O desafio de Macri

Mauricio Macri tem um desafio neste domingo: levar a eleição argentina a um segundo turno pela primeira vez na história. É verdade que a eleição de 2003 tinha um segundo turno previsto entre Carlos Menem e Néstor Kirchner, o que não aconteceu devido à desistência do primeiro uma semana antes.

Mauricio Macri indica o caminho, sonhando com que ele não termine neste domingo. (Foto: Infobae)

Mauricio Macri indica o caminho, sonhando com que ele não termine neste domingo. (Foto: Infobae)

Algo que não vai acontecer desta vez. Macri se preparou para isso durante vinte anos. Primeiro como presidente do Boca Juniors, cargo com o qual tentou se aproximar das classes populares argentinas. Depois, como prefeito da cidade de Buenos Aires, onde colocou em prática todo o discurso da nova direita latino-americana, e virou a figura política preferida da elite e da classe média.

Em 2011, quando já era o principal político da oposição ao kirchnerismo, Macri desistiu de competir contra Cristina. Segundo ele, para se dedicar ao compromisso com os eleitores da capital, embora alguns analistas acreditem que a razão foi evitar o desgaste de uma derrota contra sua principal rival, que possuía altíssima popularidade – tanta que ela venceu aquela eleição no primeiro turno, com 54% dos votos.

Como prefeito, Mauricio Macri trabalhou em sua imagem de símbolo de uma direita de discurso renovado, mas defendendo as mesmas ideias de sempre, especialmente no plano econômico.

Enquanto o governo federal argentino apostou na renacionalização de empresas estratégicas – como a petroleira YPF e as Aerolíneas Argentinas, além da reativação das ferrovias e até mesmo na estatização das transmissões futebolísticas –, a gestão de Macri privatizou o metrô, serviços básicos como o recolhimento de lixo e a reciclagem, além diversos edifícios e terrenos pertencentes ao município.

Os sete anos de sucessos futebolístico na presidência do Boca Juniors, entre 1995 e 2002, foram o propulsor da carreira política de Macri.

Os sete anos de sucessos futebolístico na presidência do Boca Juniors, entre 1995 e 2002, foram o propulsor da carreira política de Macri.

Uma política que agrada o eleitor da Cidade de Buenos Aires – e por isso ele teve dois mandatos de sucesso –, mas não os do resto do país, especialmente os da Província de Buenos Aires, que considera as cidades que cercam a capital, e que configuram o maior colégio eleitoral da Argentina. Por isso, Macri lançou um estranho discurso estatista na primeira fase da campanha, uma postura que soou mais ou menos como José Serra e Aécio Neves garantindo que continuariam os programas sociais do PT em seus hipotéticos governos.

Não convenceu muita gente, por isso ele abandonou essa tática depois das primárias, e voltou ao que é sua especialidade: voltou a falar em privatizações estratégicas, em ajustes necessários para a retomada do crescimento, em otimização do Estado, e disse numa entrevista para a televisão que Carlos Menem foi “o grande reconstrutor do país” – uma jogada arriscada, já que o responsável pelas privatizações nos Anos 90 não é atualmente uma figura que puxe muitos votos a favor, e, pelo contrário, pode contagiar com sua grande rejeição.

Também abraçou o discurso da segurança e do combate ao narcotráfico, ao estilo do seu principal aliado internacional, o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. Outra manobra que, pragmaticamente falando, tem impacto discutível. É verdade que o problema da segurança pode ser transversal, pode comover tanto a elite ansiosa por proteger a propriedade privada – e que já votará em Macri, independente do discurso – quanto as classes populares, que sonham com o fim da violência nos bairros e nas periferias. O problema é que os argentinos das classes baixas urbanas não confiam na polícia, não tiram selfie com policiais e desconfiam das propostas de aumento da dotação das forças de segurança.

A relação com Domingo Cavallo, ministro responsável pelas privatizações da Era Menem (ou o Pedro Malan argentino), é de amizade e sintonia ideológica.

A relação com Domingo Cavallo, ministro responsável pelas privatizações da Era Menem (ou o Pedro Malan argentino), é de amizade e sintonia ideológica.

Consciente disso, Macri focou sua proposta em outros pontos, como o aumento do controle nas fronteiras, algo que poderia gerar conflitos diplomáticos, talvez não com o Brasil, mas principalmente com a Bolívia – sempre escolhida como alvo nesses casos –, e talvez com o Uruguai, cuja política de descriminalização da maconha se tornou o principal argumento contra a doutrina da guerra às drogas.

Discursos à parte, a missão de Mauricio Macri é medianamente difícil, e tudo passa por conseguir uma derrota com sabor de vitória neste domingo. Superar a marca dos 30% dos votos daria ao candidato conservador grandes chances de levar a disputa presidencial a um segundo turno. O objetivo, basicamente, é fazer com que a diferença com Daniel Scioli seja de menos de 10% – caso contrário, o governista estará eleito.

No caso de se produzir um segundo turno, as chances de Macri aumentam significativamente, e dependerão de sua capacidade de reunir o apoio dos candidatos que ficarem pelo caminho – todos eles inimigos declarados do kirchnerismo, em maior ou menor grau.