Por que não se fala do terrorismo contra Cuba?

Para entender a história da Revolução Cubana é importante aprofundar a informação sobre alguns temas que são tratados pela mídia tradicional a partir de meias verdades ou que são simplesmente ignorados por completo – e se vamos às redes sociais, alguns deles são totalmente distorcidos e mistificados.

Havana sob luzes e sombras, típicas de um país que vive ataque quase permanente, de diferentes formas, desde 1959.

Havana sob luzes e sombras, típicas de um país que vive ataque quase permanente, de diferentes formas, desde 1959.

Um deles é o sistema eleitoral cubano. Sim, em Cuba há eleições regularmente, para escolher representantes das assembleias regionais. Dessas assembleias regionais saem os candidatos que serão eleitos para a Assembleia Nacional, que tem, como uma de suas responsabilidades, referendar os nomes que conformam o Conselho de Estado, e também o seu líder – cargo ocupado hoje por Raúl Castro. Outro detalhe importante é que os representantes das assembleias cubanas não recebem nenhum tipo de remuneração por seu trabalho político, todos se dividem entre a tarefa parlamentar e o exercício de suas profissões, e vivem do salário deste segundo.

Ou seja, Cuba tem um regime democrático indireto. Bastante mais indireto, mas não muito diferente no conceito do que é o velho sonho parlamentarista dos tucanos e de alguns outros setores da direita brasileira – o midiático, por exemplo –, e um sistema político onde nenhum parlamentar significa um gasto público para o Estado, o melhor exemplo da utopia anticorrupção de outra parte da direita brasileira.

Porém, um tema ainda mais profundo e ainda mais inexplicavelmente silenciado é o do terrorismo. E quando falamos no terrorismo contra Cuba temos que lembrar sempre do apoio – moral, financeiro, operacional e muitos outros mais – dos Estados Unidos.

Os casos são muitos, e terríveis. A partir dos Anos 60, especialmente depois da Crise dos Mísseis (1962), o país passou a ser um dos inimigos prioritários dos Estados Unidos – dentro do contexto da Guerra Fria, a Cuba comunista era como uma pequena União Soviética molestando os calcanhares norteamericanos, e isso teve consequências.

O bloqueio é uma das formas de agressão mais longevas, entre as muitas sofridas por Cuba desde o início da Revolução.

O bloqueio é uma das formas de agressão mais longevas, entre as muitas sofridas por Cuba desde o início da Revolução.

Primeiro, os Estados Unidos tentaram impedir o sucesso daquele novo modelo político, e para isso impôs o embargo econômico e comercial, medida que configura uma violação flagrante à Carta das Nações Unidas e que é repudiada pela maioria dos países do mundo. Embargo que não obteve tantos resultados nos anos em que a ilha recebeu ajuda constante da União Soviética e tinha boa relação com o bloco comunista do leste europeu, mas que foi bastante efetivo depois da queda do Muro de Berlim – e ainda assim não foi suficiente para derrubar o governo.

Se isso não é uma forma de terrorismo institucional, vamos aos casos de violência mais crua. Nos últimos cinquenta anos, a ilha foi alvo de ataques mercenários, da ação de espiões, do uso de armas biológicas contra a população ou contra plantações (neste link você pode conhecer alguns casos importantes), além dos casos de sequestro e explosão de aviões e embarcações, as sabotagens e atentados contra hotéis e em locais turísticos, com mortos, feridos e danos materiais em abundância. Sem contar as dezenas de tentativas de assassinato contra o próprio Fidel Castro – certamente, nenhum homem na história sofreu tantos atentados contra sua própria vida quanto o líder cubano, e sobreviveu a todas.

O caso mais dramático, sem dúvidas, foi o atentado ao Voo 455 da Cubana de Aviação, no dia 6 de outubro de 1976. O avião trazia duas instaladas nos banheiros que explodiram nove minutos depois de sair de Bridgetown, em Barbados. O piloto Wilfredo Pérez, ainda tentou retornar ao Aeroporto de Seawell, segundo gravações de rádio, mas mudou de ideia após a segunda explosão, e mudou o rumo da aeronave para que seus restos caíssem no Oceano Atlântico e não nas proximidades das praias barbadenses, onde poderia produzir mais vítimas em terra. Todos os 73 ocupantes do voo faleceram, incluindo a equipe juvenil de esgrima de Cuba, considerada uma das mais promissoras do país, e que acabava de conquistar todas as medalhas de ouro num torneio internacional em disputado na Guiana.

Emotivo funeral das vítimas do Voo 455 da Cubana de Aviação, mortos no atentado terrorista de 1976.

Emotivo funeral das vítimas do Voo 455 da Cubana de Aviação, mortos no atentado terrorista de 1976.

Os responsáveis pelo atentado foram os terroristas Orlando Bosch e Luis Posada Carriles, cuja impunidade foi garantida pelo apoio da comunidade anticastrista de Miami, junto com a cumplicidade da Justiça estadunidense. Bosch faleceu em 2011, vinte anos depois de receber o perdão oficial do presidente George Bush pai, com o qual viveu uma vida tranquila no país que se diz o maior inimigo do terrorismo, apesar de ele ser considerado por todos os organismos internacionais de segurança como um dos mais sanguinários terroristas do planeta. O mesmo acontece com Luis Posada Carriles, que ainda está vivo e em liberdade, após a Justiça do Texas retirar as acusações contra ele em maio de 2007, mediante pagamento de fiança.

