O jogo mais importante de todos os tempos

Poucos brasileiros são capazes de entender porque os argentinos se atrevem a dizer que Maradona é maior que Pelé, já que nossa crença na superioridade do nosso craque – certamente legítima – se baseia em números que o baixinho deles não chega nem perto. Parte dessa incredulidade se dá porque não sabemos o que é a dor de uma derrota numa guerra.

Por isso não temos a noção, que todo o resto do mundo, acostumado às guerras e suas consequências, tem. A dimensão da vitória da Argentina naquele 22 de junho de 1986, quatro anos depois da derrota sofrida pelos mesmos argentinos na Guerra das Malvinas. Aquele foi mais que um jogo de futebol, e talvez por isso, e porque Maradona fez daquela a sua grande obra prima futebolística, terminou sendo o maior jogo de futebol de todos os tempos.

Maradona deixa o time inteiro da Inglaterra para trás, e se prepara para fintar o goleiro e entrar para a história.

Maradona deixa o time inteiro da Inglaterra para trás, e se prepara para fintar o goleiro e entrar para a história.

Mas quem melhor define o que sentem os argentinos a respeito daquele jogo é o escritor Eduardo Sacheri – autor do livro homônimo que deu origem ao filme “O Segredo dos Seus Olhos”. Dez anos depois daquela partida história, Sacheri escreveu esta crônica, que reproduzimos aqui. Porque hoje, aqueles dois gols inesquecíveis completam trinta anos, e aqueles sentimentos narrados pelo escritor continuam vigentes na alma da grande maioria dos argentinos.

Vocês terão que me desculpar
Por Eduardo Sacheri

Vocês terão que me desculpar. Sei que um homem que pretende ser cidadão de bem deve se comportar segundo certas normas, aceitar certos preceitos, adequar seu modo de ser a determinadas estipulações aceitas por todos. Sejamos mais explícitos. Se quer ser um sujeito coerente, deve medir sua conduta e a dos seus semelhantes, sempre com o mesmo critério. Não pode haver exceções, do contrário bastardeia seu juízo ético, sua consciência crítica, seu critério legítimo.

Sei que não devo andar pela vida reprovando os seus rivais e justificando os amigos somente por serem rivais e amigos. Tampouco sou tão ingênuo para supor que posso dissimular meus afetos e paixões, que os humanos possuem a idoneidade suficiente para sacrificar o que sentem no altar da imparcialidade impoluta. Digamos que eu vou por aí, tentando não me desviar do caminho correto, e que os amores e os ódios não alterem irremediavelmente a lógica.

Mas vocês terão que me desculpar, senhores. Há um sujeito com quem eu não posso. E olha que eu tento. Insisto em dizer a mim mesmo: não pode haver exceções, não deve haver. E a desculpa que quero de vocês é ainda maior, porque o sujeito de quem falo não é um bem feitor da humanidade, nem um santo varão, nem um valente guerreiro responsável por consolidar a integridade da minha pátria. Não, nada disso. O sujeito tem uma atividade muito menos importante, muito menos transcendente, muito mais profana. Vou adiantar a vocês que o sujeito é um esportista. Imaginem só, senhores. Já escrevi duzentas e cinquenta e duas palavras sobre os critérios éticos e suas limitações, e tudo isso por um simples cavalheiro que ganha a vida chutando uma bola.

Vocês poderão dizer que isso torna a minha atitude ainda mais reprovável. Talvez tenham razão. Talvez por isso iniciei estas linhas me desculpando.

Não obstante, e apesar de tenho bem clara essa situação, não posso mudar minha atitude. Não posso me sentir capaz de julgá-lo com o mesmo critério com o que julgo o resto dos seres humanos. Eu sei que ele não é um pobre garoto saturado de virtudes. El tem muitos defeitos, talvez tantos defeitos como quem escreve estas linhas, ou como os que mais têm. Para este caso, dá no mesmo, pois apesar de tudo, senhores, continuo sendo incapaz de julgá-lo. Meu discernimento se detém diante dele, e o dispensa.

Não é um capricho, um cuidado exagerado. Não é um simples desejo. É algo um poco mais profundo, se me permitem qualificá-lo desse modo. Serei mais explícito: eu o desculpo porque sinto que lhe devo algo. Lhe devo algo e sei que não tenho como pagar. Ou talvez esta seja a peculiar moeda que eu encontrei para pagar-lhe. Digamos que minha dívida moral se resigna ao hábito de evitar sempre qualquer eventual reprovação.

Cuidado, pois ele não sabe disso. Meu pagamento é absolutamente anônimo, como anônima é a dívida que conservo. Digamos que ele não sabe que lhe devo, e ignora os ingentes esforços que faço uma e outra vez para pagar.

