O calvário de Manuel Noriega

“Durante os últimos dias, eu tenho estado pensando comigo mesmo, conversando com a minha família, refletindo junto com a Igreja, e considerei oportuno fazer esta declaração ao país, devido aos novos tempos que vivemos. Terminando o ciclo da era militar, como o último general dos que comandou o país, pedindo perdão, como chefe militar e de governo. Peço perdão a todas as pessoas que tenham se sentido ofendidas, afetadas, prejudicadas ou humilhadas pelas minhas ações, pelas dos meus superiores, em tempos anteriores ao do meu governo, ou as dos meus subalternos, posteriormente”.

Essas foram as palavras do ex-ditador panamenho Manuel Noriega, na noite desta quarta-feira (24/6), em transmissão exibida pelo canal Telemetro, do Panamá. O que era para se uma entrevista terminou sendo basicamente uma declaração e nada mais, já que o apresentador tentou continuar a conversa com perguntas ao ex-general, sobre seu arrependimento e que gesto faria aos familiares das vítimas, como a do ex-líder opositor Hugo Spadafora, mas se encontrou com a firme resistência do militar em responder o que fosse – “para não trair a solenidade do meu ato de hoje”, segundo ele.


Trecho da entrevista em que Noriega faz a declaração pedindo perdão. A entrevista na íntegra (neste link) mostra ele esquivando perguntas, o que denota a estratégia em busca de liberdade.

prisão

Manuel Noriega após ser condenado a 40 anos de prisão pela Justiça dos Estados Unidos, em 1992.

Noriega está preso desde janeiro de 1990, após a invasão estadunidense no país iniciada quando a disputa pela soberania do Canal do Panamá levou o ditador uma guerra kamikaze contra os Estados Unidos, nas últimas semanas do ano anterior. O conflito não durou mais de duas semanas.

Noriega ficou preso nos Estados Unidos por 20 anos. Em 2010, foi extraditado para a França, e no ano seguinte, voltou ao Panamá, onde continua cumprindo sua sentença de 40 anos de prisão. Contudo, o regresso ao país natal também permitiu à família iniciar uma série de ofensivas visando a libertação do ex-militar, ou o benefício de prisão domiciliar, alegando bom comportamento e, ironicamente, razões humanitárias, devido à sua idade avançada – ele tem 81 anos e um estado de saúde delicado, devido a um quadro de hipertensão arterial agravado depois de três acidentes vasculares cerebrais.

O pedido de perdão parece ser mais uma dessas estratégias. Partidários do general, como Mario Rognoni – que foi seu assessor no governo –, pedem que ele “seja tratado com um réu comum, e que possa ter os benefícios que são dados a qualquer presidiário octogenário, e que sofre os problemas de saúde que ele apresenta.

A manobra é parecida a que tentou outro ex-ditador preso: o peruano Alberto Fujimori. Em 2012, ele buscou mobilizar a opinião pública a favor de um possível indulto através de um quadro pintado por ele, que trazia a mensagem “perdão por aquilo que eu fiz e por aquilo que não pude evitar”. Mas a jogada não funcionou, e ele continuou cumprindo pena em uma prisão de luxo especial para ele, onde conta com longo jardim, classes de pintura e acesso a um telefone público, com o qual costuma ligar com alguma frequência para emissoras de rádio amigas, participando de programas ao vivo.

A pintura com a que Fujimori tentou sair da cadeia. Não funcionou.

A pintura com a que Fujimori tentou sair da cadeia. Não colou.

Noriega não possui tantos benefícios, embora esteja numa penitenciária para presos comuns. Também conta com muito menos apoio, já que as consequências sofridas no Panamá durante as duas décadas de ditadura e as duas semanas de guerra com os Estados Unidos o deixaram completamente abandonado do ponto de vista político – diferente do ex-ditador peruano, que deposita esperanças em sua filha, Keiko Fujimori, quase eleita presidenta em 2011, uma das favoritas na corrida para 2016, e ninguém duvida que o indulto ao pai faz parte da sua agenda.

A liberdade de Noriega só passou a ser uma possibilidade quando os Estados Unidos deixaram de considerá-lo importante. Quando a ditadura panamenha começou, em 1968, contou com apoio dos Estados Unidos. O primeiro ditador foi Omar Torrijos, militar com formação na Escola das Américas. Sua orientação não era tão anticomunista como se gostaria, chegando inclusive a se aproximar de Fidel Castro em meados dos Anos 70, mas a abertura a medidas econômicas liberais nos Anos 70 – as que, implantadas aos poucos, terminaram transformando o país num paraíso fiscal – eram suficientes para justificar esse apoio.

