Por uma Bolívia significante

Tudo começa na educação, e a educação brasileira, desde a nossa contraditória independência, tem tratado de separar o Brasil da América do Sul. O histórico conselho de José Bonifácio a Dom Pedro – “coloque a coroa na cabeça antes que algum aventureiro o faça” – era para evitar que o Brasil se integrasse às revoluções independentistas que pipocavam naquele continente de Simón Bolívar e José de San Martín.

Foi uma ordem com efeito duradouro. Através dos tempos, as elites brasileiras se esforçaram em manter o país culturalmente distante. Alimentamos o axioma do país continental. Nos vimos, durante décadas, como o luxuoso apêndice de um subcontinente mal formado, uma horda de povinhos “cucarachos”, feios, sujos e ignorantes. Nas aulas de história, aprendemos sobre a independência dos Estados Unidos, mas não nos ensinam nada sobre as dos nossos vizinhos.

Nesse contexto, é possível compreender como uma professora da universidade mais importante do país possa defender impunemente a xenofobia contra a parte da América à qual viramos as costas. “A Bolívia é um país insignificante”, segundo ela, guardiã da ideologia de uma elite que odeia índios, enquanto se maravilha com os modelos trazidos do norte, os espelhos modernos, sem entender até hoje o papel que faz diante deles – José Bonifácio tampouco entendia porque tratava os independentistas de outrora como a grande imprensa atual trata Evo Morales, Hugo Chávez, Cristina Kirchner e outros.

Corre pelas nossa veias abertas, e nós nem percebemos

Corre pelas nossa veias abertas, e nós nem percebemos

Porém, aos poucos, uma parte do Brasil vai se desfazendo da influência cultural das classes altas. Talvez seja o novo milênio, ou o aumento da renda das classes baixas, o que permitiu que, desde meados da década passada, esses brasileiros pudessem e quisessem viajar além fronteiras.

Brasileiros que querem descobrir a América Latina, e que já conseguem contestar a imagem da latrina difundida historicamente pelos poderosos. Que foram ao México não só pelos mariachis e os burritos, que viram que a Argentina não é só tango e Maradona, ou que a Colômbia não é um país de guerrilheiros e narcotraficantes, e que o Haiti também é latino, apesar do idioma diferente. Alguns já perceberam que o Chile, tido pelos economistas como o oásis de prosperidade no continente, tem pobreza por todos os lados e é um dos países mais desiguais do planeta, ou que a América Central continental, influenciada por Washington e não por Havana, a miséria e os assassinatos políticos são piores e mais frequentes que na ilha comunista.

Ainda falta muito o que descobrir. Somos três jornalistas que estão há dez anos tentando, como vocês, desbravar o continente, e também não vimos tudo, mas queremos convidá-los a continuar esse caminho juntos. Cruzamos as fronteiras pensando em aceitar novas ideias, entender realidades desconhecidas, sem os vícios dos velhos preconceitos – aqui todos podem debater, mas não haverá espaço para desqualificações. Queremos montar com vocês um espaço bilíngue, que possa dialogar com as diferentes culturas e cenários sócio-políticos do continente, criando assim nossa particular rede latina.

¡Sean bienvenidos!

  • vanderlei

    Espanhol horrível! Com certeza foi um brasileiro quem escreveu o artigo!

    • Urias Matos

      Você sabe ler caro Vanderlei, ou é um analfabeto funcional que não compreende o que lê?

    • Lz

      Velho, como você é pequeno.

  • Paulo Araki

    Conheço a maioria dos paises da América Latina… e também o interior e somos parecidos de mais com eles. Já fui várias vezes confundidos como um deles e me deixou com muito orgulho (sou descendentes de orientais).
    Sempre achei um absurdo tentar desqualificar essas nações.
    Agora, vejo uma publicação que não é ditada pelo norte, mostrando o que sempre acreditei.
    Obrigado
    Paulo Araki

  • Luis Silva

    Fico extremamente feliz em saber q existem pessoas serias, mirando os o lofotes na nossa querida América Latina. E como vc bem disse, q tao pouco conhecemos. Mais uma vez obrigado.

