Roberto Marinho do Chile é expulso da Ordem dos Jornalistas

Mino Carta, diretor da Carta Capital, costuma dizer que o Brasil é o único lugar no mundo onde jornalista chama patrão de colega. Deve-se agregar a essa máxima o gosto dos patrões por serem chamados de “jornalistas” e não de empresários da mídia.

Roberto Marinho é um símbolo dessa tendência brasileira à bajulação. Mesmo depois de morto, as homenagens a ele sempre se referem ao “jornalista Roberto Marinho”, ainda que, por mais que ele tenha exercido de alguma forma a profissão, não foi ela que o distinguiu ou o tornou poderoso.

Contudo, o Brasil só se diferencia pela reciprocidade dos jornalistas. Esse afã dos patrões da mídia em parecerem profissionais liberais e não grandes capitalistas existe em vários lugares do mundo. No Chile, por exemplo, Don Agustín Edwards, dono do hiperconservador jornal El Mercúrio, chegou a se filiar ao sindicato dos jornalistas, assim como seu pai e os demais membros da família envolvidos no negócio da mídia, conformadores do maior grupo comunicacional do país.

Agustín Edwards, empresário dono do grupo Mercurio, foi expulso da Ordem dos Jornalistas do Chile no último dia 20 de abril. (Foto: Ordem dos Jornalistas do Chile)

Agustín Edwards, empresário dono do grupo Mercurio, foi expulso da Ordem dos Jornalistas do Chile no último dia 20 de abril. (Foto: Ordem dos Jornalistas do Chile)

Aproveitando essa situação, a Ordem dos Jornalistas do Chile iniciou um processo contra ele em 2014, “pelas montagens jornalísticas realizadas pelos meios do qual era diretor, entre os anos de 1973 e 1988, com o fim de encobrir violações aos direitos humanos e promover a quebra institucional e um regime que colocou em risco a integridade física e o trabalho de jornalistas”, entre outras violações ao código de ética da entidade, segundo seu texto.

A denúncia foi avaliad nesta segunda-feira (20/04) pelo Tribunal de Ética da Ordem, que decidiu expulsar o empresário da entidade. Agustín Edwards, de 87 anos, perdeu assim sua credencial de jornalista, o que não o impedirá sua atividade como empresário de mídia, mas não permite mais que pose de representante da profissão.

A decisão do tribunal foi respaldada em processo que trazia uma bem detalhada lista de casos emblemáticos de deturpação de informações por parte dos meios do grupo Mercurio, como a lista de 119 membros do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária, por sua sigla em espanhol) assassinados pelos órgãos repressores de Pinochet, que o jornal vespertino La Segunda (do grupo Mercurio) afirmou que morreram após disputas internas em esconderijos no lado argentino da cordilheira – citando como fontes publicações do Brasil e da Argentina que não existiam. Ou quando o próprio diário principal, El Mercurio, publicou fotos montadas onde apareciam líderes estudantis chilenos apontados como responsáveis por criar um tumulto de grandes proporções durante a visita do Papa João Paulo II a Santiago, em 1987. Ao lado das montagens, a edição trazia fotos ampliadas dos rostos dos jovens feitas pelo serviço de inteligência da ditadura.

A presidenta da Ordem dos Jornalistas do Chile, Javiera Olivares, anuncia a expulsão de Agustín Edwards da entidade. (Foto: Ordem dos Jornalista do Chile)

A presidenta da Ordem, Javiera Olivares, anuncia a expulsão de Agustín Edwards da entidade. (Foto: Ordem dos Jornalista do Chile)

A lista de denúncias incluiu também as atividades de Agustín Edwards prévias ao golpe de Estado em 1973. Um ano antes, depois de haver assumido sua postura de oposição feroz ao governo da Unidade Popular de Salvador Allende (1970-1973), o empresário foi a Washington, onde conseguiu uma audiência com Henry Kissinger. Saiu da conversa com a garantia de um financiamento para o seu autoexílio nos Estados Unidos e para suas empresas, na tarefa de desestabilizar o governo chileno a partir de uma campanha de desinformação, segundo fatos comprovados em documentos relacionados à Operação Condor e revelados pelo Informe Valech, uma das duas comissões da verdade realizadas no país. A ajuda estadunidense viabilizou a promessa feita por Edwards antes de tomar o avião, em Santiago: “só volto quando este governo cair”.

E assim foi. Em 1974, com os militares já controlando a situação, perseguindo e assassinando toda e qualquer forma de pensamento discrepante no país, Edwards voltou ao Chile, e ao comando empresarial do jornal sendo ademais o principal responsável por torná-lo o veículo símbolo da ditadura – não que outros meios não fizessem a mesma defesa do regime, mas nenhum foi tão apaixonado e vinculado ideologicamente quando o El Mercurio, quase um diário oficial informal.

A perda da credencial por parte de Edwards é parte de um novo capítulo da história chilena de reparação dos vestígios da ditadura. Nas últimas décadas, o país foi eficiente ao julgar e condenar grande parte dos responsáveis pelos crimes contra os direitos humanos, incluindo o chefe maior da repressão, o general Manuel “El Mamo” Contreras – um processo que, por outro lado recebe críticas por ter deixado impune o ditador Augusto Pinochet e por ignorar os civis que apoiaram e até mesmo financiaram o golpe e a posterior ditadura, como é o caso de Agustín Edwards.

Desde o ano passado, a tendência vem sendo a de limar o nome dos artífices da ditadura de entidades e instituições onde elas atuaram durante o regime. Além da Ordem dos Jornalistas, outra instituição que iniciou um questionamento semelhante é o Colo-Colo, clube de futebol mais popular do país, e que tem o nome de Pinochet na lista de seus presidentes de honra desde 1987. Desde o começo deste ano, o movimento Colo Colo de Todos vem reunindo assinaturas de sócios e torcedores, e pretender apresentar uma moção na próxima assembleia de sócios, em junho. A campanha Fuera Pinochet tem até uma página web própria para reunir aderentes à causa.

  • Lucaza Lee Izoton

    Qualquer semelhança com o que fazem a Globo e outros jornalões aqui no Brasil, eu lhes asseguro, não é mera coincidência.

  • Luís Carlos Thomas

    E aqui no Brasil, a Rede Globo continua a praticar, impunemente, as mesmas patifarias de sempre e ainda enganando muita gente. Mas também chegará o dia em que terá de prestar contas dos seus atos. Não existe mau que dure para sempre. Parabéns ao Chile e aos chilenos por não deixarem impunes aqueles que, pela violência, oprimiram o próprio povo.