Por sorte, ou por desgraça, a oportunidade de exercitar este hábito se apresenta frequentemente. É que falar dele, entre os argentinos, é quase um esporte nacional. Para elevá-lo até a estratosfera, ou para condená-lo à fogueira perpétua dos infernos. Nós argentinos, ao que parece, gostamos de convocar seu nome e sua memória. É aí que eu tento ser mais sério, de opinar com certo distanciamento, mas não consigo. O tamanho da minha dívida se impõe sobre mim. E quando me convidam para falar, prefiro esquivar o caso, mudar de tema, ceder minha vez de opinar na ágora do café da tarde. Não se trata tampouco de me colocar no bando dos eternos bajuladores, nada disso. Evito tanto os elogios superlativos e rimbombantes como os dardos envenenados e traiçoeiros. Além do mais, já vi, com o tempo, como mais de um do bando dos inquisidores se mudava ao dos aplaudidores incansáveis, e vice-versa, como se fosse o mais natural do mundo. Por certo, ambos bandos me parecem absolutamente detestáveis.

Por isso eu fico calado, ou mudo de tema. E quando, às vezes, algum amigo não me permite, porque me encurrala com uma pergunta direta, que invade o ambiente e leva especificamente o meu nome, eu tomo ar, faço que penso e digo alguma bobagem, ao estilo “ih, não sei, teria que pensá-lo”, ou talvez arrisco um “sei lá, são tantas coisas para pensar”. É que tenho pudores demais, e evito me expor como faço por aqui. Sou incapaz de condenar os meus amigos ao tórrido suplício de escutar meus argumentos e minhas justificativas para eles.

Para começar, tenho que dizer que a culpa de tudo isso é do tempo. Isso mesmo, o tempo. O tempo que se empenha em transcorrer, quando às vezes deveria permanecer se congelar. O tempo que sempre nos faz a sacanagem de destruir os momentos perfeitos, imaculados, inesquecíveis, completos. Porque se o tempo parasse ali, imortalizando os seres e as coisas em seu ponto justo, nos livraria dos desencantos, das corrupções, das ínfimas traições tão próprias dos mortais. E, na verdade, é por esse caráter tão defeituoso do tempo que eu me comporto como agora. Como quem busca uma forma de curar, com meus modestos alcances, essas barbaridades injustas que o tempo nos faz sofrer. Em cada ocasião que mencionam seu nome, em cada oportunidade na qual me convidam para adorá-lo ou difamá-lo, eu abandono este presente absolutamente profano, e com a memória que o ser humano conserva para os fatos essenciais, regresso àquele dia, ao dia inesquecível em que me vi obrigado a selar este pacto que até hoje mantinha em segredo. Minha memória é o passaporte para voltar no tempo ao lugar cristalino do qual não deveria ter se movido, porque e o momento mais exato, o que merecia se deter para sempre, pelo menos para o futebol, para ele, e para mim.

Porque a vida é assim, conspirando vez ou outra para produzir momentos como esse. Instantes depois, nada volta a ser como era. Porque não pode. Porque tudo mudou demais. Porque algo entrou, por nossas peles, por nossos olhos, algo do qual nunca vamos conseguir nos livrar. Aquela manhã foi como qualquer outra. O meio-dia também. Começa a tarde, aparentemente, como tantas mais. Uma bola e vinte e dois marmanjos. E outros milhões de pessoas roendo as unhas de tensão diante da tevê, espalhados entre os pontos mais distantes do planeta.

Mas calma, que essa tarde é diferente. Não é mais um jogo. Melhor dizendo: não é só mais um jogo. Há algo mais. Há muita raiva, e muita dor, e muita frustração acumulada em todas essas pessoas que olham pelo televisor. São emoções que não nasceram pelo futebol. Nasceram no outro lado. Num lugar muito mais terrível, muito mais hostil, muito mais irrevogável. Mas para nós, os daqui, não resta outra senão responder num campo de futebol, porque não temos outro lugar, porque somos poucos, porque estamos sozinhos, porque somos pobres. Mais aí está o campo de futebol, onde é nós ou eles. E mesmo que seja a nossa vez de triunfar, a dor não vai desaparecer, nem a humilhação vai terminar. Mas são eles ganham… ah, se eles ganham de novo, a humilhação vai ser ainda maior, mais dolorosa, mais intolerável. Teremos que olhar um para o outro, sofrendo em silêncio. “Percebem que nem aqui, nem mesmo aqui nós pudemos vencer”. Aí estão os outros caras. Os onze nossos e os onze deles. É futebol, mas é muito mais que futebol. Porque quatro anos é pouco tempo, não dá tempo de fechar as feridas e aliviar a dor, ou conter a raiva. Por isso não é só futebol.

