O chavismo na berlinda neste domingo

O chavismo encara neste domingo seu pleito mais duro. A eleição das deputadas e deputados que ocuparão as 165 cadeiras da Assembleia Nacional, a única instância legislativa do país definirá vários cenários que poderiam revelar o futuro político do país.

Claro que o mais importante é a conformação da Assembleia em si. Atualmente, a coalizão governista GPP (Grande Polo Patriótico), detêm 100 dessas vagas, uma maioria importante, que lhe permite aprovar boa parte dos projetos. A aliança de oposição MUD (Mesa de Unidade Democrática) detém as outras 65, pouco mais de um terço.

A oposição venezuelana tem duas missões neste domingo: ganhar cadeiras suficientes para obstruir o governo de maduro e uma quantidade de votos que tornem viabilizem um plebiscito contra Maduro em 2016. (foto: AFP)

A oposição venezuelana tem duas missões neste domingo: ganhar cadeiras suficientes para obstruir o governo e uma quantidade de votos que tornem viabilizem um plebiscito contra Maduro em 2016. (foto: AFP)

Para conseguir uma vitória, a direita opositora não precisa necessariamente de uma grande maioria. Se conseguir uma cadeira de vantagem, terá o suficiente para obstaculizar o governo de Nicolás Maduro – e ainda que tenha menos, mas consiga diminuir a diferença que existe hoje, poderá dizer que não foi de todo uma derrota.

Já os chavistas têm sim muito a perder. Primeiro, precisam manter a maioria, mesmo que com menos cadeiras a mais que antes. Mas, principalmente, essa maioria precisa se estabelecer com uma maioria importante de votos, e esse é o segundo desafio destas eleições.

Apesar das conhecidas e muitas vezes infundadas críticas à democracia venezuelana, ela é uma das que possui mais instâncias de participação popular na América Latina e no mundo. Este blog já falou diversas vezes no mecanismo do referendo revogatório, para o qual basta um documento protocolado pela oposição ou por um grupo social organizado na metade do mandato para que o presidente tenha que se sujeitar a um plebiscito sobre se deve ou não continuar no poder.

Pois bem, Maduro chegará à metade do seu mandato em abril de 2016, e a partir de então essa passa a ser uma possibilidade real. As eleições legislativas deste domingo serão o termômetro que medirá o quanto mais de realidade ela pode ter. Uma boa votação a favor da direita será lida também como um sinal de pouco apoio político da sociedade para com o atual presidente, e próprio chavismo como fenômeno político poderia entrar em crise – se é que já não está.

As pesquisas de opinião apontam vantagens para a oposição no eleitorado – maior ou menor, dependendo de quão antichavista seja o meio que a divulga, e quem conhece de verdade a Venezuela sabe que a grande maioria dos meios é antichavista, diferente do que a grande imprensa e a oposição brasileira dizem. Isso não significa necessariamente que o chavismo perdeu sua força, ou sua capacidade de conseguir um triunfo.

O grande desafio do GPP nesta eleição é o de voltar a entusiasmar o eleitorado chavista. O voto na Venezuela é voluntário, e embora a oposição tenha conquistado corações nos bairros mais pobres, a grande maioria dos que melhoraram de vida nos últimos 17 anos ainda são potenciais eleitores da esquerda. Porém, boa parte desse público se sente frustrado com as últimas crises que o país tem enfrentado, e principalmente com as respostas erráticas em temas econômicos.

Por sua parte, o desafio do chavismo é manter a fé das classes baixas no projeto socialista iniciado em 1998. (foto: AFP)

Por sua parte, o desafio do chavismo é manter a fé das classes baixas no projeto socialista iniciado em 1999. (foto: AFP)

Se na primeira vitória eleitoral de Maduro, em 2013, o eleitorado mais vulnerável o via como o substituto natural de Hugo Chávez, agora a percepção de muitos é a de que o atual presidente não tem a mesma sensibilidade do antigo caudilho na hora de lidar com as crises econômicas – ele também culpava o empresariado conservador e os interesses estrangeiros pelas crises, mas não somente isso, tomava medidas rápidas e eficientes para evitar ou diminuir os efeitos delas sobre as classes baixas.

Além do talento político, Maduro tampouco tem o mesmo carisma e a mesma liderança política interna que tinha Chávez. Dentro da aliança governista, e especialmente do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), a morte do ex-presidente deixou em evidência as diferenças entre os diversos grupos, às que Maduro, diferente do seu mentor, não tem sido capaz de conciliar.

Ainda assim, o presidente e sua aliança conseguiram uma trégua interna nos últimos meses, para que as desavenças não afetassem o potencial eleitoral da esquerda e impulsaram medidas como a inauguração de novas moradias e de supermercados populares, que visam enfrentar os problemas de desabastecimento.

O resultado que as urnas entregarão neste fim de semana vai dizer se esse esforço foi suficiente, ao menos para conseguir uma vitória com pequena maioria, insuficiente para conter o entusiasmo da oposição para novas investidas – como o referendo revogatório – mas que impediria maior obstaculização do governo por parte da direita.