(Óscar Zuluaga, ou seja) Álvaro Uribe e a integração sulamericana

Começou o segundo turno presidencial na Colômbia, com dois candidatos de direita na disputa – Óscar Zuluaga (29,2% no primeiro turno) e Juan Manuel Santos (atual presidente, 25,7% no primeiro turno) – e muitas diferenças entre eles, todas nascidas do fato de que ambos são pupilos do ex-presidente Álvaro Uribe.

Uribe deixou de ser presidente há quatro anos, mas continua sendo senador e a figura política mais importante do país. Dentro do contexto latinoamericano, ele é o ícone de um discurso belicista de ultradireita cuja principal bandeira é o combate ao terrorismo e o narcotráfico. Uma contradição que esconde seu vínculo com grupos paramilitares que fazem pela direita a mesma violência política que as FARC fazem pela esquerda.

Uma tática que tem muitos seguidores, até mesmo fora do seu país. Dentro da Colômbia, sua influência é o ponto inicial para qualquer tentativa de compreender o atual cenário político e eleitoral colombiano.

Zuluaga à esquerda, Santos à direita, nos anos de ouro do Partido de la U, que é U de Uribe. O ex-presidente é a figura de menor estatura física e maior estatura política na Colômbia há mais de dez anos.

Zuluaga à esquerda, Santos à direita, ambos de camisa celeste, nos anos de ouro do Partido de la U, que é U de Uribe. O ex-presidente, de jaqueta azul, é a figura de menor estatura física e maior estatura política na Colômbia, neste século.

Começamos entendendo que apesar do radicalismo de Uribe estar mais escancarado hoje, durante seus dois mandatos como presidente, ele liderou uma coalizão junto com setores moderados da direita, tendo como principal contrapeso o atual presidente Juan Manuel Santos, que foi seu ministro da Defesa.

Governar junto com a centro-direita exigiu de Uribe mais jogo de cintura, mas não freou seu ímpeto armamentista. Foi o presidente latino que teve mais afinidade com George W. Bush, com quem assinou um tratado para a instalação de sete bases militares estadunidenses no território amazônico de seu país. Sob seu governo – e quando Santos era ministro da Defesa –, a Colômbia se manteve durante oito anos como o segundo país com maior orçamento militar da América do Sul (apenas atrás do Brasil), e o que apresentou maior crescimento anual desse gasto.

Uma espécie de corrida militarista que incomodou os vizinhos e foi uma inevitável pedra no sapato da integração regional, sobretudo pelas polêmicas com a Venezuela de Hugo Chávez e o Equador de Rafael Correa.

Chávez foi seu pior inimigo regional, mas suas brigas foram somente verbais, constantes trocas de ameaças que nunca chegaram a um conflito real. Na prática, sua crise mais conhecida foi a Operação Fênix, em março de 2008, quando uma esquadrilha da força aérea colombiana bombardeou um território selvagem na província de Sucumbíos, no norte do Equador, onde estava escondido um grupo de integrantes das FARC, sem o conhecimento nem a autorização do governo do país vizinho – a missão acabou com a vida de 22 guerrilheiros.

O ataque isolou a Colômbia num cenário regional pautado pela relação de diálogo permanente entre os países. A desculpa de que “vale tudo na guerra contra o terrorismo” não colou entre os que defenderam o mútuo respeito à soberania nacional dos membros da comunidade como regra primordial.

Talvez seja essa a razão pela qual Juan Manuel Santos, quando deixou de ser ministro de Uribe para ser seu sucessor na presidência do país, passou a se mostrar como uma direita mais moderada e mais aberta ao diálogo, com a oposição e com os vizinhos. Conversando com Chávez e Correa, conseguiu criar uma relação de cordialidade, apesar das diferenças, e colocar uma pedra em suas responsabilidades nos erros do governo de Uribe – que não se resume à Operação Fênix, inclui também o escândalo dos Falsos Positivos, quando foi descoberto uma fraude do exército colombiano, onde dezenas de camponeses inocentes, entre eles alguns venezuelanos, mortos por operativos militares na selva, foram catalogados como guerrilheiros das FARC, para isentar os soldados de qualquer culpa pelos assassinatos.

Uma caricatura do uribismo, que não deixa de dar uma ideia do que é em realidade.

Uma caricatura do uribismo, que não deixa de dar uma ideia do que ele é em realidade.

