Pou: a nova direita amorosa do Uruguai

Neste domingo, 26 de outubro, enquanto o Brasil termina de definir seu futuro político, o Uruguai começa a decidir o seu. E engana-se quem pensa na popularidade de Pepe Mujica para supor que ele conseguira eleger facilmente o seu sucessor.

Pelo contrário. O candidato de Mujica, aliás, é o seu antecessor no cargo, o oncologista Tabaré Vázquez, que liderou todas as pesquisas até agora, mas não consegue sair da faixa entre os 40% e 45% – na última pesquisa do primeiro turno, do instituto Factum, aparece com 44%.

Existe uma pequena porém improvável chance de Vázquez vencer no primeiro turno, mas o mais esperado é que a eleição vá para o segundo turno, e é aí que entra o desafiante, aquele que quer mudança de direita como Aécio Neves no Brasil, mas uma direita diferente, com um discurso diferente, tanto do Brasil como do continente quase inteiro.

A renovação da direita no Uruguai para por ele: Luis Alberto Lacalle Pou

A renovação da direita no Uruguai para por ele: Luis Alberto Lacalle Pou

Trata-se de Luis Alberto Lacalle Pou, que tem o mesmo nome do seu pai, Luis Alberto Lacalle, que foi presidente do país (1990-1995) e candidato presidencial novamente em 2009, quando perdeu para Mujica. Para diferenciá-lo do pai, seus correligionários o chamam LP, ou simplesmente Pou – sim, como a aplicação-bichinho-virtual do momento.

Advogado de 41 anos e deputado desde 2000 pelo Partido Nacional, um dos mais tradicionais da direita uruguaia, Pou concorre pela primeira vez a um cargo executivo, não só com a intenção de tirar a esquerda do poder – com os já dez anos de governos da Frente Ampla –, mas principalmente, segundo seu discurso, promover uma nova direita uruguaia que busque voltar ao governo “pela via positiva”.

Embora bem diferente de Lula no que diz respeito a ideias, sua postura é uma clara versão cisplatina-conservadora do “Lulinha Paz e Amor” de 2002. Pou critica muito os governos de Mujica e Vázquez, mas o faz sem atacar pessoalmente aos dois. Mais que isso, faz reconhecimentos, apela a seus seguidores a fazer o mesmo, a aceitar os pontos positivos dos governos de esquerda, mas se focalizar em temas que ele considera pendentes na sociedade. Defende o debate sem ofensas, defende uma direita que dê o exemplo de convivência, sem agressões, sequer verbais, o oposto do discurso raivoso adotado por alguns setores da direita brasileira, nas eleições que acontecem paralelamente no país tupiniquim.

Essa nova direita “pela via positiva” conseguiu adeptos, e os tradicionais eleitores do Partido Nacional começaram a replicar o discurso com muito mais entusiasmo que a antiga plataforma do medo da esquerda ou do “tupamaro-terrorista” que atribuíam a Mujica no passado recente. Tanto é assim que Pou deve conseguir chegar por perto dos 35% de votos, segundo dados da mesma pesquisa Factum, o que seria seis pontos percentuais a mais que os que teve seu pai nas ultimas eleições. Em projeções para o segundo turno, Pou e Vázquez aparecem em empate técnico na maioria das pesquisas, o que aponta a uma decisão emocionante no país.

Apesar de se apresentar como o novo, Pou não esclarece se vai voltar à antiga política privatizadora de seu pai, que foi presidente do Uruguai nos Anos 90.

Apesar de se apresentar como o novo, Pou não esclarece se vai voltar à antiga política privatizadora de seu pai, que foi presidente do Uruguai nos Anos 90.

