O segundo turno argentino e o futuro do Mercosul

No último debate presidencial, no domingo passado (15/11), Mauricio Macri lançou um desafio para Daniel Scioli: “eu sendo presidente vou apresentar uma iniciativa para suspender a Venezuela do Mercosul, e gostaria de saber o que você fará sobre isso”.

O argumento do candidato da direita argentina é que a Venezuela não é um país democrático, o que entra em conflito com a carta de princípios da aliança de países do sul do continente.

Daniel Scioli e Mauricio Macri. Um dos dois será presidente da Argentina a partir de dezembro. (foto: AFP)

Daniel Scioli e Mauricio Macri. Um dos dois será presidente da Argentina a partir de dezembro. (foto: AFP)

A declaração de Macri, que as pesquisas apontam como favorito para as eleições deste domingo – embora a diferença sobre Scioli tenha diminuído nesta última semana, o que alimenta alguma esperança governista –, aumenta um pouco a tensão em um continente que enfrentará um reequilíbrio político regional, seja qual for o novo chefe da Casa Rosada.

Essa certeza existe pela resposta de Scioli, ou pela falta dela. O candidato que representa o atual projeto de governo argentino desconversou, falou da importância do Mercosul e da relação com o Brasil. Falou quais serão seus aliados, e claro, a Venezuela não estava na lista. Uma coisa é certa: Scioli é mais peronista que kirchnerista – não faltará que diga que o kirchnerismo é uma vertente do peronismo, e tem razão, mas a polñitica argentina é muito mais complexa que isso, e por enquanto fiquemos com que há diferenças com a ala mais antiga do Partido Justicialista, a legenda símbolo do peronismo –, e uma eventual mas pouco provável vitória sua não significará a continuidade com o que vem fazendo Cristina Kirchner em alguns âmbitos, e a política internacional seria uma das mudanças.

Durante a campanha, Daniel Scioli se encontrou duas vezes com Lula e outras duas com Dilma. Disse para quem quisesse escutar que sua prioridade em termos de política regional vai ser fortalecer os laços com o Brasil. Claro que isso significa também dar importância ao Mercosul, mas não ter a mesma relação com os demais países. Nesse sentido, imaginar um peronista clássico confortável ao lado de Nicolás Maduro é como sonhar com Pelé e Maradona fazendo as pazes.

Um possível governo de Scioli não seria tão antipático à Venezuela como vem sendo o Paraguai, mas tampouco tão companheiro quanto o do Brasil, ou o da Argentina de Cristina. Seria uma postura como o do Uruguai de Tabaré Vásquez: aparentemente aliado, mas tentando boicotar lentamente nas entrelinhas.

Por exemplo, partiu do Uruguai, recentemente, uma reclamação contra a Venezuela, afirmando que o país não está cumprindo com a agenda que deve realizar para se estabelecer como membro pleno do Mercosul. O que em parte é verdade, já que o coordenador nacional que representava o país no bloco deixou o cargo há meses e ainda não foi substituído, embora a acusação ignore o fato nada desprezível de que o principal acordo comercial realizado pelo bloco nos últimos anos – com a União Europeia, em 2013 – foi alcançado quando Maduro era o presidente pró-tempore. A intenção dos uruguaios com a reclamação não foi tanto a de questionar, mas sim de constranger. Da mesma forma, Scioli tenderia a ignorar o positivo e maximizar o negativo da participação venezuelana no bloco.

Mas considerando que Mauricio Macri é o mais provável vencedor das eleições – pelo menos segundo as pesquisas –, podemos prever um Mercosul muito mais tenso, e talvez entrando numa crise de grandes proporções. Seria precipitado prever agora um distanciamento entre o Brasil de Rousseff e uma Argentina de Macri – apesar de as diferenças ideológicas induzirem que ele acontecerá cedo ou tarde –, mas dentro do Mercosul essas discrepâncias poderão ser bem mais evidentes, especialmente a respeito da Venezuela.

É pouco provável que Macri, se eleito presidente, jogue a carta antichavista logo de entrada. Ele sabe que sua chegada muda muito o panorama dentro do bloco. Atualmente, a manutenção da Venezuela no Mercosul é sustentada pelo apoio dos dois grandes (Brasil e Argentina), apesar da desconformidade dos dois pequenos (explícita por parte do Paraguai, silenciosa por parte do Uruguai).

