O pecado de subestimar Cristina Kirchner

Cristina Kirchner ressuscita novamente. A estranha morte do promotor Alberto Nisman, em janeiro deste ano, a colocou sob suspeita, e justo em seu último ano de mandato, afetando sua popularidade nesse crucial período onde ela escreve a sentença definitiva sobre seu governo e tenta eleger um sucessor que, mesmo não sendo Kirchner, mantenha vivo o projeto político kirchnerista.

Quem acha que a Cristina perdeu o gingado pode terminar dançando um triste tango, enquanto ela vai de cumbia. (foto: twitter oficial @cfkargentina)

Quem acha que a Cristina perdeu o gingado pode terminar dançando um triste tango, enquanto ela vai de cumbia. (foto: twitter oficial @cfkargentina)

E efetivamente sua popularidade caiu, como já havia acontecido na crise do campo, as crises pela inflação e a pelo preço dos dólar, além das marchas multitudinárias contra ela, em 2012 e 2013, e depois voltou a se recuperar – com mais ou menos sucesso, dependendo do panorama. Neste caso atual, pelo menos enquanto o difícil enigma de Nisman permitia à grande imprensa argentina (leia-se Clarín) insistir na tese do envolvimento da presidenta no caso como única hipótese possível, e decretar, mais uma vez, o fim de sua carreira política – uma espécie de fetiche do jornalismo hegemônico argento.

O uso político do caso se estendeu até meados de março, quando diferentes decisões da Justiça jogaram por terra essa teoria. Primeiro, porque as provas surgidas sobre a morte do promotor foram apontando à participação do técnico informático Diego Lagomarsino, que confessou sido quem entregou a arma a Nisman, e que, segundo as câmaras de segurança revisadas, foi a última pessoa que esteve com ele antes da morte.

Depois, a teoria que sustentava a suspeita sobre Cristina também desmoronou. Nisman foi encontrado morto com um tiro na testa um dia antes de apresentar ao Congresso argentino o conteúdo de uma acusação que havia registrado dias antes nos tribunais de Justiça, na qual apontava o envolvimento da presidenta num acordo diplomático com o Irã, que teria como um dos objetivos encobrir os iranianos acusados de participar do atentado contra a AMIA (Associação Mutual Israelita, em 1994, que matou 85 pessoas).

Entre fevereiro e março, duas instâncias da Justiça Argentina avaliaram a acusação de Nisman, defendida por outros promotores, e a declararam sem nenhum fundamento – a começar pelo fato de que a Interpol confirmou que o governo argentino tem sido assíduo em renovar todos os anos a alerta vermelha contra os suspeitos iranianos, protegidos pelo governo de seu país. Além disso, a Justiça também considerou que a teoria de que o governo argentino teria tantos interesses comerciais com o Irã a ponto de negociar a impunidade para o maior atentado terrorista da história do país carecia de todo fundamento lógico, além de falta de provas documentais e até mesmo testemunhais, e de baseava em meras conjecturas, como na teoria do domínio do fato, mas que não convenceu os juízes portenhos.

Daí por diante, a popularidade de Cristina voltou a subir, se aproximando, novamente, do patamar de 50%, o que também impulsou o crescimento nas intenções dos candidatos kirchneristas, Florencio Randazzo e Daniel Scioli, sendo o segundo o que mais ascendeu e se colocou finalmente como um dos favoritos para as eleições de outubro.

Tudo indica que o pleito argentino será disputadíssimo. As pesquisas dão a Scioli a liderança da maioria das pesquisas, com um percentual entre 30% e 36%. O conservador prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri aparece em segundo, variando entre 25% e 28%. Scioli ainda precisa derrotar Randazzo nas primárias governistas, em agosto, para ser declarado candidato oficial, mas é pouco provável que aconteça alguma surpresa – nas simulações de pesquisas entre Macri e Randazzo, o direitista vence com mais de dez pontos de vantagem.

Macri ainda deve sofrer algum efeito eleitoral devido à vergonhosa eliminação do Boca Juniors da Copa Libertadores, com participação direta dos barrasbravas – já que ele mantêm relações com algumas torcidas organizadas desde sua época como presidente do clube, embora não necessariamente com a facção que jogou gás pimenta nos jogadores do River Plate, naquela partida pelas oitavas de final do torneio continental –, mas nada tão dramático que impedisse sua caminhada pelo menos até o segundo turno das eleições, já que ele mantém confortável vantagem contra o terceiro colocado – Sérgio Massa, da Frente Renovadora, que não passa dos 16%.

A presidenta argentina entre os dois pré-candidatos presidenciais governistas. Até nesta imagem, Florencio Randazzo é o que mais se esforça em copiar Cristina, enquanto Scioli seria uma continuidade com certa revisão do seu legado. (foto: Telam)

A presidenta argentina entre os dois pré-candidatos presidenciais governistas. Até nesta imagem, Florencio Randazzo é o que mais se esforça em copiar Cristina, enquanto Scioli seria uma continuidade com certa revisão do seu legado. (foto: Telam)

Tal situação levou a imprensa a mudar de estratégia e defender a ideia de que Cristina não tem condições de continuar sendo a referência política da esquerda no país – e, a partir dos interesses mais que conhecidos, se o Clarín está dizendo isso, é porque morre de medo de que a verdade seja justamente o contrário.

