Piedad Córdoba: A paz que o governo quer não é a que
queremos para Colômbia

Piedad Córdoba se tornou o nome mais forte ligado às libertações de reféns e ao diálogo entre FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e governo colombiano. Ao longo de seus dezesseis anos no Senado (1994-2010), empenhou-se na luta das mulheres, dos negros e dos homossexuais, mas foi o fim de um conflito interno que dura mais de 50 anos a se tornar a maior causa de sua vida. “Penso em jovens que nasceram naquela época não poderão morrer como já morreram muitos pela falta da paz”, afirma.

piedad venezuela

Piedad em sua última visita à Venezuela, em dezembro de 2015 (Crédito: Reprodução/Twitter)

Apesar de estar afastada do cargo desde 2010 sob acusação de colaborar com as FARC, Piedad continua acompanhando as negociações, agora na posição de ativista de direitos humanos. Oficialmente, os Diálogos de Paz começaram em 2012, buscando um consenso entre as duas parte e obter um “Acordo Geral para o término do conflito e construção de uma paz estável e duradoura”.

Em 3 de dezembro de 2015, o Senado colombiano aprovou um projeto para realizar um plebiscito e validar os acordos de paz firmados entre guerrilha e governo. As FARC criticaram a medida, alegando que as negociações devem acontecer somente nas mesas de diálogo e envolvendo as delegações oficiais. Durante sua viagem a São Paulo, Piedad conversou com Rede LatinAmérica e falou sobre o processo de paz, perseguição política na Colômbia e suas relações com a Venezuela, onde esteve nas últimas eleições legislativas (6/12) para participar do programa de Acompanhamento Internacional. Leia abaixo sua entrevista:

A Venezuela recentemente realizou um processo eleitoral em que o governo perdeu maioria no Legislativo. É um país importante para a sua trajetória política por sempre ter sido hostilizada em razão de sua proximidade com o país vizinho. Como é esta relação?
A Venezuela é, para mim, um país muito querido, de que eu gosto profundamente, com uma forte relação com o tema da paz. Apesar de eu já ter ido à Venezuela muito antes de Chávez ser presidente por outras razões, quase também todo o tempo por causa das mulheres. Mas minha relação é muito mais forte a partir de Hugo Chávez e de Nicolás [Maduro]. Tenho muitos amigos lá, é um país de que eu gosto muito. Essa decisão de Chávez de participar das libertações fez com que passássemos muitas noites trabalhando juntos, em um assunto tão difícil. Chávez, já praticamente a ponto de quase deixar este plano, fez um grande esforço para que acontecessem as negociações de Havana.

Chávez, Néstor Kirchner e Piedad

Chávez, Néstor Kirchner e Piedad (Crédito: Reprodução/Twitter)

Foi um processo difícil, atacado por todos os lados. Mas me permitiu conhecê-lo mais a fundo, gostar mais dele, e porque já é um país onde… a Venezuela está para a Colômbia como a América Latina está para os Estados Unidos. São cinco milhões de colombianos que vivem na Venezuela, com uma fronteira muito complicada, de contrabando, de narcotráfico, de paramilitarismo. Há muita gente que vive lá fugindo da guerra, da violência. Eu acredito que cada família venezuelana tenha pelo menos um familiar colombiano. Não ocorre o contrário.

E em relação ao resultado das urnas, desfavorável ao governo?
É um país em que eu acredito profundamente. O que aconteceu nas eleições legislativas foi muito bom para o processo revolucionário bolivariano. Para os partidos do Pólo Patriótico porque vai permitir, a partir da mesma Constituição, fazer um processo de reflexão. É um país apaixonante a partir da democracia por si só, do aprofundamento de sua democracia e que tem muito a dizer ao mundo.

Sobre a Colômbia, qual é sua avaliação em relação ao governo de Juan Manuel Santos?

Acompanho o governo Santos mais em relação às negociações pela paz. Ele tem tido um comprometimento sério, mas acredito que a paz que ele quer não é a paz que nós queremos. A paz dele é muito diferente.

