O terremoto no Chile e a prioridade do lucro sobre a vida

O terremoto ocorrido na noite desta quarta-feira (16/9), na região central do Chile, foi fortíssimo – teve 8,3º na escala de richter, o maior deste ano e um dos dez maiores da história. Até agora, foram registradas doze mortes e dezenas de pessoas desaparecidas, além de muita destruição, sobretudo nas regiões próximas ao epicentro – na cidade de Illapel, 240 kms ao norte da capital Santiago – e em zonas do litoral central do país, afetadas por tsunamis na madrugada posterior ao movimento telúrico.

Entre os diferentes cenários desoladores que o fenômeno natural deixou no país, dois deles ganharam destaques nas redes sociais, por mostrar como as empresas são capazes de priorizar o lucro até mesmo em situações extremas, e mesmo quando isso coloca em risco a vida de dezenas ou centenas de pessoas.

Foi o que aconteceu em algumas grandes casas comerciais do país. No vídeo abaixo, registrado num hipermercado da rede Lider, no Centro de Santiago, é possível ver que a administração do local baixou as portas, deixando centenas de pessoas presas no recinto. Algumas tentavam fugir por medo, e pelo instinto de buscar um lugar aberto, as imagens mostram como alguns idosos e outras pessoas claramente passavam mal e eram socorridas, mas sem poder abandonar a loja e buscar atendimento médico.

A empresa dona da rede chilena de hipermercados Lider não é outra senão a poderosa estadunidense Walmart. Em comunicado, a direção da empresa no Chile afirmou que o procedimento não faz parte do protocolo de segurança da empresa, mas a resposta não convenceu as autoridades chilenas, que receberam mais de cinquenta denúncias de situações semelhantes em outros supermercados e lojas do país, boa parte delas de outras sucursais da rede Lider. A empresa já recebeu uma multa do Serviço de Inspeção do Trabalho devido a essa situação, mas ainda arrisca outras sanções na Justiça, devido a ações de clientes que entraram com processo.

Porém, outro caso demonstra a vitória do lucro sobre a vida nas sociedades atuais também pune duramente quem não entende essa regra. Aconteceu com duas mulheres que trabalham nos pedágios da Rodovia Los Libertadores – que liga Santiago com a zona norte do país, onde foi o epicentro do terremoto -, que liberaram as cancelas para os carros durante o movimento telúrico.

O relato de uma caixa de pedágio que precisa se desculpar por ter priorizado vidas humanas em vez do lucro da empresa onde trabalha, um sintoma da sociedade em que vivemos.

O relato de uma caixa de pedágio que precisa se desculpar por ter priorizado vidas humanas em vez do lucro da empresa onde trabalha, um sintoma da sociedade em que vivemos.

A empresa privada que administra os pedágios repreendeu as trabalhadoras. Uma dessas trabalhadoras, Daamaris Alejandra, denunciou o acontecido em sua conta de facebook. Logo, em entrevistas para meios chilenos, explicou a situação: a empresa avisou ela e uma colega que ambas deveriam ter deixado a chancela abaixada antes de fugir da cabine, e que por não ter feito isso, cada uma delas gerou um prejuizo de 22 mil pesos chilenos – cerca de 120 reais –, e que seria cobrada uma multa com esse valor, que corresponde a 8% do salário delas.

Um deputado chileno – o ex-líder estudantil Giorgio Jackson, um dos que liderou as mega manifestações em favor da gratuidade da educação pública, em 2011 – denunciou o caso ao mesmo Serviço de Inspeção do Trabalho, que não se manifestou. Diferentes grupos de chilenos se somaram as denúncias, e alguns chegaram a iniciar uma vaquinha para ajudá-las a pagar a multa que lhes foi imposta.

A repercussão do caso levou a empresa a mudar de postura duas vezes. Primeiro, chamou Daamaris e sua colega e disse a elas que a multa seria diminuída para 6,4 mil pesos chilenos – cerca de 35 reais. Horas depois, divulgou nota negando a cobrança da multa e assegurando que as duas funcionárias haviam atuado conforme o procedimento padrão da empresa em casos extremos.

Pouco antes da divulgação da nota – portanto, antes de saber que a multa já havia sido cancelada –, a jovem Daamaris Alejandra, em entrevista à Radio Villa Francia, agradeceu as iniciativas em seu favor, mas disse que não aceitaria a ajuda financeira para pagar a multa. Afirmou, sim, que estava aberta a ofertas de empregos melhores que o que ela tem agora.

  • Diego

    É incrível como a Carta capital acha motivo pra enaltecer a esquerda em todo os momentos. Inacreditável!!

    • Raphael Gomes

      Gostei de ver que “esquerda” virou sinônimo de “amor ao próximo”.

    • Roberto Rabello de Lima

      Como a direita representa o lucro acima do bem estar do cidadão, VIVA A ESQUERDA!

      • Marco Catunda

        Não existe isso de direita e esquerda e muito menos lucro acima do bem estar. Se você assim não seria nada conveniente morar num pais desenvolvido. Quem faz isso é o governo com um todo, através dos seus “empresarios” privilegiados. Qualquer empresa, seja a padaria do João, o botequim do Zé ou a manicure da esquina devem e tem que viver do lucro.

        • zazul

          Qualquer empresa, vive das riquezas produzidas e consumidas pelos seres humanos. Sem seres humanos não há empresas nem lucro.