Contudo, os rivais político-midiáticos do kirchnerismo têm razão numa coisa: Scioli não é Cristina, e é muito mais moderado que ela. Governador da Província de Buenos Aires (que não compreende a capital, que é cidade autônoma), Daniel Scioli é um médio empresário de sucesso e ex-piloto de corridas de lanchas. Em sua campanha, ele diz enfaticamente que pretende manter os programas sociais desenvolvidos nos Governos Kirchner (entre 2003 até agora), mas não fala com o mesmo entusiasmo a respeito de assuntos como a Ley de Medios ou o apoio às Avós da Praça de Maio e às causas de direitos humanos – outra marca registrada de Cristina e Néstor.

Florencio Randazzo é ministro do Interior do atual governo federal argentino, e portanto alguém mais comprometido com o projeto tal como é levado hoje. Sua provável derrota nas primárias é lida como uma derrota da presidenta, o que é uma meia verdade, já que cabe aqui o mesmo raciocínio feito com Scioli: Randazzo tampouco é Cristina, e ela, aos 62 anos, não dá a entender que vai encerrar sua carreira política – embora ainda não tenha feito nenhuma afirmação sobre seu futuro.

É compreensível esse nervosismo todo da imprensa argentina e latinoamericana em aposentar ou prender Cristina Kirchner – sempre que o panorama político argentino se sacode, apesar de isso ser algo habitual no país, a primeira reação dos jornais e dos canais é dizer que “o kirchnerismo está chegando ao fim”, e sem esconder o sorriso.

Não foram poucas as vezes em que essa sentença foi proferida. Para os defensores da hegemonia da direita na mídia latina, especialmente os meios reunidos na SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa, defensora dos barões da mídia no continente), o governo de Cristina é um inimigo crucial. A Ley de Servicios Audivisuales, mais conhecida como Ley de Medios, é um paradigma de democratização das comunicações no continente – inspira a reivindicação de medidas semelhantes por parte de movimentos sociais no Brasil, Uruguai, Chile e Paraguai, e os donos da imprensa não querem que seu sucesso alimente esperanças nesses países ou desperte iniciativas semelhantes em outros.

Queiram ou não os seus opositores, na política e na imprensa, Cristina Kirchner continuará vigente, e continuará a ser uma figura política querida para muitos argentinos, e isso será um problema para o próximo presidente, seja ele um opositor ou aliado – Scioli, por exemplo, sabe que ela seria uma sombra num hipotético governo seu, o que poderia condicionar algumas decisões.

Como também é verdade que, se ela cuida bem de sua imagem e sua saúde, não seria nenhuma surpresa se voltasse a disputar a Casa Rosada, em 2019 e em 2023. Quem ainda duvida da disposição da líder argentina pode ter um gostinho assistindo este eloquente gesto técnico, na inauguração do Centro Cultural Kirchner, há duas semanas:

  • Hugo Junqueira

    COMUNA BOLIVARIANA…traiu a democracia pelos petrodólares de Chavez, trocados por títulos podres da Argentina, para equilibrar as contas fantasiosamente…

  • Carlos Alejandro Figueroa

    Caro Hugo Junqueira: where are the evidences? Os títulos não são podres….este governo K resolveu recomeçar a pagar a dívida que outros governos deixaram e deram calote. A calote foi em dezembro de 2001 e este governo assumiu um 25 de Maio de 2003 e começou a reestruturar a gigantesca dívida que herdou. Em 2005 pagou o saldo em “cash” ao FMI e fechou um acordo com 76% dos bônus emitidos (e no 2010 chegou a 93% e o 7% é uma espécie chamada de “abutres”). Faz alguns dias, pagou a 2da parcela da dívida com a última entidade com a qual faltava negociar, o Club de Paris: http://www.cronista.com/economiapolitica/A-un-ano-del-acuerdo-con-el-Club-de-Paris-el-Gobierno-pago-cuota-us-683-millones-20150529-0072.html….se você ainda estiver pensando nos abutres, eles sim podem cobrar nas mesmas condições daquele 93% que aceitou e está recebendo tranquilamente. Não podem ser tratados diferentes.

  • Jose Caputo

    Esse artigo é tão estranho, que só pode ter sido escrito pelos robots da campanha da Anta.

  • Leandro El Memorioso

    reaças brasileiros, nao achem estranho o FPV ganhar novamente as eleiçoes, e até Cristina 2019

  • LinBhz

    O Brasil está de mau a pior, mesmo.
    Encontrar alguém para elogiar a forma em que Cristina Kirshner governa a Argentina…
    O próximo a ser elogiado poderá ser o Maduro, da Venezuela.