O que Obama ainda pode fazer pela América Latina?

Quando foi eleito pela primeira vez, em 4 de novembro de 2008, Barack Obama era o nome da esperança e da mudança para o país onde, segundo ele mesmo, “tudo é possível”. Depois de oito anos de governo republicano de George W. Bush, o democrata derrotou John McCain com uma campanha progressista, alavancada por um grande número de doações de pessoas físicas. Retirar tropas do Iraque, estabelecer diálogo com Irã e Síria, desmilitarizar o serviço norte-americano de inteligência, reformar o sistema de saúde. Para a América Latina, a lista de promessas não era menos animadora. Ou pelo menos inovadora, se comparada à de seus antecessores.

A começar pelo fechamento da base de Guantánamo, localizada no sul da ilha de Cuba, mas em território pertencente aos Estados Unidos desde 1903. Ali funciona, desde 2002, um dos centros de detenção símbolo da “guerra ao terror”. Em 22 de janeiro de 2009, Obama assinou um decreto para fechar a prisão. Esbarrou, no entanto, na irredutível oposição dos congressistas, sobretudo dos republicanos, que se recusam desde então a autorizar a transferência dos presos. Em janeiro de 2014, a medida não implementada completou cinco anos e tudo indica que completará seis daqui a poucos meses. Além dos métodos brutais de tortura – simulação de afogamento, abuso sexual, exposição a temperaturas extremas –, o problema é que a maior parte dos prisioneiros de lá ficou em um limbo jurídico, sem acusação ou julgamento. E, segundo a Anistia Internacional, há ainda 149 prisioneiros em Guantánamo, com idade entre 13 e 80 anos – desde 2002, nada menos que 779 presos passaram por lá.

Presos do Camp X-Ray, em Guantánamo, atualmente desativado (Foto: WikimediaCommons)

Presos do Camp X-Ray, atualmente já desativado (Foto: WikimediaCommons)

Se era preciso obter mais apoio do Legislativo para conseguir pelo menos iniciar o desmantelamento de Guantánamo antes do final de seu segundo mandato, em 2017, a situação pode ter ficado mais difícil após as eleições de 4 de novembro, em que os republicanos conseguiram aumentar o número de cadeiras nas duas casas, assumindo o controle de ambas.

Gerou-se também alguma expectativa quanto à legalização de pelo menos uma parte dos 11 milhões imigrantes sem documentos residentes nos Estados Unidos, outra promessa frustrada pela resistência republicana. Em junho de 2013, o Senado chegou a aprovar o texto de reforma migratória. Na Câmara, porém, a oposição ainda está postergando a votação. A suspeita é de que deseje boicotar o projeto do presidente. Na contramão do debate, em agosto de 2014, os republicanos tentaram no último dia de trabalho antes do recesso aprovar um texto para reforçar a fronteira, mas não tiveram sucesso. A medida visava ainda facilitar a deportação das crianças que atravessam as fronteiras. Segundo ativistas citados pela BBC, a cada ano do governo ano, 40 mil imigrantes são deportados.

Em relação a Cuba, Obama permitiu que cubano-americanos viajassem e enviassem dinheiro livremente para a ilha. Porém, frustrou a esperança de flexibilização o bloqueio contra Cuba, vigente desde 1962 e arrochado em 1999. Em setembro de 2014, o presidente decidiu prorrogar por mais um ano as medidas do embargo comercial. Em documento enviado ao secretário de Estado, John Kerry, e ao do Tesouro, Jack Lew, Obama anunciou a decisão de estender a “Lei contra o Comércio com o Inimigo” sob a justificativa de isso representar um “interesse nacional dos Estados Unidos”.

O tema voltou ao debate em outubro, quando o New York Times publicou um editorial pedindo que o presidente “reflita seriamente” sobre a questão. “Tem que fazer isso. E deveria vê-lo como uma oportunidade para fazer história”, apelou o texto.

Dias depois, o editorial do jornal abordou outro tema caro para a relação entre Cuba e Estados Unidos: uma saída negociada para o caso dos “Cinco”. O texto propôs a troca de Alan Gross, 69 anos, cidadão norte-americano preso na ilha desde 2009, por três dos cinco cubanos presos nos EUA desde 1998.

Gross era empregado da Development Alternative, Inc (DAI), contratada pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), ligada ao Departamento de Estado. Após realizar três viagens a Havana com disfarce de turista, foi preso, julgado e condenado a 15 anos de prisão por distribuir equipamentos via satélites, no marco do programa do Departamento de Estado de “promoção da democracia em Cuba”, cujo objetivo seria uma “mudança de regime” na ilha.

O New York Times sugere trocá-lo por três dos “Cinco”, grupo de cinco agentes de inteligência cubanos condenados em Miami sob acusação de espionagem. Residiam na Flórida com a missão secreta de observar grupos cubano-americanos de oposição ao governo cubano, que cometeram atentados contra a ilha com o objetivo de prejudicar Cuba. A atuação dessas organizações existe desde a Revolução Cubana (1959), mas se intensificou nos anos 90, quando a ilha passou a fomentar o turismo após o fim da União Soviética.

Cartaz de campanha em Varadero, Cuba, pela libertação dos Cinco (Foto: WikimediaCommons)

Cartaz de campanha em Varadero, Cuba, pela libertação dos Cinco (Foto: WikimediaCommons)

Dos cinco cubanos, dois já cumpriram suas penas – René González Sehwerert e Fernando González Llort. Gerardo Hernández foi condenado a duas perpétuas mais 15 anos de prisão; Ramón Labañino Salazar, a 30 anos; e Antonio Guerrero Rodríguez, a 22.