Claro que a retórica de Pou incomoda a esquerda, sobretudo num aspecto que o leva a alusão mais com Marina Silva que com Aécio Neves – embora no campo das convicções, ele seja bem mais claramente de direita. Pou também usa o conceito de renovação na política, de ideias e de nomes, e se apresenta como o rosto dessa mudança. Evita expor suas convicções em temas polêmicos, principalmente econômicos, como a volta das privatizações. Nas poucas vezes que expôs alguma proposta mais clara acabou mais perdendo que ganhando – por exemplo, no começo da campanha, ele defendia abertamente a diminuição da maioridade penal, mas foi mudando durante a campanha, e agora se diz defensor de um debate na sociedade antes de tomar decisões. Na prática, significa que ele pretende plebiscitar as decisões em temas polêmicos, como a Lei do Aborto, da qual ele diz ser contra por princípios, mas está disposto a medir sua popularidade através de um plebiscito.

Também foram abrandando suas críticas aos programas sociais e de distribuição de renda mantidos pela Frente Ampla, dando a deixa para que ele usasse um jargão de Aécio Neves: “tudo o que for bom continuará vigente”, embora sem especificar o que e como será mantido.

Para chegar à vitória, Pou pretende primeiro garantir o segundo turno, evitando a vitória antecipada de Vázquez, para depois incorporar os votos de Pedro Bordaberry, candidato do Partido Colorado, também de direita, que será o provável terceiro colocado, e que deve ter por volta de 16% segundo a pesquisa Factum.

POU DEFINITIVO

Com uma campanha bem orientada nas redes sociais e no mundo virtual, Pou quer ser um presidente real para os uruguaios, pregando a discordância pacífica e saudável entre os seus eleitores e os dos seus adversários.

Mesmo que isso não seja suficiente para levá-lo à presidência, pelo menos uma vitória o jovem político terá quase com certeza, já que esse cenário presidencial deve se refletir nas eleições legislativas, e com esses números, nem a Frente Ampla nem a oposição poderão ter maioria qualificada para a aprovação de alguns projetos-de-lei , ou como diz Pou, “não se poderá governar mais na base da imposição, será preciso dialogar sempre”.

Pou admite o sucesso de Mujica a nível mundial e o benefício que isso trouxe em reconhecimento internacional para o país, mas aproveita que isso não se reflete no âmbito interno, onde a aprovação ao seu governo não é tão grande. Na verdade, esse panorama demonstra a separação que feita entre o governante e a personalidade: 65% dos uruguaios considera Mujica uma figura simpática e confiável, mas ao analisar seu governo a aprovação vai para 56%, com uma rejeição também importante, bordeando os 40%.

Números que explicam porque a corrida eleitoral uruguaia mostra um equilíbrio que surpreende, e que pode terminar também de forma surpreendente.

  • Andre Costa

    Mais um herdeiro. A direita latina fala tanto da dinastia dos Castro, mas adora um poder hereditário? É neto de Presidente no Brasil, filho no Uruguai, fora o que vemos nos níveis estaduais e municipais e no legislativo. Ahhf!
    Mudança com a direita na AL sempre será uma contradição por definição!

    PS.: As políticas de direita para os países pobres e periféricos da AL são indefensáveis! Por isso eles têm que camuflar para serem eleitos e então cometerem seus estelionatos eleitorais. Verdadeiras traições para quem votou neles sem que soubesse o que fariam ao certo.

    • Véio Zuza

      Senso crítico, meu amigo. O candidato a vice na chapa da FA é RAUL SENDIC, filho do lendário líder tupamaro do mesmo nome… explicação: no paisito, tão pequeno, todo mundo é parente…
      Na época da ditadura (deles) diziam que em cada família tinha um milico e um tupa…

  • KELVIN

    Um Retrocesso inominável para o Uruguai, o continente Sul americano, e toda a população uruguaia, um dia triste para a democracia.

  • Paulo Soares

    Pela regra da língua espanhola o correto é referir ao primeiro sobrenome: “Lacalle” e não ao segundo “Pou”. Então o correto é “Lacalle: a nova direita amorosa do Uruguai”.

    • Luiz Gustavo Mondin

      Entao cara, ele deve usar dentro de Uruguai o “Pou” da mae dele justamente para disfarçar essa ascendencia direta ao “Lacalle”, vista por muitos uruguaios como desastrosa.

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