Por que a paz na Colômbia não chegou na data prevista

Por Mariana Clini Diana

Dia 23 de março chegou e a Colômbia amanheceu tranquila, como um dia normal de semana santa, celebrada pelos católicos que representam a maioria neste país. Nada havia de atípico, exceto pela promessa feita, em setembro do ano passado, pelo presidente Juan Manuel Santos, junto com seu antagonista, de codinome Timochenko, máximo líder das FARC, de que esta seria a data em que o país veria a concretização do tratado que colocaria fim à guerra civil.

Seis meses depois daquele evento em Havana, que quase beirou o espetáculo, com os dois líderes dendo um histórico aperto de mãos – que, coincidentemente, precedeu as eleições regionais na Colômbia – a promessa não se cumpriu.

Aquele pré-acordo entusiasmou o mundo, mas os colombianos são conscientes de que o processo até a paz definitiva durará muito mais tempo. (foto: AFP/El Espectador)

Aquele pré-acordo entusiasmou o mundo, mas os colombianos são conscientes de que o processo até a paz definitiva durará muito mais tempo. (foto: AFP/El Espectador)

O fato não foi recebido com surpresa pelos colombianos. Segundo uma pesquisa feita em fevereiro pela empresa Gallup, 80% da população não acreditava que os diálogos de paz chegariam a uma solução nesta data. E pelo visto tinham razão.

O governo e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nem precisaram dar muitas explicações, em uma declaração difundida pelas cadeias de televisão nacionais, com grande público ao redor – porém, não passavam de jornalistas.

O fato também foi ofuscado pela visita histórica do presidente norte-americano Barack Obama à ilha de Cuba, no dia anterior, junto com o secretário de estado, John Kerry. O chefe da diplomacia estadunidense reafirmou o respaldo dos Estados Unidos às negociações pacíficas com as FARC.

Mas nem mesmo o apoio dos Estados Unidos – que enquadra as FARC em sua lista de grupos terroristas – foi suficiente para agilizar a finalização dos diálogos no prazo estipulado.

O calcanhar de aquiles dos diálogos

O que os delegados do governo esperam é que a guerrilha deixe as armas. No fatídico dia 23, Humberto De la Calle, representante do governo, declarou que os diálogos em Havana chegarão a uma conclusão quando se “rompa o vínculo entre a política e as armas”, por parte das FARC.

“O abandono das armas é condição essencial à aplicação dos mecanismos de justiça transicional”, sentenciou De la Calle.

A declaração do representante do governo faz referência ao acontecido em fevereiro deste ano, quando líderes das FARC se deslocaram até o departamento colombiano da Guajira, na fronteira com a Venezuela, para exercer o que eles chamam de “pedagogia da paz”. O que mais causou mal-estar entre as partes foi que esta comissão de guerrilheiros estava portando armas. Apesar de as FARC terem autorização para aplicar essa pedagogia com seus guerrilheiros, segundo o governo colombiano, a guerrilha “violou as regras do jogo, que estabeleciam não ter trato com a população civil”.

Outro grande entrave no avanço até a paz definitiva pode acontecer depois que as FARC se desarmem. O que se discute atualmente em Havana é como garantir a segurança dos ex-guerrilheiros que participem da vida política do país.

O genocídio de membros da UP (União Patriótica, partido criado em 1984), fruto de um acordo frustrado entre guerrilheiros das FARC com o governo de Belisario Betancur, deixou uma amarga lembrança aos ex-guerrilheiros que pretendem participar da política do país.

Uma das possibilidades discutidas em Havana é que, depois de desarmados, os ex-combatentes se mantenham em um espaço geográfico definido, com supervisão do Conselho de Segurança da ONU. A medida teria o objetivo de garantir que as duas partes, governo e FARC, cumpram com um cessar-fogo bilateral, sem a intervenção de outros grupos armados que existem na Colômbia.

Porém, as partes questionam que manter a guerrilha em um local isolado não coincide com o objetivo de inseri-la à sociedade civil.

Humberto de la Calle, representanto do governo colombiano nas negociações, coloca o abandono das armas por parte das FARC como condição para que o processo de paz possa avançar significativamente. (foto: El Espectador)

Humberto de la Calle, representanto do governo colombiano nas negociações, coloca o abandono das armas por parte das FARC como condição para que o processo de paz possa avançar significativamente. (foto: El Espectador)

Lutando contra o tempo

O governo colombiano e as FARC estão em negociações em Havana há três anos e meio. De acordo com outras experiências de diálogos com grupos armados em outros países, o caso da Colômbia está dentro da normalidade.

Na África do Sul, por exemplo, onde ocorreu um breve acordo de paz, cinco anos foram necessários para acabar com o regime do apartheid. Outros países, como Irlanda e Guatemala, precisaram de mais de uma década para passar da guerra civil à paz de forma negociada.

Porém, um possível acordo histórico com as FARC está se apresentando mais complexo do que o previsto pelo presidente Juan Manuel Santos. Na última declaração, as delegações em Havana não estipularam nenhuma data para a finalização dos acordos, como o fizeram em outros discursos anteriores.

Santos, desde que anunciou o início dos diálogos em 2012, vem lutando contra o tempo. Naquele discurso, o mandatário afirmou que estes acordos de paz chegariam em “questão de meses, não de anos”. Três anos depois, tudo indica que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

E com razão, pois de acordo com Humberto de La Calle um “bom acordo” é aquele que significará “uma oportunidade para uma política mais limpa, para impulsar uma maior participação (política), um diálogo mais permanente”. Se for assim, a paz na Colômbia não se limitará a ser resolvida somente na ilha de Cuba.