Para além dos pontos de tensão – Guantánamo, imigrantes, Cuba –, o discurso de Obama é de que faria uma diplomacia “ativa” e voltada “à cooperação”. No entanto, foi em junho de 2013, início do segundo mandato, quando se revelou o programa de vigilância clandestina contra o Brasil, incluindo a presidenta Dilma Rousseff. Dilma chegou a cancelar uma viagem que faria a Washington, mas não culpou Obama pela espionagem.

“Não acredito que a responsabilidade pelos hábitos de espionagem seja da administração do presidente Obama. Eu acho que ela é um processo que vem ocorrendo depois do 11 de setembro. O que nós não aceitamos e continuamos não aceitando é o fato de que o governo brasileiro, empresas brasileiras e cidadãos brasileiros fossem espionados, porque isso atinge diretamente os direitos humanos brasileiros, principalmente o direito à privacidade e à liberdade de expressão”, disse em entrevista à CNN.

Dilma em sua última visita à Casa Branca em abril de 2012 (Foto: Roberto Stuckert Filho/Blog do Planalto)

Dilma em sua última visita à Casa Branca em abril de 2012 (Foto: Roberto Stuckert Filho/Blog do Planalto)

Com base nos índices de aprovação do presidente, era esperado que os republicanos obtivessem maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, nas eleições de meio de mandato. Analistas previam também que Obama logo seria acometido pela “síndrome do pato manco” – termo usado para presidentes que, com minoria no Legislativo, tornam-se incapazes de promover alterações significativas. Ao democrata restam ainda dois anos de governo. O que Obama ainda pode fazer pela América Latina dependerá, portanto, de sua capacidade de articular os apoiadores que lhe restam. A partir deste momento, em que começarão as especulações sobre seu sucessor, democrata ou republicano, é necessário questionar: nos Estados Unidos, vale esperar pela mudança, quando o obstáculo é a própria política de Estado? Ou, para citar as palavras do próprio presidente, o “interesse nacional dos Estados Unidos”?.

  • Lenir Vicente

    Obama estava marcado para ser um “pato manco”, apesar da reeleição. Os WASP sempre tiveram o poder nas mãos. E vão continuar assim. É a democracia deles.

  • Cleodemir

    O que Obama pode fazer pela América Latina eu não sei. No entanto pelo Brasil nos libertar do PT que no poder demonstrou ser um partido fracassado, mentiroso e nos causado um grande mal.

    • Gabriel Braga

      Inacreditável alguém pedir intervenção externa para mudar o resultado de eleições livres e legítimas.

    • toninho do jaragua

      Se é o PT, a Dilma e o Lula que tá sustentando toda a investigação. Se tirar eles para tudo, nunca nenhum governo quiz apurar nada e todos sabem que a corrupção sempre existiu.

  • mariia canabrava

    Tudo o que EUA faz é e sempre foi, tem em vista unicamente o “interesse nacional dos Estados Unidos”.
    Quanto à América Latina, os EUA vão cozinhando em fogo brando e, nesse meio tempo, vai rondando e minando a soberania dos países latinos. Só não vê, quem não quer!

    • Leonardo Soares

      Verdade

  • Julio Silveira

    O Obama enquanto teve tempo e apoio nada fez pela América, agora que tem pouco tempo e perdeu apoio vai somente chegar com alguma dignidade ao fim do mandato, nada mais. Foi um dos presidentes democratas mais medíocres dentre aqueles que governaram os States.

  • Chico Denis

    Excelente análise. Um fator importante que é mencionado é a supremacia republicana naa ultimas eleições. Isso quer dizer que o dialogo dos EUA com a America Latina, em especial com os paises que mais confrontam a super potência pode ficar mais critico. Republicanos nunca foram bons se dialogo com os latino -americanos, nem dentro nem fora dos EUA.

  • ademir salgueiro

    pensei que os apoiadores da Dilma e do PT detestassem os EUA, e só gostassem da Venezuela

  • Pedro Lima

    Obama é como um chofer particular: dirige um carrão, mas o destino é definido pelo dono (no caso, a CIA).
    Não há democracia em um país onde apenas dois partidos revezam o poder, mas seguem a mesma cartilha.
    Obama sofre hoje o mesmo destino de todos os negros em um país racista: final melancólico.
    Diga aí… qual foi o negro norte-americano que ficou conhecido internacionalmente e que não teve um final de humilhação?

    • Danillo

      Morgan Freeman

  • João

    Os grandes grupos econômicos, de mídia e os sindicatos, bem como os seus lobbies, tem muito poder nos EUA, influenciando a tudo o que ocorre de importante lá. Recorde-se, o governo Jimmy Carter, que não foi apenas “pato manco”, mas um “pato acorrentado”. Vamos ver o que acontecerá com Obama….!!!

  • Armando

    Não sei porque ficar se perguntando ou cobrando atitudes de Obama com relação a A.Latina.
    Todos querem os investimentos e a proteção militar deles, mas os taxam de imperialistas e culpados de todos os males do mundo. Se fazem tão mal, deveríamos querer distância. Pelo nossos discursos e de nossos vizinhos, deveríamos perguntar o que Putin ainda pode fazer pela América Latina, e sejamos felizes até acordarmos.

  • Carlos E. A. Henriques

    Exeto os Bushs que são magnatas de petróleo, energia, infra etc. donos da Halliburton Oabama, Reagan, Carter, Clinton, Ford, Johnson e Nixon são office-boys de luxo ou mordomos das grandes corporações americanaas