Além da explosão do Voo 455 – na qual contaram com a colaboração do agente da CIA Michael Townley, especialista em explosivos conhecido por sua colaboração com o golpe e a ditadura no Chile de Pinochet, e que também vive impune nos Estados Unidos – Bosch e Posada Carriles participaram de diversos outros atentados em Cuba, e também foram os responsáveis por grande parte das fracassadas tentativas de magnicídio contra Fidel Castro, sendo que muitas delas resultando na morte de inocentes.

Os dois terroristas também apoiaram a planificação e preparação dos diversos atentados em Cuba durante os Anos 90. Com o fim da União Soviética, a ilha passou a apostar fortemente no turismo como forma de salvar sua economia, e a reação dos grupos mais radicais do anticastrismo foi usar os atentados para afugentar os europeus que queriam conhecer lugares como Varadero, Playa Ancón e Cayo Saetía. Um desses atentados, em 4 de setembro de 1997, instalado no Hotel Copacabana, na capital cubana, e que acabou com a vida do jovem empresário italiano Fabio di Celmo, além de causar ferimentos em dezenas de outras pessoas que estavam no edifício. A ação, que também contou com a colaboração de agentes da CIA, foi retratada pelo filme Cuando la Verdad Despierta, no qual aparecem imagens de Fidel Castro.

Crianças cubanas reunidas antes de embarcarem a Miami. Imagem presente no documentário "Operación Peter Pan", da diretora Estela Bravo.

Crianças cubanas reunidas antes de embarcarem a Miami. Imagem presente no documentário “Operación Peter Pan”, da diretora Estela Bravo.

Quem lembra do caso dos cinco agentes cubanos presos em Miami, em 1998? Eles faziam parte de uma missão antiterrorista, que tentou se antecipar a futuros atentados e impedir que eles acontecessem, evitando novas vítimas. Passaram 16 anos na prisão, e sua liberdade, concedida em 2014, causou a ira da comunidade cubana da Flórida, a mesma que comemorou a morte de Fidel.

Outro caso de bastante impactante foi a chamada Operação Pedro Pan, marcada não pela violência física, mas sim pelo cúmulo da falta de escrúpulos em nome da desestabilização social de Cuba e de suas famílias. O plano consistiu em levar crianças de Cuba à Flórida para serem doutrinadas e preparadas para odiar o seu país natal, contava com a ajuda de meios de comunicação opositores e especialmente da Igreja Católica cubana, e com isso convenceram muitos pais, especialmente de classe média, de que essa era a única forma deles escaparem da doutrinação comunista.

Nos primeiros anos da Revolução, algumas rádios contrárias ao novo governo semearam o pânico com um discurso que dizia: “mães cubanas, não deixe que o governo revolucionário roube os seus filhos. O plano dos comunistas é levar todos os que tenham a partir de 5 anos à União Soviética, e treiná-los lá até os 18 anos”. Porém, na prática, foram os Estados Unidos que fizeram isso: mais de 14 mil crianças cubanas viajaram a Miami entre dezembro de 1960 e outubro de 1962, e algumas delas nunca mais voltaram. Durante os voos, para conter o medo e a ansiedade das crianças, os agentes diziam às crianças que elas estava indo à Terra do Nunca, por isso elas passaram a ser conhecidas como “os pedro pans cubanos”, determinando também o nome pelo qual ficou conhecida a operação. O documentário Operación Peter Pan, da diretora Estela Bravo, conta as histórias de algumas das crianças separadas das suas famílias por razões políticas.

Nos 57 anos após o início da Revolução Cubana, o governo contabiliza um total de 681 ações terroristas no país. Todas elas documentadas e muitas contando com recrutamento, ou apoio logístico e/ou financiamento por parte das agências de inteligência norte-americanas, o que incluía a utilização de mercenários em alguns casos. O terrível saldo desses atentados foi de 3478 vítimas fatais e 2099 mutilados, sem contar as que não tiveram sequelas físicas.

Saguão do Hotel Copacabana, em Havana, após a explosão das bombas no atentado de 1997.

Saguão do Hotel Copacabana, em Havana, após a explosão das bombas no atentado de 1997, que terminou com a vida do turista italiano Fabio di Celmo.

Seria um exagero comparar a política de hostilidade e de violência – física e econômica – fomentada pelo governo dos Estados Unidos contra Cuba com os casos de executados políticos durante a Revolução?

A pergunta é uma provocação, cada um pode e deve tirar suas próprias conclusões. Mas há também um elemento importante a se considerar sobre o tema. As centenas os executados pelo Estado cubano foram condenados em casos nos quais se envolveram diretamente em temas políticos da ilha, ainda que isso não seja argumento para justificar um assassinato. Já as milhares de vítimas dos atentados contra Cuba, assim como os milhões de afetados pelo terrorismo econômico impulsado pelo governo estadunidense, não tinham nenhuma ligação direta com o sistema político do país, cuja derrubada foi o argumento que justificou tais ações.

(Com informações dos sítios web Granma e Cuba Debate).