  • Mari Becker

    Eu acho que o Brasil sempre se isolou dos demais países da América Latina por causa da forte barreira criada pelo idioma espanhol e porque a cultura dos outros países do nosso continente é absurdamente diferente da brasileira. Os brasileiros se identificam muito mais com a cultura européia e norte americana.

    • Thalles

      Eu não acho. Pois o espanhol é uma lingua mais facil de lidar do que o ingles, frances, italiano ou etc, para quem é monoglota. A questão é que o brasil sempre aspirou uma cultura européia, uma cultura de ‘elite’, sempre pensou o mundo como desenvolvidos e subdesenvolvidos (outro rótulo criado para hierarquizar) e a maneira de se aproximar do desenvolvido é uma tentativa de aspirar a cultura do norte. Não consigo pensar como as culturas latino-americanas são tão diferentes das nossas, mesmo porque acredito que isso não seja um argumento suficiente para explicar esse distanciamento.

      • Silvio

        Por fim alguém pensando em América

      • Silvio

        Thalles:
        Você diz que o Espanhol e fácil. Como língua latina o seja derivada do Latim e muito difícil. Sendo o Português, Espanhol Romeno, Italiano e Frances, todo difícil, gramática muito complicada. Tem muitos tempos em a conjugação de verbos. O Inglês tem três tempos, e o Japonês tem um sô tempo. Não podemos usar o termo Brasil, porque o povo brasileiro nunca foi tido em conta. Apenas a elite e que se tem mostrado nada mais, e a elite sempre olhou para fora e não para dentro do Brasil. E o distanciamento e ocasionado por os interesses de manter todos estes povos distantes sem unir se porque assim sempre foi mais fácil explorar eles. Sempre de tratou de que o Brasileiro fosse tratado pelos argentinos de macaco, que os brasileiros tratassem de índios os bolivianos, os peruanos, e assim sempre tratando se de criar alguma coisa como o futebol, para manter os povos distantes. Por sorte isso esta acabando.

    • Paulo

      Voce fez tres afirmaçoes, duas das quais nao sao corretas. O espanhol eh provavelmente a lingua mais proxima do portugues, portanto o distanciamento nao foi linguistico. E o Brasil eh muito mais parecido com o Mexico, com a Venezuela, com a Colombia do que com os paises protestantes do norte: o Brasil eh sim absurdamente diferente da Alemanha e do Canada!

      Voce estah correta que os brasileiros querem se ver europeus, querem se identificar com as culturas do norte, mas sem transformar o Brasil em um pais igualitario como os do norte. Eh diferente pensar ser e ser.

  • Guiomar

    Excelente trabalho, temos que pesquisar, pensar e refletir sobre as veias abertas da América Latina.

  • Daniel Ricarte

    O nosso país está deficitário em educação e consideração com “los hermanos” da América Latina. É preciso mais reflexão sobre a postura desta nação frente a sua própria região. O atraso que ainda existe na América Latina é resultado do tratamento descuidado e da prioridade em valorizar a cultura norte americana e a européia.

  • Cleber G. Alves

    Penso que os governantes do Mercosul deveriam impor o idioma espanhol e portugues nas escolas publicas, já que uma das principais barreiras de interação entre os povos é a língua. O inglês é banalizado mas escolas públicas, aprendemos verbo “to be” em todas as series do ensino médio e nao deve ser assim com o espanhol.

  • Pingback: Mira el porque los latinoamericanos deben quierer el PT y la izquierda en Brasil()

  • Andre Motta

    Que maravilha! Vamos juntar todos os medíocres da América LATRINA e fazer desse continente, cheio de pessoas educadas e trabalhadoras, um farol que guiará a humanidade para um novo patamar de civilização, nunca antes visto na história desse planeta!

    • André

      Finalmente um comentário inteligente.

  • Elias

    Logo logo teremos policiais vermelhos em toda parte ai irão votar em outro partido mas sera tarde demais, não existe outro partido.