Porém, a ofensiva pela recuperação do canal mudaram a visão estadunidense sobre ele. Em 1977, Torrijos chega a um acordo com então presidente ianque Jimmy Carter sobre o tema. O Tratado Torrijos-Carter estipulou a cessão da soberania sobre o canal aos panamenhos no primeiro dia do ano 2000. Ali começou a ofensiva dos republicanos contra o ditador, que tentaram impedir aprovação do acordo no Senado estadunidense – estratégia que Torrijos teria respondido com ameaças de sabotagem ao canal. Ali começa a participação de Manuel Noriega, o então general que teria informado os Estados Unidos sobre as possíveis represálias.

Noriega Bush

Noriega e Bush pai, nos tempos em que eram amigos. Em 1989, quando o panamenho declarou guerra aos Estados Unidos, Bush era o presidente ianque.

Mas Torrijos seria um obstáculo a menos em 1981, quando morreu num estranho avião que explodiu em pleno voo. Meses depois, Noriega assumiu o seu lugar como líder da chamada “revolução panamenha”. Pouco depois de assumir o poder, em 1983, o ditador teve sua nomeação questionada pelo Senado estadunidense, e quem o defendeu na ocasião foi o então diretor da CIA, William Casey, quem disse que o general “realizava tarefas importantes para o governo norteamericano”.

As polêmicas envolvendo a relação entre Noriega e os Estados Unidos são muitas, além das já citadas acimas e as relatadas no livro “Confissões de um Assassino Econômico”, do economista John Perkins, afirmando que os Estados Unidos foram responsáveis pela morte de Torrijos e que Noriega havia sido um dos conspiradores, participando diretamente da ação de sabotagem do avião.

Essa aparente proximidade também se reforçou pela postura mais claramente anticomunista do novo ditador, mas logo passou a se deteriorar, e mais rapidamente que no caso de Torrijos. Em 1984, o Panamá ordenou o fim das atividades da Escola das Américas no país. A entidade é conhecida por formar militares latinoamericanos com uma forte carga ideológica de direita e de ojeriza a movimentos sociais e políticos de esquerda – décadas antes, o próprio Noriega recebeu treinamento na instituição, durante o período em que se iniciou o vínculo com a CIA, o que depois lhe renderia a defesa feita por Casey diante do Congresso dos Estados Unidos.

Torrijos Noriega

Noriega seguindo os passos de Torrijos, antes de substituí-lo. Ditaduras contíguas, mas que depois seguiram rumos distintos.

Nos anos seguintes, os Estados Unidos passou a acusa Noriega de ligação com o narcotráfico, enquanto o ditador avançava em sua campanha por adiantar a recuperação do Canal do Panamá. Movido pela obsessão roubar de Torrijos os méritos ela reconquista da soberania no canal, Noriega chegou ao cúmulo de desafiar a maior potência militar do planeta.

As duas semanas em que durou a invasão estadunidense produziram quase tantas mortes quanto as duas décadas de ditadura, e não vitimou apenas opositores, mas sim milhares de panamenhos das regiões, principalmente das zonas pobres bombardeadas na capital do país. A ação militar devastou o país e destruiu Noriega de diversas formas. Não havia forma de defendê-lo, nem dentro nem fora do Panamá, nem mesmo a direita militarista se arrisca a defendê-lo. A mesma Miami que serviu de refúgio de diversos tipos de apoiadores dos Estados Unidos no continente, para ele foi, durante 20 anos, uma prisão sem benefícios.

Com o pedido de perdão, a família tenta conseguir para ele um último benefício, um final de vida como o que teve o chileno Augusto Pinochet, que nunca foi condenado, e não como o do argentino Jorge Videla, que morreu na prisão.

  • castro carvalho

    Assim têm agido os EUA (estado bandido) em TODO o
    MUNDO, CORROMPE os VEDEM-PÁTRIAS, suga as RIQUEZAS do PAÍS e depois os ABANDONA.

  • Raimundo Henriques

    Nenhuma ditadura que vive a explorar o povo pobre ou dando migalhas, tem a mínima condição de fazer frente a uma potência invejada pela maioria do planeta. Ditadores de plantão abram o olho! Nenhum pais latino americano condenou a invasão…a prova

  • Hamilton Mendes

    Tudo bem que Noriega (a exemplo de muitos ditadores de republiquetas) cometeu inúmeros crimes contra seu próprio Povo mas, nesse caso, claramente a responsabilidade pelas mortes de panamenhos inocentes em sua deposição deveria ser no mínimo partilhada com os EUA …

  • Zoiodopovo

    O destino dos aliados americanos dos tempos de guerra é o mesmo que foi dado ao Bin Laden, amigo da CIA. Atualmente, os EUA combatem a turma da Primavera Arabe, chamado EI. E a democracia do império cobrando a conta dos antigos colaboradores.

  • iMarx

    Os panamenhos estao felizes com ele preso. Nunca houve um simples protesto para liberta-lo.