devido a que a lei eleitoral do país proíbe que alguém com vínculo familiar com o ocupante do cargo possa concorrer. Hoje divorciada de Colom – embora ela esteria apta para disputar estas eleições, mesmo se ainda fosse casada –, Sandra Torres aparece em segundo lugar nas pesquisas, com apoio variando entre 20% e 16%. Ainda assim, sua candidatura continua sendo atacada pelos rivais de direita, que pretendem impugná-la com a acusação de ela na verdade teria nascido em Belize.

Logo da convocatória nas redes sociais para o protesto do último sábado, cuja consígna era bastante clara e direta.

Logo da convocatória nas redes sociais para o protesto do último sábado, cuja consígna era bastante clara e direta.

O Partido Patriota rachou após o surgimento do Caso de La Línea, com o empresário Alejandro Sinibaldi agindo rápido para se desvencilhar do escândalo. Semanas atrás, ele criou o Movimento Renovador, um novo partido com claro discurso de direita liberal, deixando o velho PP nas mãos dos ultranacionalistas e conservadores, que devem concorrer com o jornalista Mario García Velásquez.

Nas pesquisas de opinião conhecidas, Sinibaldi aparece com um percentual em torno dos 10%. Porém, todas essas medições ocorreram antes do surgimento do Caso de La Línea, e não medem nem seu rompimento com o PP, nem a nova candidatura de García Velásquez. Tampouco se pode observar os efeitos que a indignação crescente na sociedade guatemalteca terá sobre todos os candidatos e é bem possível que as próximas estatísticas tragam um panorama bastante modificado, com relação ao que se via até o mês de março.