San Lorenzo será o primeiro milagre de Francisco?

O San Lorenzo de Almagro é um dos clubes mais tradicionais da Argentina e considerado um dos cinco times grandes de Buenos Aires – junto com Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing Club. É também o único com retrospecto favorável contra o Boca, e sua torcida se vangloria de ter o rival xeneize como freguês.

Torcida azul-grená diz que o clube já nasceu com a bênção divina.

Torcida azul-grená diz que o clube já nasceu com a bênção divina.

Porém, uma maldição recai sobre clube. A mesma que os corinthianos sofreram em São Paulo até 2012, por ser o único dos grandes que nunca havia vencido uma Libertadores. Maldição justificada desde a primeira edição do torneio, pelo que contam os próprios torcedores: o San Lorenzo foi o representante da Argentina na primeira Taça Libertadores da América, em 1960. Campeão argentino no ano anterior, o time azul-grená eliminou o Bahia na primeira fase (3×0 em casa, 2×3 fora), e nas semifinais enfrentou o Peñarol.

A lenda diz que o clube fez pouco caso da nova competição. Depois de dois empates com os uruguaios (1×1 fora, 0x0 em casa), a disputa foi decidida numa terceira partida, que o San Lorenzo aceitou que fosse em Montevidéu, por considerar que o torneio não tinha tanta importância. O Peñarol ganhou por 2×1, e depois venceria o Olimpia do Paraguai, para ser o primeiro campeão continental de futebol.

O San Lorenzo voltou à Libertadores somente em 1973, quando foi novamente eliminado nas semifinais, resultado que se repetiria também na terceira participação, em 1988. Claro que nesse tempo todo, o clube enfrentou seus altos e baixos. Chegou a ser rebaixado em 1981, devido a uma crise resultou também na perda do Estádio do Gasômetro, vendido a uma rede de hipermercados – numa das mais deliciosas crônicas do livro Futebol Ao Sol e À Sombra, Eduardo Galeano narra a visita do antigo ídolo José El Nene Sanfilippo, carrasco do Bahia na primeira Libertadores, ao hipermercado construído sobre o velho estádio, na que foi contando as jogadas históricas que realizou entre uma prateleira e outra.

O clube voltou à primeira divisão no ano seguinte, mas flertaria com o descenso muitas outras vezes, a última delas em 2013.

Quando Bergoglio se tornou Francisco, tudo mudou no San Lorenzo.

Quando Bergoglio se tornou Francisco, tudo mudou para melhor no San Lorenzo de Almagro.

No dia 11 de fevereiro de 2013, a torcida do San Lorenzo fazia contas em mais uma campanha contra o rebaixamento, e nem percebia que talvez os anjos conspiravam a seu favor no Vaticano. Naquele dia, o papa Bento XVI renunciou ao cargo, algo que não acontecia desde 1415. A eleição do seu sucessor também foi uma surpresa, o escolhido foi um cardeal de formação jesuíta, o argentino Jorge Bergoglio.

Francisco, o primeiro papa latino-americano da história, é fanático pelo San Lorenzo, sócio do clube desde jovem e torcedor desses que, quando morava em Buenos Aires, ia aos jogos de batina e tudo. A imagem da equipe sempre esteve ligada à religião católica. O San Lorenzo tem esse nome em homenagem ao padre Lorenzo Massa, padrinho da instituição recém fundada em 1908. Nos primeiros anos, o padre Massa não era o único seguidor religioso, muitos outros sacerdotes simpatizavam com o clube com nome de santo, razão pela qual os rivais apelidaram a torcida como los cuervos (os corvos, sempre vestidos de negro).

No dia em que Francisco foi escolhido como papa, o número sorteado pela loteria argentina foi o 88235, o mesmo da sua carteirinha de sócio do clube. Era o sinal de que, com o pontífice como torcedor, a luz divina iluminaria o caminho do time.

No primeiro duelo do San Lorenzo após a escolha, os jogadores entraram em campo com uma camiseta que exibia uma foto do papa no peito. Jogando como visitante, contra o Colón de Santa Fé, a equipe sofreu durante todo o jogo, mas venceu por 1×0, com um gol contra. Dali em diante, deixaram a luta para não cair e passaram a ganhar, quase sempre com sofrimento, mas com vitórias enfim.

Como na Argentina os campeonatos são semestrais, depois da salvação, o San Lorenzo iniciou o segundo semestre com outro espírito. Continuou ganhando com sofrimento, mas dessa vez, as vitórias renderam o título de campeão argentino.

Neste 2014, o retorno ao cenário internacional não poderia ser melhor. Já deixou para trás três brasileiros, começando por Botafogo e Grêmio. Ao eliminar o Cruzeiro (Zezé Perrella viu o sonho do tri se transformar em pó), o clube chegou novamente a uma semifinal continental, algo que não acontecia há 26 anos.

Já é a melhor campanha dos corvos na competição, que agora será paralisada para a Copa do Mundo. Somente em julho saberemos se o San Lorenzo conquistará finalmente sua primeira Copa Libertadores. Os fiéis torcedores esperam ansiosamente por esse primeiro milagre de Francisco.

Com Francisco no peito e a fé em quebrar um tabú.

Com Francisco no peito e a fé em quebrar um tabú.

  • Joca

    “…Zezé Perrella viu o sonho do tri se transformar em pó…”
    Haja pó, quase meia tonelada!!!!!

  • – chegou até aqui por milagres ex. contra o Grêmio o juiz não deu uma penalidade a favor do Grêmio quando estava zero a zero lá em Buenos Aires. Em Porto Alegre o zagueiro tirou em cima da linha, este é um lance que de cada 1000 somente um não é gol. Contra o Cruzeiro em BH a bola toca nas duas traves e não entra.Parece que o Papa é milagroso.

  • CARLOS

    Já estou torcendo pelo San Lorenzo! O Papa Francisco é muito merecedor desta alegria!