  • Rodrigo Oliveira

    Genial o texto! Estou ansioso para acompanhar o blog. Parabéns!

  • Manuel Guerrero

    O que acham de seguir satisfazendo o interesse pela América hispânica conhecendo o que propões os seus intelectuais mais consultados?
    Néstor García Canclini (Argentina)
    https://www.youtube.com/watch?v=4mklDt97eQc

    Aníbal Quijano (Perú)
    https://www.youtube.com/watch?v=slD-iPiGgmY

    Enrique Dussel (Argentina)
    https://www.youtube.com/watch?v=u3Y0L14zZ-I

  • Frederico Valério

    Chamou-me a atenção seu artigo, porque vivi alguns anos na Bolívia, La Paz, e foi uma experiência enriquecedora e uma feliz descoberta. No entanto, se sua apreciação cultural e turística está correta, ao virarmos os olhos para as infindáveis riquezas sudamericanas, isso não pode valer como regra para seguirmos a orientação política atual da maioria deles.

  • Paultx

    Fazer essa união sempre foi e será difícil. Desfazer essa desunião foi tornado quase impossível. Quase. =)

  • Lz

    Quero deixar os parabéns pela iniciativa, e pelo tapa à professora (se é que assim podemos qualifica-la). Isto me lembra a “Canción por la unidad de latino america” de Chico Buarque e Pablo Milanés, num daqueles discos do Clube da Esquina.

  • Denise Pereira

    Cleber…concordo contigo…e fiquei ” encantada” quando um dia vi a minha filha de 11 anos postar numa rede social a seguinte frase: ” Tirei 7,5 em português e 10 em ingles…isso É Brasil”… pude ali perceber o quão “somos” influenciados…nossas crianças ( o futuro) tbm já podem entender…
    Abraço.

  • Iuri LC
  • João

    Esta terra ainda vai cumprir seu ideal…Ainda vai tornar-se uma imensa Bolívia, Venezuela….

  • Sergio Gonçalves

    Estamos finalmente nos descobrindo latino-americanos.

  • Lázaro

    Poxa que legal! É tão bom encontrar um espaço como este na internet, logo que vi que a Carta Capital lançaria um portal com notícias bilíngues da nossa querida América Latina fiquei bastante interessado, sempre acreditei na integração, no Mercosul, na Unisul, encontro pouca coisa com ideias semelhantes na internet. É um pena que somente a esquerda brasileira tenha esse pensamento de união, acho que ser de direita não significa odiar os nossos vizinhos, acredito em uma convivência sem preconceitos, mas sinto que alguns setores da sociedade se negam a isso. Tenho um site que eu sempre me proponho a divulgar porque é muito interessante, ele fala sobre a criação cinematográfica no nosso continente, devido a especificidade nem sempre há muito conteúdo, mas o que tem é sempre muito bom, se puderem, acessem: http://www.lalatina.com.br/wp/

  • Eduardo

    Dificil entender o motivo de desejarem negar nossas raizes lusitanas e nossa figura unica, para transformar o Brasil em mais uma republiqueta cucaracha.

    Temos nossa propria historia e nossa propria lingua, em nome desta suposta integracao sugerem que venhamos a prender uma lingua que nao somente e feia e inutil como deveriamos nos subjugar e negar o que realmente somos.

    O Brasil nao e cucaracho e jamais sera, se desejassem integracao de fato para conosco, que venham a aprender portugues. Nao dividimos a mesma historia, as mesmas raizes ou mesmo temos a mesma composicao racial. Somos tao distintos dos cucarachos como Portugal de Espanha, lembrando que nossa historia nao se iniciou em terras americanas e que Portugal tornou-se um reino unificado muito antes que a Espanha.

    Devemos ser aceitos por aquilo que somos e ter orgulho da nossa nacao, por seu vasto territorio continental, por sua historia unica e por nossas origens que acima de tudo nos deram uma lingua bela ao contrario dos cucarachos que tem em comum entre si uma lingua que soa como se um cachorro estivesse tentando falar.