Nixon avisou que ia dar um pé na bunda do Chile, e deu!

Diferente de mim, algumas pessoas ainda se escandalizam com a palavra bunda. Lamento aos que não gostaram dela no título, mas não julguem por isso, julguem o Richard Nixon, porque foi exatamente esse o termo usado por ele para exigir que seus assessores preparassem o golpe contra Salvador Allende.

A frase foi dita em julho de 1971, dois anos antes do bombardeio contra o Palácio de La Moneda, quando o então presidente dos Estados Unidos tomou conhecimento da estatização de toda a extração de cobre no Chile, medida símbolo do governo da Unidade Popular, que obrigou as empresas privadas estadunidenses que atuavam no setor a sair do país.

Allende havia prometido em campanha que iria desenvolver a indústria e impulsar políticas sociais no país através da exploração estatal dos abundantes recursos cupríferos do norte chileno. Dias depois de assinado o decreto da estatização, Nixon perguntou a Henry Kissinger, que naquela época era seu assessor mais próximo no Departamento de Estado:

Kissinger aponta ao chefe onde ele tem que apontar o chute. A dupla atacou vários traseiros latino-americanos, não só o chileno.

Kissinger mostra ao chefe onde ele tem que apontar o chute. A dupla atacou vários traseiros latino-americanos, não só o chileno.

– Viu isso aqui?

– É… vi sim – teria respondido Kissinger, fazendo uma pausa enquanto lia um artigo do New York Times a respeito.

– E tem algo preparado para isso? Fala para o (Alexander) Haig, o filho da puta mais durão que você tem, para trabalhar no caso. É hora de dar um pé na bunda do Chile.

O diálogo foi exatamente assim, com esses mesmos termos, ou pelo menos assim ele está descrito em um dos 366 documentos confidenciais que foram desclassificados e colocados à disposição do público pelo Departamento de Estado nesta sexta-feira (23/5).

Os documentos revelam mais detalhes de um enredo já conhecido: como o governo dos Estados Unidos atuou no Chile desde 1969, primeiro tentando evitar a vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais, depois tentando desestabilizar o seu governo, e finalmente planejando o golpe que instalaria no país a ditadura de Augusto Pinochet.

Em outro dos documentos agora revelados, o Departamento de Estado identifica o general Alfredo Canales como o agente que trabalhou como colaborador da CIA para conseguir apoio ao golpe entre o alto mando militar chileno.

Em março de 1972, segundo o relato, Canales afirmava que 80% dos oficiais já haviam sido convencidos, e que faltavam apenas os comandantes mais próximos e mais leais a Allende. Um relatório realizado semanas depois fazia a descrição desses chefes militares, e apontava Pinochet como “o de fidelidade mais quebrantável”.

Um fetiche nixorável

Um fetiche nixorável.

Pinochet era o segundo em comando dentro do Exército chileno. O golpe dentro das Forças Armadas começou a ser engendrado com a perseguição ao seu superior, o comandante-chefe Carlos Prats. Após dois atentados contra Allende (em março e em junho de 1973) e uma série de questionamentos à sua liderança, Prats abandona o cargo duas semanas antes do golpe. Ao assinar a renúncia, recomenda a Allende nomear Pinochet em seu lugar. Prats o considerava um militar profissional e apolítico.

Tanto Allende quanto Prats pagariam com a vida pelo erro de confiar no homem errado. O presidente morreria durante o bombardeio ao palácio presidencial, no dia 11 de setembro de 1973. O general foi assassinado em setembro de 1974, em um atentado a bomba em Buenos Aires realizado por Michael Townley, um agente da CIA.

Lembranças dos tempos em que os Estados Unidos adoravam desestabilizar governos democráticos na América Latina – e quem sou eu para afirmar que eles perderam o gosto pela brincadeira.

  • DANILO MENEZES

    TRISTES TEMPOS EM QUE A AMÉRICA LATINA VIVIA CONSTANTEMENTE SOB O TACÃO AMERICANO, TENDO GOVERNOS LEGITIMAMENTE ELEITOS APEADOS DO PODER POR GOLPES ENGENDRADOS PELA CIA E DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA! HOJE PROCURA-SE A DOMINAÇÃO ECONÔMICA COMO MEIO DE CONTROLE E SUBJUGAMENTO! A REJEIÇÃO DA ADESÃO DO BRASIL A ALCA E A DECISÃO DE DILMA DE MUDAR O REGIME DE EXPLORAÇÃO DO PRÉ-SAL, PASSANDO DE “CONCESSÃO” PARA “PARTILHA”(MUITO MELHOR PARA O PAIS DETENTOR DAS JAZIDAS), CERTAMENTE “INCOMODA” E GERARIA “RESPOSTAS” BEM HETERODOXAS SE FOSSE EM TEMPOS OUTROS!

    • Ricardo

      Para seu gov: Lula nos livrou do Alca. Dilma (cavalo de troia de Washington) vai nos meter no TPIP, o acordo comercial Trans Pacific (Europa-EUA) q é 100x pior q o Alca com Acta junto! Aquela Dilma é lobo em pele de cordeiro.

  • Durvaldisko

    Nixon não existe mais.Allende e Pinochet,partiram deste mundo ,distintamente de suas vocações,o civil em combate o militar consumindo o butim da partilha do poder.
    Os EUA,no entanto, continuam ai firmes e” são de lombo”, sem abandonar jamais seus instintos predadores.Conforme ditado gaúcho,”cachorro comedor de ovelhas,só matando”…

  • Kennedy e Johnson deram um chute na bunda do Brasil, da Argentina e no resto da America Latina… e deixou o chute final para o Nixon, pois só tinha sobrado o CHILE p’ra ser mandado p’ra pqp. Todo mundo já sabe disso de velho.

    • Demétrio

      E no Vietnã também. Aí que a carnificina foi grande!

  • jair almansur

    O Allende nomeou pinochet. O Lula nomeou os barbosas.

  • Geraldo

    Os comentários são excelentes, exceto o último. Mas gostaria de externar o meu ponto de vista sobre esse momento da história da nossa Latina América. Sobre Nixo, não há nada para comentar, pois é sabido como terminou o seu governo. Já sobre o alemão erradicado nos EUA chamado Henry Kissinger, vale lembrar que ele não honrou o seu premio Nobel da paz, foi foi um contsrutor de guerras. Há uma frase dele que diz: “se os Estados Unidos quiserem manter seu padrão de vida, seu modo de vida assim, temos que nos apossar de todos os recursos possíveis”. Certamente ele falava de petróleo, de cobre no caso do Chile e tudo mais que pudesse servir ao consumismo estadounidense.

  • Tamosai

    Esse tipo de intervenção desestabilizadora não acabou. Só ficou mais sutil. Hoje usa-se espionagem eletrônica, propaganda disfarçada de notícia via “grande” mídia, financiamento a ONGs com agenda inconfessável e mídias sociais para atingir os mesmos objetivos de forma mais “asséptica”.

  • borsone

    edita e coloca o link da fonte ou a bibliografia. grato

  • Elias

    Grande Nixon, ainda nos alinharemos com os USA e países desenvolvidos novamente, essa esquerda toda vai falir toda America Latina que já está falida em pouco tempo, esse grupelho de países autoritários de esquerda que admiram genocidas não irão durar para sempre, a própria Cuba já está se tornando livre comercialmente.

  • Marco Rocha

    Cheira Bunda de americano !!!