          • Marco Catunda

            Mais ou menos. A empresa precisa do ser humano e o ser humano precisa da empresa. Mas uma empresa vive do valor que ela produz, e não da riqueza que os seres humanos produzem para ela. O produto que ela produz tem que ter algum valor no mercado, alguém deve estar disposto a pagar por aquilo e ter o seu beneficio. Exemplo: se eu contratar uma porção de trabalhadores para cavar um buraco na minha casa estarei consumindo riqueza desses trabalhadores, certo? Mas ao tentar vender o produto que é um buraco alguém vai querer comprar? Acredito que não, porque esse produto não tem valor, não traz beneficio algum, ou seja, não estarei produzindo nada de valor, apesar de ter um custo envolvido nesse produto. O valor do produto que a empresa produz deve ser maior que toda a riqueza que ela consumiu, caso contrário, ela vai ter que mudar de produto, inovar, ou até mesmo fechar. O que não pode é ter intervenção nisso, ou seja, tentar manipular o mercado para que aquele buraco tenha algum valor, se fizer isso, perdemos a referencia e tudo ficará distorcido. Mais exemplo: nenhuma empresa atualmente deve abrir uma fabrica de maquina de escrever porque não tem valor nenhum para a sociedade independente do seu custo, se você obrigar algum setor a usar a máquina de escrever, você estará distorcendo o real valor do produto, varias empresas deixarão de ser competitivas porque estão sendo obrigadas a usar algo ultrapassado, gerando ineficiência, essas empresas dificilmente irão evoluir, irão fazer produtos mais baratos.

    • Marcello Hameister

      Cuidado! Tem um comunista embaixo da tua cama.

    • zazul

      Incrível como os capitalistas não tem o menor respeito pela vida humana, apenas pelo lucro.

  • Alessandro Percivalli de Souza

    Em momentos extremos muitas máscaras caem. Principalmente a dos capitalistas

    • Marco Catunda

      Capitalista não tem mascara, capitalista visa o lucro e pronto, da mesma forma quando você tiver uma empresa, se não visar o lucro, você simplesmente vai falir.

      • Alessandro Percivalli de Souza

        Ué, se eles não usam máscaras porque aqueles comerciais institucionais com a família feliz comprando no Wall Mart? Por que falar de valores humanos nos seus comerciais se o que importa é só o lucro? E a busca do lucro em detrimento de qualquer outro valor humano não é uma obrigatoriedade. Seu argumento é uma falácia pobre que tenta isentar atitudes anti-éticas com a lógica crua de mercado. No mínimo é um empresário argumentando em causa própria.

  • Glal Lemos

    Lucro acima de tudo.Acima da vida humana, acima da dignidade, acima da liberdade.

    • Marco Catunda

      Sim. Para prosperarmos iguais as nações desenvolvidas temos que pensar no lucro sim. E quanto mais lucro tivermos mais liberdade teremos.

      • zazul

        Sem gente, você não tem nem empresas nem produtos, nem lucro. E então?

        • Marco Catunda

          E então, nesse mundo sem gente teremos apenas os animais, e dificilmente teremos uma evolução nesse mundo sem gente.

  • Marco Catunda

    O artigo esta forçando a barra para o lucro e não para a segurança. As pessoas não podem e não devem aproveitar da tragedia para saquear, sair sem pagar, o supermercado não deve fechar as portas para a saída livre das pessoas. Isso é completamente diferente de visar o lucro em momentos de tragédias, quem faz isso é o nosso governo como fez com a tragedia de Nova Friburgo, prometeram tudo em prol do “lucro” politico e nada tivermos. Se parar um pouco para pensa esse artigo está jogando para o lado do anarquismo, ele defende a ideia que se eu tiver um supermercado e se varias pessoas passando fome entrarem no meu supermercado eles terão o direito então de roubar tudo porque estão no desespero da fome. E eu, somente eu, devo pagar por esse prejuízo e não devo, em hipótese alguma, fazer nada conter isso, tudo em prol do desespero de tais pessoas. Se fosse assim, com certeza, não iria valer a pena abrir nenhum tipo de supermercado e as pessoas irão passar fome de proposito porque ficarão acima de qualquer lei. Sobre a empresa do pedágio, para mim nem merece discutir porque tal empresa é uma concessão do governo, não possui liberdade e faz parte do grupo de privilegiados do governo, se acham acima da lei e podem fazer tudo que quiserem devido ao seu alto grau de relacionamento com pessoas do governo, portanto não existe surpresa alguma com isso tipo de atitude.

    • zazul

      Amigo, o valor supremo é o da vida humana. Esta deve ser a prioridade em situações de emergência.

      • Marco Catunda

        Eu concordo com você sobre a vida humana, o que eu não concordo é a forçação de barra do artigo, tentar associar o lucro como uma coisa ruim para toda a sociedade, tentar foçar um lucro como algo desumano. Do jeito que está o pensamento, ninguém nesse pais pode simplesmente abrir um boteco e lucrar com isso. O artigo deveria trazer para a discussão a questão da segurança e qual o melhor procedimento a adotar nesses casos, e se a empresa fez errada, puni-la para ela aprender. Se alguém tentou se aproveitar da situação roubando produtos também deveria ser punido, simples assim. Punição para ambos os lados.