Nicolás Maduro e Cristina Kirchner, num encontro de presidentes do Mercosul, em 2014. Sorrisos entre mandatários argentinos e venezuelanos serão pouco prováveis nos próximos anos. (foto: AFP)

Nicolás Maduro e Cristina Kirchner, num encontro de presidentes do Mercosul, em 2014. Sorrisos entre mandatários argentinos e venezuelanos serão pouco prováveis nos próximos anos. (foto: AFP)

Com ele como novo participantes, começaria a se desenhar um triunvirato em favor do “espírito do velho Mercosul”, como afirmou inequivocamente o presidente paraguaio Horacio Cartes, evocando o regresso à doutrina neoliberal dos Anos 90 – o que levaria ao isolamento do Brasil, que resultaria numa suspensão, ou até na exclusão da Venezuela.

Também poderia significar uma grande frustração para a Bolívia, cujo processo de adesão como membro pleno está em vias de conclusão. Porém, o país de Evo Morales também está na lista de inimigos estabelecida por Macri, cujo discurso se apoia fortemente na luta contra o narcotráfico, com argumentos muito parecidos ao usado por José Serra na disputa com Dilma Rousseff em 2010 – e não é preciso ter muita imaginação para deduzir que, uma vez adotada pela Casa Rosada, essa postura será reivindicada pela oposição brasileira, e usada para pressionar a agenda do Planalto.

É pouco provável que Mauricio Macri queira acabar com o Mercosul, mas certamente pensa em enfraquecê-lo. Desde o seu ponto de vista, se trata somente de dar mais prioridade – algo que assumiu assim, com essas palavras – à aproximação com a Aliança do Pacífico, o novo oásis da direita latina, que permite maior interação com a Colômbia de Juan Manuel Santos e o México de Enrique Peña Nieto, com quem Macri tem, ademais, maior afinidade ideológica.

Assim, as urnas deste domingo (22/11) decidirão que Argentina teremos no Mercosul nos próximos quatro anos, e qual Mercosul é possível daqui até o fim desta década.

  • Gabriel

    Macri fará a coisa certa, terá coragem de se opor a essa ditadura venezuelana e se opor ao socialismo que atrasa tanto a américa do sul. Além disso liberar as importações é um ato de coragem e ousadia que fará com que a Argentina se desenvolva muito em médio prazo. Fim do protecionismo exagerado que limita tanto os países que rumam ao socialismo.

  • CBzero

    A Argentina é o país mais importante para o Brasil. O importante é que quem ganhe esteja disposto a aprofundar os laços conosco, retirando as barreiras ao comércio sem abandonar o Mercosul.

  • Alex Materazzi

    A América do Sul está começando a se livrar da esquerda, o Brasil vai ser um dos últimos a se livrar dessa esquerda jurássica.
    Permanecerá só na Venezuela em que o chavismo já estabeleceu uma ditadura sem chance de cair por meio de eleições.
    Recomendo a quem tiver dinheiro pra aplicar a médio prazo, no máximo três anos a comprar ações da Petrobras. Porque a queda do PT é líquida e certa no máximo em 2018, e logo após a saída do PT as ações da Petrobras vão triplicar de valor.

    • Arcont

      Quanto o PT cair tudo vai subir, mas isso talvez pode demorar.

    • Marcos

      Vai cair, mesmo que por guerra civil, mas cai. Graças a Deus que essa corja de ladrões está sendo desmascarada.

  • Claudio

    Quem atrasou a América Latina por toda sua história foi a direita atreladas aos interesses imperialistas, com uma elite colonizada apoiada pelas castas militares com apoio dos EUA. Então não venham dizer que a esquerda que trouxe atraso da região, basta ler um pouco de história! O Brasil não vai retroceder como alguns aí estão pensando! A direita está jogando com tudo que pode e não pode, mas as conquistas sociais são muito maiores e aqui não vamos permitir o retorno do retrocesso.

    • Alex Materazzi

      Como nâo vão permitir?
      Não poderão fazer nada contra o resultado das eleições em 2018, em que certamente o PT vai perder, não importando o adversário!
      E se for aprovado o impeachment dentro das leis e da constituição? O que farão? Vão juntar meia dúzia de sem terra e sem teto pago pra fazer uma revolução?

    • Marcos

      Esquerda não combina com democracia. Quem jogou toda a América Latrina no retrocesso foi o populismo bolivariano.

  • Arcont

    Macri tem que vencer, o primeiro país livre da esquerda, a Argentina já foi considerada a Europa da América Latina, hoje é um país falido reduto de drogas e traficantes de drogas, quem voltem ao cenário mundial.

  • Henrique

    Enfim, uma luz no fim da escura e torturante aventura peronista…agora é juntar os cacos e reconstruir o país! O Mercosul precisa de uma nova liderança, alguém que nos tire das trevas.