Com Santos posicionado como ícone da centro-direita no país, Uribe reagrupou seus apoiadores mais fieis em outro movimento político, já sem os moderados, e sem medo de ser ultra. Óscar Zuluaga, que na década passada chegou a dividir com Juan Manuel Santos a direção do Partido de la U (legenda que tentou compatibilizar a unidade entre a direita econômica e a direita militarista, sucumbiu depois de oito anos), foi escolhido como seu novo representante eleitoral.

A vitória de Zuluaga no primeiro turno foi uma demonstração de força do uribismo. A conservadora Marta Lucía Ramírez, terceira colocada na primeira votação (15,5%), já manifestou seu apoio para o dia 15 de junho – o que já era esperado, pelas ideias em comum entre ambos.

Por sua parte, Santos conseguiu o apoio da socialista Clara López, que foi quarta colocada com votação quase idêntica à de Ramírez (15,2%). O problema é que a centro-esquerda de López não está tão convencida em defender a reeleição do presidente, o considera “um mal menor”. O mesmo acontece com Enrique Peñalosa, do Partido Verde (8,2%), que preferiu não se manifestar formalmente por qualquer das candidaturas restantes, mas assumiu que “o retorno do uribismo seria um passo para trás na política do país”.

Um panorama que torna imprevisível qualquer prognóstico sobre o resultado final, mas que garante a Álvaro Uribe dois cenários confortáveis. Se Zuluaga vencer, é ele e sua eminência parda a que volta ao poder. Se Santos consegue a reeleição, terá que enfrentar a sombra do senador durante o segundo mandato, e ninguém pode negar o talento de Uribe ditar a agenda política do país, mesmo estando na oposição – ele já vem fazendo isso há pelo menos vinte meses.

Toda a América do Sul espera pelo resultado, com cautela. O caso de espionagem contra a candidatura de Santos, assumido por Zuluaga às vésperas do primeiro turno, dá a sensação de que o uribismo ainda é o mesmo da Operação Fênix. À exceção do paraguaio Horacio Cartes, que deve estar ansioso com a possibilidade de mudanças em Bogotá, entre os demais presidentes, progressistas de diferentes graus, se impõe mais que o devido silêncio respeitoso a todo processo democrático alheio.

Sabem que Óscar Zuluaga é Álvaro Uribe, ou talvez mais que isso, é o pior de Álvaro Uribe, com uma plataforma centrada no endurecimento da violência como política de Estado. Certamente, escondem o inevitável temor de que novos problemas possam aparecer nas fronteiras colombianas.

  • julio

    parei no estadunidense… quem nasce no mexico tambem é estadunidense?

    • Silva

      Pois é. Chamar americano de estadunidense é como se eles chamassem brasileiros de republicofederenses.

      • victor

        E americanos não somos todos nós? Qual seria correto, então? Ianques?

        • Alex

          Americanos somos todos e norte-americanos é o gentilico de uso comum no Brasil para os cidadãos dos EUA, o que mesmo a sua avó aprendeu desde os bancos escolares.
          Qual é o seu problema?

          • Victor Farinelli

            E se existem muitas pessoas no Brasil (e fora dele mais ainda) que chamam eles de estadunidenses, e isso nunca foi uma ofensa, é só um jeito diferente de se referir a eles, talvez tenhamos que reconsiderar quem é que tem um problema. Se eu posso chamar os estadunidenses de estadunidenses, ianques ou norte-americanos, independente de qual é o mais ou menos usado desde os tempos dos avós de não sei quem (meu avô era de direita, daqueles que votava no Maluf, e os chamava de estadunidenses ou “os gringo”) significa que a liberdade que a direita tanto apregoa funciona. Pessoalmente, acho que tentar censurar a liberdade dos demais não é algo muito democrático, mas se alguém souber de alguma democracia do mundo onde seja obrigatório o uso de um único termo específico para se referir às pessoas nascidas nos Estado Unidos (ou qualquer outro país), eu juro que me retrato.

  • Luciano

    Apesar de tudo o que disse o autor, a verdade é que a Colômbia hoje é um país infinitamente mais seguro para se viver, e com uma economia pujante, crescendo a altas taxas anuais.
    Se Uribe fosse tão ruim, como poderia ter feito seus sucessores presidentes?
    Estive ano passado em Bogotá e fiquei realmente impressionado (de maneira muito positiva) com o que vi, nada lembra aquele país dividido e violento dos anos 1990 e início de 2000.

    • Alex

      A questão é apenas mais seguro pra quem.

