O mágico realismo político da imprensa ao reescrever Gabo

A imprensa brasileira deu à morte Gabriel García Márquez um tratamento menos lamentável que o dedicado a José Saramago. Porém, não menos distorcido.

Gabo, verdade que você gostava dos presidentes liberais que te expulsaram da Colômbia?

Gabo, verdade que você gostava dos presidentes liberais que te expulsaram da Colômbia?

Na ocasião da morte do escritor português, em 2010, o ideário comunista foi motivo para diminuir sua obra e legado. Algumas revistas e editoriais de jornal definiram Saramago como um idiota político – ainda sobrevive aquele típico sentimento da direita dura latino-americana, dizer que “todos os que não pensam como eu são idiotas”, o avesso da democracia. Outros fizeram o que foi a tendência no caso de Gabo: relativizar sua ligação histórica com a esquerda.

A coluna de Clóvis Rossi na Folha é um espetáculo dessa relativização. O jornalista faz uma bela ginástica argumentativa, questionando a afirmação de que Gabo era de esquerda – seria uma “meia verdade” ou uma “fama imprecisa”, segundo as definições usadas de Rossi, fruto da mil vezes expressada admiração do escritor por Fidel Castro, explicada pela sedução do poder e não das ideias. Logo, cita uma série de encontros e colaborações com presidentes de direita na Colômbia e na Venezuela, para, finalmente, lá pelos últimos parágrafos, aceitar quase envergonhadamente, que seu coração era de esquerda, constatação reduzida a uma reportagem sobre a Revolução dos Cravos para a revista Alternativa.

Reportagem essa que conclui uma importante lista de omissões de Clóvis Rossi para justificar sua errática teoria de que Gabo não era tão socialista, mas ao final era. O próprio colunista da Folha admite que a revista Alternativa era de esquerda, mas esquece de acrescentar que García Márquez foi fundador e articulista assíduo da publicação durante os sete anos em que ela foi um dos mais importantes referentes do pensamento progressista na América Latina. Como grande jornalista que é, Rossi com certeza sabe disso, e também deve saber qual foi o primeiro artigo de Gabo para a Alternativa, sobre outro de seus grandes amigos, que não foi citado na coluna da Folha. Na edição inaugural da revista, em fevereiro de 1974, o escritor narra o Chile do início da ditadura de Pinochet, após o golpe contra Salvador Allende:

Saídas da própria boca de García Márquez, sobre o governo socialista chileno e seu líder deposto, palavras recheadas de convicções marxistas. Seriam muito mais difíceis de relativizar, e talvez por isso ignoradas. Também porque é mais fácil deixar essa amizade no passado.

No caso de Fidel Castro, uma relação que perdurou por décadas, seria uma omissão inaceitável, e que portanto precisou de uma maquiagem, como dizer que se tratava do interesse natural dos jornalistas por se aproximar de líderes históricos. Gabo foi um defensor de primeira hora da Revolução Cubana e integrou – junto com os argentinos Rodolfo Walsh, Rogelio García Lupo e Jorge Masetti, entre outros – o time de jornalistas que deu início à Prensa Latina, a agência cubana de notícias idealizada por Ernesto Che Guevara. A admiração expressada anos depois reforçou um apoio que sempre existiu e que não arrefeceu, como argumentaram outros meios brasileiros, mas que tornou-se menos manifesto conforme a doença foi diminuindo sua atividade.

O jovem Gabo com outro de seus amigos comunistas, o poeta chileno Pablo Neruda, com quem era unido por um vínculo ideológico

O jovem Gabo com outro de seus amigos comunistas, o poeta chileno Pablo Neruda, com quem era unido por um vínculo ideológico

As alusões à colaboração de García Márquez “com diferentes presidentes colombianos, conservadores e liberais”, não lembra que ele foi constantemente criticado pelos presidentes colombianos nos Anos 60 e 70 – também divididos entre conservadores e liberais –, e perseguido pelo liberal Julio Cesar Turbay, que o acusou de financiar o grupo guerrilheiro M-19. A ofensiva aconteceu em 1981, e obrigou Gabo a fugir do país através de um asilo concedido pela Embaixada do México. No ano seguinte, o escritor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e só então os presidentes do seu país natal deixaram de tratá-lo como “amigo dos guerrilheiros” e sim como “um importante ator no diálogo pela paz”.

O mágico realismo político da imprensa de direita tenta reescrever a vida de Gabriel García Márquez para que seu público possa homenageá-lo sem culpas. “Também se relacionou com Bill Clinton”, disseram, sem esclarecer que o fez a pedido de Fidel Castro, em negociação que colocou fim à “crise dos balseiros”, culminada num acordo migratório. “Desconfiava de Hugo Chávez e foi convidado de honra de Carlos Andrés Pérez” asseguraram outros. Em seu primeiro artigo sobre Chávez, após entrevistas em Caracas e Havana, García Márquez fala do temor de que ele seja “somente mais um déspota” latino-americano, mas na frase anterior, diz que também pode ser “alguém a quem lhe foi dada a oportunidade de salvar o seu país”, e nesse caso, se referia ao seu otimismo com as ideias chavista, e ao mesmo tempo mostrava seu descontento com o legado de Andrés Pérez e outros presidentes de direita que afundaram a Venezuela na miséria, apesar da abundante riqueza petroleira do país.

Disse Gabo, em 1977: “desejo que o mundo seja socialista, e tenho certeza que, cedo ou tarde, assim será”. O futuro dirá se tinha razão ou não, mas é triste lamentável constatar que no presente, na que pensamos ser “a era da informação”, ainda seja possível fazer revisionismo histórico, ainda que isso esteja restrito a uma parte da imprensa brasileira.