E com semelhantes antecedentes de tarde tormentosa, com semelhante prólogo de tragédia, aparece esse sujeito e se instala para sempre no panteão dos nossos heróis. Porque se impõe diante dos contrários, para humilhá-los. Porque é capaz de roubá-los. Porque os afana diante dos seus olhos. E ainda que isso seja pouco, porque está trocando este pequeno afano por outro afano muito maior, pelo infinitamente mais doloroso e ultrajante. Porque embora nada nessa jogada mudará a realidade, pouco importa, porque lá estarão eles, em suas casas, em suas ruas, em seus pubs, querendo comer os televisores de pura rabia, de pura impotência, porque o sujeito saiu correndo olhando para o árbitro de soslaio, enquanto esse caia no truque e apontava o centro do campo.

Somente aí, já se havia feito história. Já parecia suficiente. Porque roubamos algo àqueles que nos afanaram primeiro. E eu sei que o roubo que sofremos dói muito mais, e ainda assim posso tripudiar, porque isso lhes dói igual. Mas teve mais. Quando todos já nos dizíamos, “é suficiente, me dou por satisfeito”, teve mais. Porque o sujeito, além de malandro, é um artista. É muito mais que os demais.

Ele é capaz de arrancar desde o seu lado campo, para que não reste dúvidas de que o que está por fazer jamais foi feito antes. Ele vai de azul escuro, mas vai com a bandeira, a leva numa das mãos, embora ninguém a veja. E assim começa a desparramá-los para sempre. Um drible, outro, e ele vai liquidando um por um, gingando no compasso de uma canção que eles, pobres idiotas, não entendem. Não sentem a música, mas sim um certo sabor amargo, algo que avisa a eles que o fim está próximo. E o sujeito continua avançando, para que eles continuem não acreditando, para que não se esqueçam nunca. Para que lá longe, as pessoas nos pubs joguem longe a caneca de cerveja ou qualquer outra coisa que tenham nas mãos. Para que se terminem todos com a boca aberta e cara de otário, pensando que não, que aquilo não vai, não pode suceder, que alguém vai interromper tudo e evitar que aquele moreninho vestido de azul e de argentino não vai entrar na área com a bola mansinha à sua mercê, que esse alguém vai fazer algo, antes que ele dê o corte no goleiro e empurre a bola com aquela facilidade humilhante, que algo por favor tem que acontecer para pôr ordem na história, e que as coisas sejam como Deus e a rainha mandam, porque o futebol tem que ser como a vida, onde os que têm que ganhar ganham, e os que sempre têm que perder perdem. Incrédulos, um pedindo ao outro que o desperte daquele pesadelo, mas não tem jeito, porque nem mesmo quando o sujeito lhes oferece uma fração de segundo a mais, quando busca uma última finta para favorecer o seu perfil de canhoto, nem mesmo aí poderão evitar entrar para a história como os humilhados, os onze ingleses esparramos e desgraçados, os milhões de ingleses olhando pela tevê sem querer acreditar no que sabem que é verdade para sempre, porque lá vai a bola, morrer na rede por toda a eternidade, e o sujeito vai correr e se abraçar com todos, e vai levantar as mãos e os olhos para o céu. E faz bem em olhar para o céu, porque não sei se ele sabe, mas lá estão todos, todos os que não podem vê-lo pela tevê nem roer as unhas.

Porque o afano estava bem, mas era pouco. Porque o afano deles era grande demais. Faltava humilhá-los dentro das regras deles. Imortalizar o lance, para que, em cada ocasião em que esse gol voltasse a ser mostrado, uma e outra vez e para sempre, em cada lugar do mundo, eles voltassem a ver uma e mil vezes, até o cansaço, as reações pasmadas, eles tentando cortar e chegando tarde, ficando sentados, vendo por baixo, submergidos definitivamente pela derrota, a derrota pequena e futeboleira, e absoluta, e eterna, e inesquecível. Portanto, senhores, eu lamento, mas não me encham o saco com isso de ter que julgar a esse sujeito como se supõe que devo julgar os demais mortais. Porque eu lhe devo esses dois gols contra a Inglaterra. E o único modo que tenho de agradecer é deixá-lo em paz com suas coisas. Porque já que o tempo cometeu a estupidez de seguir transcorrendo, já que preferiu seguir acumulando um montão de momentos vulgares junto com aquele instante perfeito, e optou por deixar que os ingleses tivessem os outros dias de suas vidas para tentar esquecer aquele, ao menos eu devo ter a honestidade de recordá-lo para a vida toda. Eu conservo o dever da memória.

Tradução: Victor Farinelli