Quando ninguém no país queria enfrentar [Álvaro] Uribe [ex-presidente] pelo tema das libertações, eu o enfrentei. E este processo avançou com muita dificuldade, que Santos deu continuidade. Ou melhor, que ele começou. Chávez e Nicolás [Maduro] tiveram um papel muito importante, isso eu não me canso de repetir.

Quais são as divergências do processo de paz defendido por você e pelo governo Santos?
Nós estamos exigindo democracia. E a democracia não é a imposição do modelo que eles querem para o país. E que persegue os que não pensam como eles. Tem sido muito difícil esse processo. Entre outras coisas, porque, em seu governo, muita gente foi presa. Existem muitos presos de consciência na Colômbia no atual governo. Íngrid Pinilla, uma líder popular, agrária, na prisão. Miguel Ángel Beltrán, que é um dos intelectuais mais importantes do país. Foi trazido do México como se fosse um narcotraficante. Foi colocado na cadeia e impedido [de exercer cargos públicos] por 13 anos.

Por que existe esta divergência entre o processo que o governo quer e o que você defende?
Para eles, é um processo de pacificação. Para nós, é um processo de construção do país. A começar pela discussão sobre os mesmos temas. É um país muito desigual, de muita pobreza, de muita miséria. E onde há um cerceamento político muito grande. Nestas últimas eleições se certificou que há fraude eleitoral. A esquerda ficou praticamente liquidada em todo o país.

É possível, então, falar em fraude eleitoral na Colômbia?
Muita gente não tem cédula eleitoral. Muita gente não a tem porque tem medo de votar e ser identificado em algumas regiões. Existe uma guerra psicológica em que te matam politicamente, em que te desacreditam publicamente. É outra das estratégias do governo. A plataforma de trabalho deles agora são as grandes cadeias de rádio e de televisão, onde há um forte despretígio às campanhas de esquerda e mesmo aos processos [de paz] de Havana.

Há outro tema importante para o país que é a reforma do sistema eleitoral. Porque eles mesmos fazem fraudes nas urnas. É um jogo sujo, uma democracia sem garantias. Os meios de comunicação que existem estão não para abrir os microfones para nós, mas para nos perseguir através da mídia.

A Colômbia é um país que quer a paz a qualquer custo. Sem reformas, sem distribuição da riqueza, sem cidadania. Querem cidadãos cegos, que não exijam, que não demandem. Para mim, este vai ser meu debate com este governo daqui para frente.

Por que é tão urgente a necessidade de uma transformação na sociedade colombiana?
É um ambiente totalmente antidemocrático, com concentração de riqueza, com um projeto ideológico e político de direita. A Colômbia tem oito milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Guajira tem muitas pessoas morrendo de fome. A Colômbia foi classificada como o país mais desigual da América Latina. Mais que o Brasil, a começar porque temos um exército maior que o do Brasil, que tem 200 milhões de pessoas, e nós, 45 milhões. Eu tenho vergonha de dizer isto, mas nós já estamos exportando tecnologia militar, mas que é basicamente ‘homens capazes de matar em outros lugares’, Iêmen, Líbia, Iraque.

Piedad bola

Piedad durante o evento “Partido por la Paz” (Jogo pela paz), promovido por ela para apoiar as negociações de paz

Como analisa o conflito interno colombiano atualmente?
O problema do país não é a insurgência. É o modelo, de concentração política, de concentração econômica. Eu acredito que depositei aí todo capital político que eu tinha – no tema das libertações. Eu não poderia passar pela política como faz muita gente, cuidando da própria imagem e procurando condecorações por alguma razão qualquer. Receber um monte de medalhas que não indicam nada, não servem para nada, não significam nada. Penso em jovens que nasceram naquela época não poderão morrer como já morreram muitos pela falta da paz neste país. Essa é, para mim, uma motivação fundamental. É um dever ético indiscutível. Acredito que, apesar de todas as dificuldades que tive na política, esta tenha sido a melhor decisão que tomei.

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