  • Edvaldoo

    Zuluaga é o pior da direita colombiana, diz o militante que escreveu a coluna. Realmente, melhor seria Álvaro Uribe, o Homem que quebrou a espinha dorsal dos narcotraficantes das FARCs, grupo terrorista covarde e cruel, que mantém pessoas acorrentadas em seu domínio e vive de vender cocaína e de sequestrar inocentes. O povo colombiano não perdoará Santos por sua covardia de fazer genuflexão diante dos maiores assassinos da América Latina, os irmãos Castro de Cuba, para beneficiar as FARCs. Se nem o Putin aceita negociar com terroristas, por que a Colômbia tem que fazer isso? Terrorista não tem sangue na veia nem coração, são psicopatas perigosos, não poupam crianças nem mulheres, tem que ser tratados como bandidos e não com bajulação, como costuma fazer governo do PT.

  • Silva

    A Colômbia possui o 2º maior orçamento militar da América do Sul porque é o único país com terroristas ativos e organizados dentro de seu território há meio século. Essa correlação não é óbvia o bastante?

  • Jarbas

    Uribe e seu grupo são terroristas, ligados ao narcotráfico, que assassinam cidadãos civis inocentes!

  • Romualdo

    Muito bom o texto do Autor, se alguém acha que quando acabar a guerrilha, vai acabar também o narcotráfico, pode desistir desta ideia, pois os Paramilitares da Colômbia vão fazer exatamente o que os guerrilheiros vem fazendo todos estes anos, irão apoiar e dar toda cobertura aos traficantes, tendo a diferença de que vão querer uma fatia maior com o lucro da droga.
    Com Óscar Zuluaga, a violência contra os mais pobres vai continuar, isto se não aumentar, já para os EUA é mais um País latino em que poderá continuar livremente a ter os seus tentáculos imperialista, sugando tudo o que pode, até não poder mais, foi assim com Honduras e está sendo assim com a Paraguai.
    Pobre América Latina, que aos poucos vai sendo tragada pela fascismo e nazismo, não demorará muito e logo veremos estatuas de Mussolini e Hitler esparramadas pelo continente.

    • julio

      amigo, você se superou…parabens…

  • Emerson

    Eu, de vez em quando, venho até esse site pra ler o que anda “pensando” a esquerda chapa branca. Para minha surpresa vejo que os comentários dos leitores estão nitidamente “do outro lado”. Fico feliz em saber que a doutrinação esquerdopata e preconceituosa não tem encontrado respaldo nem mesmo entre os que leem a CARTilha Petista, ou melhor, a Carta Capital. Quanto à notícia….mais uma bela surpresa…parece-me que a esquerda na América Latina estão com os dias contados….Antes tarde do que nunca! Graças a Deus!

    • Sandro Kegler

      Emerson, faço a mesma coisa que você, gosto de ver os comentários, e vejo que só meia dúzia de “antenados” e “alternativos do outro mundo é possível” ainda defendem essas coisas da esquerda. As pessoas estão amadurecendo e graças a Internet estão mais esclarecidas.

    • Gabriel Braga

      Depois é a esquerda que não é democrática…

      Das publicações com repercussão e influência nacionais apenas Carta Capital é de esquerda e ainda assim é criticada por assumir seu lado.E a Veja,a Época e os jornalões,que são de direita,porque não são cobrados por suas posições ideológicas?

      Você parece torcer para que as idéias e os valores de esquerda sejam deixados de lado.Mas porque?Não é a direita que prega a liberdade de pensamento?A direita não consegue conviver com a divergência?Liberdade,meu caro,é a liberdade dos que pensam diferente,já dizia Rosa Luxemburgo.

      Cabe lembrar que todos os governos de orientações esquerdista da América Latina chegaram ao poder democraticamente e só porque a direita que governava a região nos anos 90 deixou um legado de miséria,desemprego e desesperança.Por isso o povo desses países resolveu mudar.Se agora a população resolver punir os erros dos governos de esquerda e dar uma guinada à direita,não há problema,pois assim funciona a democracia,que se não é o melhor dos regimes é certamente melhor do que qualquer ditadura.De esquerda ou de direita.

      • Comentário brilhante, Gabriel Braga!! É tudo isso que você disse mesmo! Dizer que apóia a Democracia é fácil, difícil é ser um legítimo democrata!!

    • Alex

      Já a direita chapa branca do governo de Sao Paulo vc pode encontrar na Veja, tem ido muito lá?